Ailton Villanova

10 de outubro de 2017

Pegou o retrato errado!

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      Entre as décadas de 60 e 70 tivemos nas Alagoas de Deodoro e Floriano uma dupla de repórteres-policiais da pesada. Inegavelmente, a melhor do período prefalado. Valter Lima e Jorge Oliveira ofereceram aos seus leitores incontáveis “furos” jornalísticos. Irreverentes e gozadores, aprontaram horrores. O leitor amigo daquele tempo, e o de hoje também, devem estar lembrados de algumas das histórias desses parceiros, contadas nesta coluna, que não é tão novinha assim. Ela tem exatos 50 anos de existência, tendo principado na Gazeta de Alagoas, passado pelos saudosos Jornal de Alagoas, Gazeta da Tarde, Tribuna de Alagoas, Correio de Alagoas e estacionado aqui, na Tribuna Independente.  

      Valter Lima ingressou no jornalismo alguns meses antes de Jorge Oliveira começar a ensaiar os primeiros passos como repórter setorista. Aposentou-se prematuramente depois que sofreu um grave acidente automobilístico no Recife, que quase lhe valeu uma das pernas.

       De sua parte, Jorge Oliveira ainda permanece no batente. Duas vezes “Prêmio Esso de Reportagem”, virou figura internacional atuando como cineasta, sem abdicar, entretanto, da condição de jornalista fogoso e destemido. Atualmente é marqueteiro político e mora em Brasília.

        Desde “foca” – aprendiz de jornalista dos tempos antigos -, no Jornal de Alagoas, Valter Lima era um profissional ousado e criativo. No começo de noite de uma segunda-feira calorenta, seu chefe, Zito Cabral, de saudosa memória, então editor da página de Polícia, chamou-o à sua mesa de trabalho e anunciou:

        – Bicho, esta tarde mataram um estivador, em Jaraguá… Briga de bar, entende?

        – Deu pra entender. E daí? – retrucou o Valter.

        – E daí que eu quero a matéria completa sobre esse caso. Deve dar título de cabeça de página. O corpo do cara já foi liberado pelo doutor Duda Calado. Acredito que, a estas alturas, deve estar sendo velado em casa. Vá até lá!

        – Deixa comigo!

        Com o endereço da vítima guardadinho no bolso da camisa, o repórter disparou para o ponto do ônibus, que ficava na Rua do Livramento. Naquele tempo, repórter não tinha a mordomia de hoje em dia (carrinho novinho à disposição para rodar pra cima e pra baixo e até dinheiro para o lanche).

         Hora e meia depois, ele chegava à residência do finado, no bairro de Ponta da Terra, com caneta e bloco de anotações na mão. O defunto se achava estirado num caixão cheio de flores, instalado no meio da sala. Choradeira danada. Mil fungados e assoados de ventas.

          Valter Lima apresentou-se à viúva que, inconsolável, não parava de chorar:

           – Dona… meus pêsames…

           E ela:

           – Snif… Brigadinha… snif…

           – Eu sou repórter do Jorna de…

           Nem terminou de falar. A mulher deu um pinote de lado e gritou, de olhos arregalados:

            – Repórter?! Deus me livre! Quero saber de repórter não, meu senhor!

            Valter Lima insistiu:

            – Mas, dona, é só uma palavrinha…

            – Nem uma “palavrinha” e nem uma “palavrona”. Vocês são terríveis! A gente diz uma coisa e vocês escrevem outra! Faça o favor de se retirar da minha casa!

            Nem por isso o colega se deu por vencido. Pelo menos uma fotografia do morto ele teria que arrumar para ilustrar a matéria. No texto, ele se viraria com os dados que havia colhido no IML.

            Cochicha daqui, cochicha dali, eis que surgiu uma vizinha bisbilhoteira (que não tem uma, não é?) que lhe deu a dica:

            – Ei, seu repórter! Alí no corredor tem um quadro com a foto do finado, pendurado na parede…!

            Valter animou-se todo e ficou aguardando a oportunidade para surripiar o bendito quadro. Na primeira oportunidade que lhe surgiu, embocou no corredor escuro e catou o primeiro quadro que viu dando sopa. Devia ter reparado direito, mas não reparou. Retrato surripiado, rapidamente ele o escondeu debaixo da camisa e saiu disfarçando até chegar à rua, transpirando mais do que tampa de chaleira.

              De volta à redação ostentando a cara de vencedor, Valter Lima encarou Zito Cabral e anunciou:

               – A matéria vai sair com foto exclusiva!

               Cabral exultou:

                – É mesmo, barbudo?

                – E eu durmo, baixinho?

                Dito isto, meteu a mão por dentro da camisa, retirou um retrato emoldurado,  que jogou em cima do birô do Zito:

                 – Olhe aí o homem!

                 O editor reparou no quadro e indagou assustado:       

                  – Este é o homem, barbudo?

                  – Claro!

                  – Tem certeza que é ele mesmo?

                  – Mas é evidente!

                  – Nesse caso, temos aqui o maior furo do século! Mataram Jesus Cristo pela segunda vez! – exclamou Cabral cheio de ironia.

                  É que o retrato furtado pelo Valter Lima da casa do inditoso era do Sagrado Coração de Jesus.

 

Graças a Deus!

      Meu saudoso amigo Gerson Argolo de Melo, coronel da reserva remunerada da briosa PM e advogado, tinha um conhecido chamado Dionísio que era o cara mais desligado do mundo.

      Certo dia, Dionísio pegou um avião e se mandou para São Paulo, sem dizer pra ninguém o que pretendia fazer por lá. No meio da viagem, lá nas dos 10 mil metros do chão, ele percebeu que a aeronave tinha ficado no maior silêncio. Agitados, os comissários de bordo corriam pra cima e pra baixo, feito baratas tontas. Aí, Dionísio fez sinal para uma das aeromoças, que chegou junto:

        – Pois não, senhor…

        E ele:

        – Quê que está havendo? O avião está silencioso ou eu…

        E a jovem, algo aflita:

        – É que as turbinas pararam!

        Dionísio suspirou aliviado:

        – Graças a Deus! Eu pensei que estava ficando mouco!