Ailton Villanova

4 de outubro de 2017

A “AMANTE” DO DELEGADO

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  Ele nasceu no sertão de Alagoas lá se vão cinquenta e tantos anos. Mal abriu os olhos para o mundo, já estava sendo levado pelos pais – seu Jucundino e dona Severiana –, para ser batizado na paróquia do padre Vivaldo Barbosa, um velho conservador em vias de aposentar-se.

      Seu Jucundino e dona Severiana entraram com aquele menininho mirradinho nos braços e se acercaram da pia batismal, onde já tinha um monte de bebês, pais e respectivos padrinhos. Maior choradeira.  Ficaram, então, aguardando a vez do sambudinho ser chamado para receber o sacramento, na pia batismal.

      Não demorou muito, padre Vivaldo pediu que Jucondino e Severiana se aproximassem e perguntou:

       – Como é o nome do garotinho?

       A mãe respondeu:

       – Ciço…

       – Cícero, não é?

       – É, inhô sim.

       O sacerdote fez uma careta, mas se recompôs imediatamente. Com muito jeito, falou aos genitores do pequeno:

        – Eu poderia sugerir um outro nome pro batizando? Cícero é um nome tão comum, não é?

        E o pai, muito humildemente:

        – Ora, seu vigáro possa sugerí. É nome de santo?

        – Não. Não é, não. É um nome histórico.

        – Intonce, bossa butá. Qui nome é?

          – Estrázulas!

          – Cuma?

          – Estrázulas! Não é lindo?

          A mãe foi sincera:

          – Acho não, seu pade! Minha líunga num dá pra prenunciá esse nome.

          Mesmo assim o rebento foi batizado com o nome de Estrázulas. Mas ficou sendo chamado de Tatáu, por iniciativa da mãe.    

           Muitos anos mais tarde, arribado de Alagoas, eis que nosso Tatáu esbarrou no interior de Roraima (o meu amigão Rubens Vilar ainda não tinha sido  eleito governador de lá), na qualidade de mestre de pedreiro dos mais competentes. Fora contratado para trabalhar na construção de uma barragem. Levou o maior susto com o tamanho da verdadeira cidade em que se transformara o canteiro de obras. Tinha igreja, bares, lojinhas, boates… Tinha até um cinema. Só faltava uma coisa, justo o principal: mulher. Não havia nem sombra de mulher.

              – Aqui num tem mulé não, meu chefe. Só num raio de 100 quilômetros – esclareceu um trabalhador.

              – E como é que a gente faz…? – perguntou Estrázulas intrigado.

              – A gente se vira cum bicho mermo!

              – Com bicho?!

              – É o jeito. Eu mermo pissuo uma capivara. Só qui tem uma coisa: todo mundo arrespeita a bichinha do outro. Nada de traição. Pode dá inté im morte!

              Passadas algumas semanas, Estrázulas não aguentou mais a secura e arrumou uma porquinha.

              E lá ia ele, todo ancho, com a bacurinha debaixo do braço quando todo mundo começou a correr e se esconder. Estrázulas ficou cabreiro com a atitude da rapaziada. Foi quando alguém gritou:

                 – Larga essa leitoa, seu Tatáu! Some com ela!

                 – Mas por quê? Todo mundo aqui tem o seu bicho… e por quê não posso ter o meu?               

                 – O senhor pegou a “mulé” errada! Essa daí é a amante do delegado!

 

Ah, se eles soubessem!

      A menina é dessas de arrepiar até cabelo de estátua. Corpo sensacional! Ela dava bobeira na praça Sinimbu quando foi interpelada pelo tal de Pedro Wilson, que sempre se gabou de ser o maior devastador de hímem da área.

       – E aí, boneca – falou o safado –, dá pra curtir um papo descompromissado a dois?

      E ela, mastigando chiclete e piscando os olhinhos:

      – Rá… Acho que dá!

      Não demorou muito, os dois tiravam o maior sarro na areia da praia poluída da Avenida da Paz. Terminado o rala e rola, o cara se desculpava cheio de cinismo:  

        – Perdão, meu anjo… se eu soubesse que você era mesmo virgem, eu teria levado muito mais tempo.

        A garota respondeu no mesmo tom:

        – Puxa! Se eu soubesse que você tinha mais tempo, eu teria tirado a calcinha!

 

Sem intimidade

      O barzinho do Aristeu “Bozó”, humildezinho, mas decentezinho, encontrava-se abarrotado naquele meio de noite. A freguesia era a mesma de todos os dias. A turma de biriteiros da Barra de São Miguel é sempre muito fiel.

       Então, encontravam-se o Aristeu Bozó e seus auxiliares driblando mesas a fim de atender a todos com a maior presteza, quando ingressou no ambiente um sujeito bigodudo, boné encardido enfiado na cabeça e cheio de direito:

        – Ô garçom! Tem algum garçom aqui pra me atender? – gritou ele, mal sentando na primeira cadeira vazia que encontrou.

        O próprio dono do bar  apresentou-se:

         – Pronto, meu amigo! Aristeu, às suas ordens!

         E o sujeito:

         – Me veja uma cerveja geladíssima e um tira-gosto de filé de peixe, falei?

         O cara foi atendido num piscar de olhos. Mesmo assim, achou de reclamar:

          – Ô garçom, o que essa barata filha da puta está fazendo no meu prato de tira-gosto?

           Quem conhece o Aristeu sabe que ele é um cabra malcriado, mas também um tremendo gozador. Na tábua da venta do freguês, ele respondeu :

           – Sei lá, porra! Eu não tenho a menor intimidade com ela!