Gerônimo Vicente

1 de outubro de 2017

Uma história de resgate do CSA que, por pouco não custou o fim da tradição dessas três letras vitoriosas

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Meu glorioso Centro Sportivo Alagoano resgata uma história ao voltar à segunda divisão do campeonato brasileiro, fato que enche de orgulho a todos os azulinos, especialmente, aqueles torcedores que acompanharam a trajetória do clube (três vezes vice-campeão nacional) nos anos 1980 como eu, por exemplo. Minha relação com  o time azulino é de infância, já que o campo do Mutange foi meu espaço de lazer, quando não estava na escola. Morei naquele majestoso bairro, por 18 anos,  com seu casario de colonial que somado ao apito do trem dava um toque poético à localidade. Lá conheci aqueles que se chamam verdadeiros amigos alguns,  inclusive,  que acompanhei na corrida vitoriosa como jogadores azulinos, a exemplo de Peu, que vi nascer no futebol e se tornar campeão do Mundo, em 1981 com a camisa  de meu segundo time, fora de Alagoas, o Flamengo. O lateral Edmilson, o ponteiro-direito Gabriel e o atacante Chico (irmão de Peu) foram também alguns atletas com quem cheguei a trocar passes,antes de eles se tornarem profissionais nos campinhos de barro do estádio Gustavo Paiva. A casa em que morava no Mutange ficava de frente para a avenida Major Cícero de Góes Monteiro e essa visão proporcionou-me essa paixão pelo CSA, desde o final dos anos 1960, por volta dos seis anos de idade. Um dos fatos mais marcantes, quando criança, era assistir aos domingos à passagem dos torcedores e carreatas nas cores branco e azul, depois de cada jogo no campo do CSA. Nesta época o Rei Pelé estava em construção e os bingos para ajudar nas obras era a atração pós-jogos por dastransmissões radiofônicas.

Ao me tornar torcedor de fato, em 1973 memorizo, até hoje, o time titular desta época formado por: Dida, Mendes, Bibiu, Zé Preta e Jaminho;Dudu,Soareste e Batoré; Manoelzinho, Giraldo e Ricardo ou Misso. Foi essa equipe comandada pelo técnico Hélio Miranda que, pela primeira vez viajou de avião, em 1974 para enfrentar o CEUB de Brasília jogo do campeonato brasileiro, composto pelos campeões estaduais.

Toda essa retrospectiva feita nos dois trechos acima remete-me a uma outra lembrança, desta vez já adulto e na condição de jornalista e cronista esportivo que foi uma entrevista, por telefone, feita em 2008 com o empresário Rafael Tenório que na ocasião assumiu interinamente uma junta diretiva do clube azulino, porém havia se deparado com dois obstáculos para ser presidente de fato, os quais foram: a resistência do grupo que comandava o time campeão alagoano naquele ano e o fato de ainda não ser conselheiro do clube. Apesar de ter conquistado o campeonato alagoano, depois de anos de jejum, inclusive amargando uma segunda divisão estadual, a equipe decepcionou na série C, ficando na lanterna ao disputar seis jogos e obter apenas uma vitória. Morria ali, a esperança de  dois acessos, tanto à série B como na própria C, pois a partir de 2009 seria criada a série D, cujo critério de subida seria por meio do ranking nos certames estaduais.

Eu era editor de Esportes do jornal Tribuna Independente e, em plena sexta-feira, estava sem um assunto  que rendesse uma boa reportagem. Por volta das 19h, lembrei que o nome de Rafael Tenório tinha o apoio  da torcida que via no empresário, o modelo gerencial de  tirar o CSA do sono profundo a que foi remetido. Liguei  para Rafael, identifique-me e fiz a mesma retrospectiva do início deste texto.Lembrei os momentos de glória do Azulão e do futebol-arte de alguns jogadores revelados no clube e que guardo na memória, como o zagueiro Zé Preta.

A lembrança despertou a atenção do hoje presidente azulino e  a entrevista virou uma espécie de bate-papo por telefone.Rafael Tenório confidenciou-me sua intenção de presidir, oficialmente, o CSA. Contou as dificuldades existentes e expôs para mim uma situação  que todos os azulinos sabiam, mas não conseguiam admitir a realidade. Perguntou sobre a minha idade quando  eu declarei que conheci grandes ídolos e revelou que foi jogador do clube. Tenório citou o Fluminense de Feira de Santana como  modelo de gestão por ser apoiado pelo comércio do município e via no CSA a possibilidade de adotar o projeto semelhante.

