Ailton Villanova

3 de outubro de 2017

O ATESTADO DE ÓBITO

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 Matuto das lonjuras sertanejas, José Procópio de Almeida (mais conhecido como Procópio Camutinga) apreciava bastante um folguedo junino. De modo que no período de festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro ele caprichava nos arraiais que eram instalados na sua fazenda, onde tinha de tudo – dos animais às plantações.

       Os festejos da época nos domínios de Procópio Camutinga principiavam no dia 1° de junho e se estendiam até o último dia desse mês, com fogueiras, arrasta-pés, quadrilhas juninas tradicionais, fogos de artifício e principalmente muito quentão, tudo organizado pelo velho Arqueleu Januário, famoso nas paragens santanenses porque sabia produzir e manejar, como ninguém, todas as espécies de bombas de pólvora, foguetes de vareta, traques e outros produtos do seu vasto repertório foguisto-explosivos. De Santana do Ipanema, estendendo-se por Dois Riachos e Cacimbinhas, ele reinava. Procópio também era mestre na arte de produzir cachaça no seu alambique particular. O cabra que tomasse um grogue da sua produção cachacífera, não queria parar mais de beber.

      Bom. Alí pelos idos de 1960, Procópio Camutinga inventou de incrementar a festa de São João por um bom motivo: estava completando 50 anos de idade, juntamente com dona Consentina, sua mulher.

       Nesse dia, no meio do espocar de bombas e chiar de fogos de artifício, Procópio arrastava os solados dos pés na quadrilha ensaiada por madame Ambrósia, sua prima, quando,  lá pelas tantas, já doidão de tanto vapor de álcool no juízo, chamou o amigo Arqueleu e encomendou:

      – Queleu, meu velho, prepare aí pra eu uma bebida bem quente. Mande brasa, viu?

      E o primo:

      – Ô Procópio, se eu botar brasa na bebida ela vai apagar. Só se eu misturar com pólvora. Talvez dê certo.

      – Então, o que você tá esperando, rapaz? Chame na colher!

      A bebida foi forte demais. A “marvada” destrambelhou tudo por dentro do ilustre sertanejo, que não teve outra alternativa senão falecer de caganeira.

       Horas depois, nos preparativos para o seu sepultamento e na impossibilidade do médico firmar a respectiva declaração de óbito, porque estava de porre, o tabelião tomou a iniciativa de convocar a viúva para fornecer os dados indispensáveis à feitura do documento.

        – O marido da senhora morreu de disenteria, não foi dona Consentina?

        – Foi, doutor, mas eu preferia que o senhor botasse aí no papel que ele morreu de “urina solta”…

        – Mas minha senhora, eu não posso mentir no Atestado de Óbito.

        – Bote aí que o meu velho morreu de urina solta, pelo amor de Deus!

        – Mas por quê?

        – Porque eu prefiro dizer que fui casada com um mijão, do que com um cagão! 

 

MAS, QUE FOME!

      A mulherada entrou mesmo de cabeça na onda naturalista. As fêmeas estão querendo de todo jeito melhorar a silhueta. E, como não poderia deixar de ser, a redondinha Heleninha Andrade também mergulhou nessa onda.

      Dia desses, ela papeava com a amiga Raquel, na praça de alimentação de determinado shopping da praça, entre um gole e outro de suco de chuchu:

      – Sabe, Quelzinha, minha alimentação mudou radicalmente…

      E a Raquel:

       – É, tô vendo! Suco de chuchu é dose pra leão!

       – Pois é, amiga. Risquei da minha lista tudo o que é artificial… Risquei corantes e conservantes e cortei tudo que contenha agrotóxicos e fertilizantes químicos!

        E a amiga, admirada:

        – Mas que maravilha! Radicalizou mesmo, hein? E como se sente agora?

        – Morrendo de fome!

 

MAS QUE BRINCALHÕES!

      O Constâncio Pinheiro ganhou do patrão, doutor Reginaldo Lima, uma viagem a Salvador, como recompensa pela sua dedicação ao trabalho.

      Constâncio foi à Boa Terra num “asa dura” e voltou enumerando as maravilhas que viu por lá. Mas uma coisa ele fez questão de só contar à dona Maria Cicera, sua mulher:

       – Sabe, Cicinha, o baiano é um povo brincalhão e gozador pra cacete! Uma pessoa cai do ônibus, em plena rua, e ele faz a maior mangação…

       – E tu também mangando junto, hein, safado?

       – Que nada, mulher. Esse caso aconteceu comigo! O cara que caiu do ônibus fui eu!               

 

MACONHOU E ENDOIDO!

      A polícia foi chamada para conter o velho José Agripino que, meio nu,  meio vestido, dava a maior alteração num barzinho da periferia, depois de ter tomado apenas um guaraná. Seu Agripino estava realmente doidão,  coisa estranha para um cidadão evangélico respeitadíssimo.

       Quando a polícia chegou, primeira coisa que seu Agripino fez foi dar uma porrada na venta do cabo PM que comandava a guarnição de Rádio Patrulha.

        Achando esquisito aquele comportamento, o militar perguntou a um freguês muito estranho do boteco:

        – O que foi que houve com o velhinho?

        – É que ele pegou por engano a minha bebida, pensando que era guaraná.

        – E que bebida era essa?

        – Suco de maconha misturado com pó de cocaína…