Ailton Villanova

24 de outubro de 2017

O falso “polícia” se deu mal!

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          Todo mundo na finada Rua da Matança – que ficava inserida no mapa da antiga zona do meretrício do Canaã -, tinha o José Orozimbo Bicalho na conta de policial civil. Por isso, na citada artéria e adjacências o sobredito era tratado com o maior respeito e consideração. Montado nessa falsa autoridade, ele foi além das suas “atribuições” chegando ao ponto de se envolver, até,  em bate-bocas de vizinhos e brigas entre marido e mulher.

      Num belo dia de domingo, uma distinta senhora intitulada Maria Joana da Conceição, que morava próximo ao tal Zé Bicalho, inventou de organizar um piquenique somente para vizinhos e o convidado de honra foi, justo, ele. A turma se deslocou das alturas do Canaã à praia de Jacarecica, montada na caminhoneta do Cícero Beiçola. A curtição foi grande, com direito a batucada e mil cantorias.

       Lá pelas tantas, a rapaziada espalhada pelas areis praieiras, muito nego cachaçudo, eis que eclodiu uma contenda perto do local onde se achava cantarolando o grupo do qual fazia parte justo o Bicalho. Aí, alguém gritou pra ele:

       – Corre lá, seu Zé Bicalho, que os caras estão se matando!

       – Eeeu?

       – Claro! O senhor não é autoridade policial?

       – Sou, mas agora estou de folga!

 

       O papo não colou. Enquanto os contendores trocavam socos e pontapés, a turma insistia no pedido de socorro ao Bicalho. Até que, empurrado pela galera, ele foi lá acabar com a briga. Chegou junto dos lutadores e botou boca dura:

        – Êêêpa! Tá bom! Vamos parar, já, com essa confusão!

        E quem ligou pra ele? Os caras continuaram se engalfinhando na areia. Bicalho insistiu:

        – Vocês não me ouviram falar, não? Acabem já com essa briga!

        Um dos contendores respondeu:

        – Ora, vai te lascar, porra!

        Bicalho olhou em redor e viu todo mundo ligado nele. Em assim sendo, não podia ficar desmoralizado perante a plateia. Aí, cometeu a seguinte imprudência:

         – Tá todo mundo preso! Aqui é a “puliça”! Barriga no chão, vamos!

         Acontece que os brigões eram todos soldados do Pelotão Especial da Polícia Militar que estavam aproveitando a folga para aperfeiçoarem os seus conhecimentos de karatê e luta livre.

          Bicalho entrou pelo cano quando os militares exigiram que ele apresentasse a sua identidade específica. Como ele jamais possuiu esse tipo de documento, até porque jamais pertenceu a corporação policial alguma, foi levado preso para a Delegacia de Plantão, onde foi autuado por falsidade ideológica. E ainda levou uns tabefes, para completar a desmoralização.

 

Conquistador azarado

      Naquilo que botou o olho na empregada doméstica Maria Odete, o pedreiro Jeová Pereira ficou gamadão. Aí, não perdeu tempo: partiu resoluto para a garota e lascou o papo:

      – Amei você à primeira vista! Será que haveria a possibilidade de um entrosamento entre nossas distintas pessoas?

      E ela, toda dengosa:

      – Talvez, né?

      O papo rolou curto, porque os dois estavam debaixo de um sol escaldante, na praia da Avenida da Paz. Marcaram, então, um encontro para a Praça Sinimbu.

       Entusiasmadíssimo com a nova conquista, o Jeová, muito sacana, tratou, imediata e urgentemente, de romper o noivado de 15 anos com a costureira Otelinea, que quase se derreteu toda, de tanto chorar.

      Oito horas da noite, mais cheiroso do que filho de barbeiro, o apaixonado Jeová  baixou na Praça Sinimbu, conforme havia combinado com Maria Odete. Mas, eis que estacou surpreso, o coração aos pinotes, quando avistou a amada enroscada com um negrão de dois andares, os dois escorados numa árvore. Refeito do susto, armou uma cena de ciúme:

       – Otelínea, quem é o otário aí?

       A doméstica olhou pra ele de cima a baixo e respondeu :

       – Se tem um otário aqui, esse otário só pode ser você! Se enxerga não?

       Diante da desmoralização, e com o orgulho machesco ferido, o pedreiro fez, então, uma coisa que jamais deveria ter feito: sapecou um tabefe na cara da Otelínea. Em seguida, ele próprio sentiu o chão sumir de debaixo dos pés, porque alçou uma espécie de vôo, indo aterrissar cinco metros adiante. Havia levado uma porrada violentíssima do negrão. Quando se levantou, com enorme sacrifício, tinha fraturados a mandíbula, uma clavícula, cinco costelas, e o nariz. De quebra, os quatro dentes da frente arrancados.

 

Por causa dos óculos…

      Querendo embonitar-se para exibir sua pessoa perante o mulherio do Pontal da Barra, o pescador Petrúcio Orégano entendeu que escanchando um par de óculos escuros no pau da venta, ficaria ainda mais charmoso do que imaginava ser. Assim, montado nessa ideia, baixou na finada Feira do Passarinho e parou na barraca do camelô Claudézio Dias, cujo mostruário exibia “disfarça olhos” de todas as espécies e para todos os gostos.

      – Quero um óculos que assente com a minha personalidade. Dá pra arrumar um? – falou ele para o camelô.

      Este respondeu, exibindo um sorriso cheio de dentes de ouro:

      – Se dá? Só se for agora, meu amigo!

      Dito isto, o camelô deu garra de um monte de óculos de lente escura, escolheu um que tinha armação fantasiada e sentenciou : 

      – Com essa daqui o amigão vai abafar! É peça lorde, eu agaranto!

      Orégano olhou para a peça e reagiu:

      – Tá pensando o quê, meu? Esse aqui é óculos de palhaço!

      – O amigo quer esculhambar o meu produto? Se num tem dinheiro para adquirir a peça, diga logo!

      – O óculos é de palhaço, sim!

      – Se é assim, dá justinho na sua cara!

      – Tá me chamando de palhaço?

      – Parece, num é?

      Aí, o papo não prestou mais. Injuriado, o Orégano sapecou um chute no mostruário do camelô. Voou óculos pra tudo quanto foi lado. O camelô revidou com outro chute na canela do Orégano e aí o pau cantou, sendo necessária a presença da polícia no recinto.

       Resultado: além de ter sido obrigado a indenizar todo o estrago que causou na banca do camelô, o Orégano foi recolhido à carceragem do 6° Distrito de Polícia, de onde, mais tarde, foi transferido para o ainda existente presídio São Leonardo.