Ailton Villanova

20 de outubro de 2017

Chantagista na paróquia

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      Desde pequeno o tal de Cristinaldo Gerúndio era useiro e vezeiro do expediente da chantagem. Ademais, ostentando a pose de galã de quinta categoria, não dava muita colher-de-chá para o mulherio que pintava no seu terreiro. Do tipo canalha, ele humilhava.

      Um dia, ele se transferiu de malas e bagagens para o interior alagoano, onde entendeu de só exercitar o seu charme perante madames compromissadas, tarefa que jamais considerou perigosa. Frequentemente estava se ocupando de damas de projeção e relevo do ‘hinterland’, conforme diria o cronista social aposentado Luís Barbosa.  

       Em determinada ocasião, a mulher de um fazendeiro notório pela sua riqueza e pela sua brabeza, baixou na sede da paróquia comandada pelo reverendo Ezíquio Abreu, e se abriu preocupadíssima:

        – Padre, eu pequei! O senhor me conhece e sabe que jamais traí o Aderbal, meu marido…

        – Hum… hum… – fez o religioso.

        Ela continuou:

        – Acontece que apareceu aqui na cidade um homão lá de Maceió; um pedaço de mau caminho… O senhor sabe, né?, a carne é fraca…

        O vigário indignou-se com a confissão:

        – Pare! Não continue!

        Em seguida, reverendo Ezíquio passou um sermão na mulher e, como penitência, determinou que ela deixasse uma oferta de 200 cruzeiros (era a moeda da época) para as obras assistenciais da paróquia. De quebra, lascou-lhe 100 ave-Marias.

          Logo depois, outra madame surgiu na igreja com a mesma história a respeito do tal galã da capital. Novo sermão e a penitência subiu para 250 cruzeiros de contribuição para as obras da igreja, além de 20 pai-nossos e 30 ave-Marias.

           E nos dias seguintes formou-se verdadeira romaria diante do confessionário do padre Ezíquio, sempre com mulheres que haviam chifrado seus respectivos maridos com o forasteiro bonitão.

           E o padre lascando penitências pra cima das mulheres.

           E o valor das contribuições subindo!

           Num comecinho de tarde, o sacerdote se achava no confessionário, aguardando novas pecadoras quando uma pessoa ajoelhou-se ao seu lado.

            – Pode falar, minha filha! – pediu o reverendo. – Por acaso você também cometeu adultério com o tal garanhão da capital?

             – Não, padre! O garanhão sou eu! – interrompeu uma voz masculina.

             – Aháááá! Finalmente, resolveu confessar os seus pecados, hein, infiel?

             – Não, padre! Eu vim aqui a negócios…!

              – Negócios???!!!

              – Sim, senhor. Vim avisá-lo que, se quiser terminar a reforma da igreja, terá que me dar 50% do valor das penitências, senão eu mudo de paróquia!

 

Ah, o corno é o outro!       

      Emérito tomador de ‘cana’, o Estraíldo da Anunciação, baiano da gema, nunca foi chegado ao trabalho. O sujeito é do tipo que qualquer servicinho exige um esforção e fazer muito esforço não é com ele. Malandrão, vive às custas da mulher que, diga-se de passagem, é um tremendo ‘boeing’. Verbena é o nome dela.

       Adepto do esporte de levantamento de copos e arremesso de cascos de siri, o malandro não dava essas bolas todas pra ela, a não ser quando estava necessitando de grana, que era quase sempre. Certa noite, ele chegou em casa mais cedo e mais biritado que das vezes anteriores. Ao entrar no quarto de dormir, flagrou a esposa deitada com outro cara na cama. Seu primeiro impulso foi o de entrar na porrada com os dois, mas deu marcha-à-ré no último segundo. Encostou-se no portal e começou a refletir. Verbena nunca mais reclamou que as despesas de casa estavam altas, e nem dos ‘empréstimos’ que constantemente lhe fazia. Que estaria acontecendo? A resposta poderia estar ali, bem na sua frente.

        Estraíldo foi até a sala, espichou-se no sofá e continuou botando a massa cinzenta pra funcionar. De repente, o estalo:

        – Porra! Ultimamente a Beninha vem luxando pacas! E as crianças agora estão estudando no melhor e mais caro colégio da capital…

        Estraíldo continuou refletindo: além de cheirosa, bonitona e pagando colégio de luxo para as crianças, ela ainda mantinha a despensa na maior fartura. E as contas de água, luz, telefone, internet, celular a cartão de crédito? Fazia um tempão que ele não tinha ouvido falar delas.

         – Será que é aquele cara que está com ela na cama que banca as nossas despesas? – conjecturou.

         Aí, esboçou um ar de riso:

         – Bom, se é ele quem paga tudo e eu ainda durmo com ela todas as noites, então o corno não sou eu!

         Levantou-se do sofá, abriu a porta e voltou para a rua, escancarando:

         – Pô! O corno não sou eu! O corno é ele!

 

Dessa vez foi incêndio mesmo! 

      Casados havia quase 70 anos, seu Heliogábalo e dona Anfrísia formavam um casal tranquilo. Ele beirando os 95 anos de idade e ela com cerca de 90. Moravam numa fazenda um pouco mais pra dentro de Palmeira dos Indios, onde criavam gado e plantavam milho e feijão. Um dia do mês de julho, uma brisa fresca soprava folhas de árvores que rodopiavam no ar. Da cozinha, onde preparava os seus quitutes, dona Anfrísia avistou quando o marido saiu correndo de trás de um galpão, trombou com uma vaca, arrastou a roupa do varal no peito e entrou em casa na maior euforia:

      – Chega, minha velha! Vamos aproveitar!

      E ela:

      – Aproveitar o quê, meu velho?

     – A ereção! Eu estou tendo uma ereção!

     – Virgem Santa Mãe! Vamos aproveitar, sim!

     O casal de velhinhos correu para o quarto, trancou a porta, dona Anfrísia vestiu uma camisola, o velho ficou só de cueca, e então caíram na cama. Vapt, vupt!

      A transa foi fraquinha.

      Duas semanas depois, o velhusco estava animado de novo:

      – Corre, Frisinha! Estou tendo outra ereção!

      Dessa vez a anciã caprichou: vestiu uma camisola mais sexy, banhou-se com perfume francês, passou uma maquiagem básica e espichou-se na cama, aguardando a iniciativa do marido. E ele:

       – Você demorou demais, minha velha! A ereção foi embora!

       Passaram-se os meses, veio o primeiro ano depois daquela última frustrada tentativa de sexo e entraram no segundo ano.

        Num finalzinho de tarde, lá estava dona Anfrísia cumprindo o ritual de sempre, na cozinha, quando viu o marido sair correndo de trás do galpão, trombar com uma vaca e arrastar a roupa do varal. Então, ela não pensou duas vezes. Mandou-se para o quarto, tirou a roupa e ficou naquela expectativa, com as perninhas abertas.

         Seu Heliogábado entrou em casa desesperado, correu pro quarto e encontrou a esposa em posição de combate. Aí, ele gritou:

         – Pelamordedeus, Anfrísia! A casa pegando fogo e você querendo trepar!