Ailton Villanova

17 de outubro de 2017

Sabedoria matuta

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      Há muitos anos atrás, um grupo de estudantes de engenharia da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) saiu de Maceió para conhecer uma obra rodoviária que o Departamento de Estradas de Rodagem vinha executando no interior do estado.

      Ao desembarcarem do ônibus que os levara até o local agendado, os universitários foram recepcionados por um certo Ezequias Bezerra, sujeito metido a besta que se dizia “engenheiro”. Na verdade, o cara era um mero xeleléu de mestre-de-obras.

       E Ezequias saiu na frente dos pelancos de engenheiro, falando pelos cotovelos. De repente, o grupo encontrou um matuto deitado na estrada, a cabeça encostada no chão. Aí, uma universitária exclamou, penalizada:

       – Coitadinho! Terá sido atropelado por algum trator… ou por um caminhão…?

       Aí, saltou o exibido do Ezequias e falou:

       – Menas verdade, senhorita! Este aqui é o  Sebasto, caboco bom, trabalhadô… Puraqui ele sabe de tudo, num é Sebasto?

       O cara só fez gemer:

       – Hummm… hummm…

       – Tá tudo im órde? Diz aqui pros rapais e pras moças quê que acunticeu…

       – Um bando de ciganos…

       Ezequias voltou-se para os estudantes e disse:

       –  Víro só? Deitadinho aí no chão, ele aduvinha o qui vem vindo a léguas de distança…

       – É mesmo, moço?! Coisa incrível! – admirou-se outra universitária.

       – Pois é. Qué vê só?

       – Quero!

       Ezequias curvou-se sobre o matuto, que continuou de ouvido colado no chão:

       – Quantas carroça?

        – Hummm… Umas quatro!

        – Oooohhh! – fizeram os universitários perplexos.

        – Uqui mais?

        – Na premêra carroça tem um hôme e uma mulé. A segunda tem dois hôme. A teucêra, tá carregada de tráia e a úrtima tá vazia!

        A turma toda de queixo caído e o Ezequias dando corda no infeliz:

        – Ô Sebasto, isprica pros moço, cuma é qui tu sabe de tudo isso…

        E o matuto:

        – O premêro hôme usa carça azú, camisa branca e a mulé tá de saia  incarnada. Os ôtro home tá de camisa xadrêis!

        Um dos universitários não se conteve:

        – Meu Deus, isso é fantástico!

        Aí, Ezequias meteu o bedelho de novo:

        – Tá vendo? Só mermo um hôme da roça pode sabe de tudo isso!

        E como ele consegue?

        Antes que Ezequias abrisse a boca para responder, o próprio matuto esclareceu:

         – Simpre! Tá fazendo dois minuto qui eles pássaro purcima d’eu!

 

Do jeito dele

      Altamente biritado, o malandro Napoleão Cerqueira inventou de subir numa das mesas de certa boatezinha da periferia para manifestar a sua vontade:

      – Dou mil paus para a quenga que fizer as coisas do meu jeito, falei?

      Num instantinho surgiram quatro seguranças que o pegaram pelos sovacos, deram nele um baculejo e o atiraram no meio da rua. Napoleão caiu todo esparramado, mas quando estava se levantando, apareceu uma mulher que disse topar a parada…

       E lá se foram os dois pro bordel que ficava a meia quadra de distância. Depois de terem pintado o diabo, a dona perguntou ao malandro:

        – Então, meu bem, qual é o seu jeito, afinal?

        E ele:

        – A prazo!  

 

A tara dele era o sargento!

      Ele era um milico ignorantão. O sargento PM Araken tinha a fama de durão e a bunda avantajada. No quartel do destacamento interiorano, turma o chamava, na baixa, de “Sargento Bundão”.

      Num final de tarde, ele passava a tropa de recrutas em revista quando notou o soldado Batista com o pênis em riste. Aí, ele chegou junto do PM, pegou uma nota de 10 cruzeiros e entregou pra ele:

       – Toma isso e vai se aliviar na zona!

       No outro dia, a mesma hora olha o recruta com nova ereção!

       Sargento Bundão recorreu novamente à reserva de emergência. Catou outra nota de 10 cruzeiros e entregou pro cara:

       – Outra vez, rapaz?! Assim não dá! Pega esse dinheiro e volta à zona, para um jeito nisso de vez!

       No terceiro dia, lá estava o mesmíssimo soldado mais ligadão ainda. Dessa vez o sargento explodiu:

       – Putaquipariu!Vá de novo pra zona, seu tarado!

       E o recruta:

       – Meu negócio não é zona, sargento. Meu negócio é o senhor!

 

Sujeito bom de faro

      Sertanejo macho, o Aparecido Custódio, nascido e criado em Delmiro Gouveia, entrou numa churrascaria em Paulo Afonso com a intenção de pegar um rango no capricho. Sentou-se diante de uma mesa e logo apareceu o garçom com o cardápio. Ele reagiu:

      – Precisa não! Sertanejo que é sertanejo não lê cardápio. Basta dar uma cheirada na faca do assador e pronto

      O garçom, então, apresentou-lhe a faca. Ele cheirou e disse:

       – Essa picanha é da boa! Pode trazer!

       O garçom levou a picanha, Custódio chamou na grande e quando acabou, pediu:

       – Ô rapaz, me trás outra faca pra eu cheirar!

       O garçom atendeu ao pedido, o Custódio deu nova cheirada e sapecou:

       – Costela de porco! E está no ponto! Pode trazer!

       Depois de comer a costela, Aparecido Custódio pediu a faca mais uma vez e o garçom, um cabra muito do sacana, resolveu pregar-lhe uma peça. Chegou para a cozinheira e pediu:

         – Gerusa, enfia o dedo na xoxota e passa na lamina dessa faca, por favor!

         Assim que lhe foi entregue a faca, Custódio levou-a imediatamente ao nariz, cheirou, arregalou os olhos e perguntou ao garçom:

         – A Gerusa agora está trabalhando aqui?!