  • O CSA hoje (agosto de 2008)  tem contas bancárias e não consegue movimentá-las porque a justiça do trabalho sequestra qualquer quantia depositada.Temos inúmeros processos na justiça federal por débitos previdenciários e por falta de depósito de FGTS. Há conselheiros e dirigentes que administram o clube e  ao mesmo tempo são donos de passes de jogadores, a ponto de  qualquer discórdia interna tirar atletas do clube. É preciso adotar no clube no modelo gerencial de empresa privada com estabelecimento de metas e de projetos futuros. Acho que a primeira coisa viável para sanar essa situação difícil seria a mudança de nome do clube, declarava Tenório durante a entrevista.

O trecho grifado seria o gancho da reportagem publicada  no jornal no domingo, dia em que o CSA faria a última partida da primeira fase da série C contra o Itabuna, no interior baiano, apenas para cumprir tabela.

A declaração dominou as jornadas esportivas das emissoras de rádio locais naquela tarde.Torcedores que, embora apoiassem o empresário na presidência discordavam da proposta de mudança de nome  pois consideravam a nomeclatura um símbolo da nação azulina. Podia-se alterar tudo, menos essa condição.

Depois de mais uma derrota para selar a lanterna do  grupo formado também por Vitória da Conquista,Itabuna e Sergipe, os repórteres de pista abordaram o então presidente da junta do CSA que, por sua vez se esquivou de perguntas e  alegou equívoco de minha parte.

Como cronista esportivo e torcedor azulino estava dividido sobre essa proposta. Concordava com a mudança de nome para que o clube se livrasse dos bloqueios financeiro, desde que se mantivesse a sigla CSA. Porém,  entendia  a reclamação da torcida.O nome era o símbolo maior do Azulão. Havia gravado a entrevista e, na terça-feira publiquei nota explicando não haver mal-entendido de minha parte na informação e o assunto morreu por aí.

Embora tivesse sido campeão alagoano, o CSA vivia uma crise diretiva. Em 2008, o presidente Francisco Ferro renunciou ao cargo. O vice-presidente Cícero Cavalcante assumiu o clube renovou o elenco com reforços, trouxe o técnico Flávio Barros, levantou a taça, mas como tinha pretensões eleitorais deixou o clube que passou a ser administrado por uma junta que indicou o nome de Rafael Tenório à presidência interina.

O empresário chegou a ser presidente do clube anos depois se tornar conselheiro, mas encontrou as mesmas dificuldades relatadas durante a entrevista a mim concedida.Voltou em 2015, aplicou a filosofia  empresarial que desejava ao fazer uma renovação que  levou o  time a ser o melhor do campeonato alagoano, apesar da perda do título e a  desbancar adversários fortes na série D para conquistar o acesso à série C.

Há margem  para ir mais além da série B como já fora feita outrora. Não fosse a mistura futebol e política e interesses pessoais, hoje  seríamos um  dos 20 maiores do país.E nesse passado recordo-me de 1986, ano em que o CSA disputou a primeira divisão do  campeonato brasileiro. Um timaço  que contava com atletas como Zico (goleiro), Paulo César, Marcelo Washington , Coca, André, Luis Fernando, Nívio, Hélio Sururu, Carlinhos Marechal, Carlinhos Paulista, Luis Cláudio e Ditinho. A equipe bateu o Palmeiras de Gerson Caçapava, Mendonça e Mirandinha por 1 x 0 no Rei Pelé, gol de Nívio e esse dia 5 de outubro daquele ano ficou marcado na minha memória por dois acontecimentos, um alegre, outro trágico. A vitória azulina fortalecia o time para segunda fase da primeira divisão e, por outro lado a notícia triste da quase mesma hora daquele domingo foi o acidente trágico que matou a deputada estadual Selma Bandeira e sua assessora Noraci Pedrosa. Era editor de Esportes do Jornal Extra, o único a sair às segundas-feira e, no outro dia a edição esgotou nas bancas devido a esses dois fatos.

Esse timaço, de 1986 era presidido pelo então candidato a senador pelo PMDB, João Lyra e não foi mais longe porque  o insucesso político do presidente nas urnas fez a diretoria dispensar a maior parte da equipe e,  assim dos 48 clubes da antiga série A, o CSA ficou com a 25ª posição.Porém em seu grupo, o representante alagoano ficou em 7ª posição e apenas os quatro primeiros  iria para a  semifinal.

Enfim, a torcida foi essencial para restabelecer  essa tradição azulina, cobrar seriedade administrativa dos dirigentes e apoiar a filosofia empresarial aplicada pelo presidente do clube que resgatou uma história  sem que fosse preciso  se desvencilhar das três letras (CSA) e, enfim se tornar um dos 40 melhores clubes de futebol do país.