Ailton Villanova

30 de setembro de 2017

COMPROMETIDO COM A “CAUSA”

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      Não se pode dizer que o Cloronaldo Pessoa é uma má criatura. Muito pelo contrário. Apreciador bastante da arte de pincelar uma telinha, Pessoa tem se havido como um perfeito dono de casa. Casado com Efluvina, madame muito discreta e educada, ele anda em falta com a produção filial, embora venha tentando engravidar a cara metade há uns cinco anos. Diz o médico José Carlos Sílver, o famoso Doutor Lalo, que o defeito do bacana aí é de difícil solução, mas ele não está nem aí para o azar. Tem curtido adoidado a condição de “improdutivo”.

       Dia desses, quando se preparava para sair do seu escritório de representação comercial, ele ligou todo afoito para casa. Uma voz melodiosa atendeu:

       – Alô-ôôô…

       – Oi, minha princesa!  

       – Ooooiii – tornou a voz, caprichando na sensualidade.

       – Tudo bem meu amor?

       – Tudo, meu tesão.

       – Tô troncho de saudade de você. Me conte: o que você preparou para o jantar?

       – O seu prato preferido!

       – Uau! Lasanha! É por isso que lhe adoro, minha gostosa. Tudo tranquilo aí?

       – Tranquilíssimo!

       – Ah, você me promete que hoje à noite colo cará aquele baby-doll preto pra mim? Aquele transparente…

       – Prometo, meu tesão. E não vou esquecer o perfume que você mais gosta.

         – Sério? Obrigado minha gostosura. Daqui a pouco lhe vejo. Agora… me chama a patroa, viu?

 

A TENTAÇÃO DA CARNE

       No interior de Pernambuco, mais precisamente em Águas Belas, o pinguço Euzenébrio Calixto encontrou a igreja aberta, e entrou nela, numa boa. No que entrou, deu de cara com o padre Nildo, que quis saber o motivo da intempestiva visita. Então, mal se equilibrando em cima das canelas, Euzenébrio esclareceu:

       – Vim me confessar, padre!

       Acusando o impacto do bafo alcoolífero do pinguço com uma careta, o reverendo indagou, segurando a venta:

        – Tem certeza de que veio aqui para confessar seus pecados, meu filho?

        – Mas é claro, padre!

        – Bêbado desse jeito?!

        – Tô bebo não, padre. Tô só meio “descalibrado”. É pecado?

        – É, meu filho! Você precisa resistir às tentações da carne!

        – E da salsicha, pode?

 

UMA IDEIA INFELIZ!

       Míope do último grau, portanto meio cego, o comerciário Sidney Tricolino usava uns óculos aloprados. Suas lentes eram autênticos fundos de garrafa. Dado o fato de que as benditas eram muito grossas, o seu peso pressionava bastante o pau da venta do coitado. Como consequência disso, a sobredita envergou para baixo e ficou escritinha a um bico de arara.

        Na loja onde trabalha, Tricolino sempre foi chamado de “Olho de Pilha”, mas na Pajuçara, onde mora, a turma prefere identificá-lo pelo apelido de “Ararão”.

         Pois bem. Não suportando mais o peso dos óculos, Tricolino tomou uma decisão: passou a andar de cara limpa, trombando nas paredes, nas pessoas, nos postes. Apesar disso, satisfeitíssimo. Tanto, que resolveu comemorar a iniciativa na companhia do seu melhor amigo, o Floriano Alves, que é irreverente e gozador.

         – Vamos festejar o meu novo visual. – comunicou, apertando os olhos.

         E o amigo:

         – Botou lentes de contato, foi?

         – Ainda não, mas vou botar. Não sei se vão ter grau suficiente pra eu poder encarar a vida com mais nitidez… Mas vou tentar!

         E pararam numa barraca da orla marítima. Logo na chegada, Ararão confundiu um freguês com o garçom e pediu:

          – Ô rapaz, por favor, me traga uma garrafa de uísque 18 anos… Importado, tá me ouvindo?

          Desfeito o engano, os amigos foram atendidos pelo verdadeiro garçom, que avisou:

           – Olha, se for pra tomar agora, vai ser sem gelo… Acabou nestante! Mas, já mandamos buscar… Os senhores esperam?

           O amigo Floriano confirmou:

           – Tudo bem. A gente espera.

           Meia hora depois, nada do infeliz do gelo chegar e o Ararão agoniado:

            – Cadê a porra do gelo?!       

            E o Floriano:

            – Calma, bicho!

            Tricolino Ararão tanto aporrinhou que o parceiro tentou uma saída, na base da gozação:

            – Segure as pontas aí enquanto vou na barraca aqui ao lado. Vou ver se arrumo algumas pedrinhas de gelo emprestadas.

            Floriano levantou-se, correu para detrás da barraca, tirou a prótese dentária, jogou dentro do copo do Tricolino e voltou com o recipiente sacolejando – tlim, tlim, tlim…

             Você sabe, o som de uma perereca sacolejando dentro de um copo com uísque é igualzinho ao do gelo na bebida. É ou não é?

              E haja o Tricolino a balançar o copo, esperando o uísque gelar, e nada! Aí, esperneou:

               – Que gelo fuleiro é esse? O uísque continua quente!

               E meteu a mão dentro do copo. Retirou a perereca do amigo, atirou-a na rua, justo na hora em que passava um automóvel. A perereca foi espatifada pelas rodas do veículo. A galera caiu na gaitada, enquanto Floriano chorava desesperado.

                Ararão também gargalhou adoidado, sem saber porquê.

                No apanhado geral quem saiu mesmo perdendo foi o Floriano, que ficou de boca murcha.