Ailton Villanova

29 de setembro de 2017

A caixa era outra!

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      O arapiraquense Antenórgenes Inácio, também conhecido como Gereba, é mais grosso do que beira de sino, mas é gente boa. Certo dia, ele pegou uma gripe violenta que não tinha jeito de sarar. Dona Risoleta, sua esposa, esgotou todo o seu repertório de chás e meizinhas , tentando curá-lo, e Gereba só naquela de espirrar e tossir sem parar. A tosse que lhe acometera era aquela do tipo “tosse de cachorro”. Desesperado, e orientado por um amigo, ele veio à Maceió e procurou o médico Artur Gomes Neto, na sua clínica da Santa Casa de Misericórdia.

      Doutor Artur examinou detidamente o Gereba e, quando deu por encerrada a tarefa, comentou pensativo:

      – Acho que o amigo velho tem algo muito sério na caixa torácica!

      – Adonde, dotô?

      – Na caixa torácica!

      Gereba reagiu com veemência:

      – Ah, não, dotô! Nessa daí, tenho dinheiro, não! Meus trocadinho tá todo guardadinho é na Cacha Canônica!

 

Rainha da distração

      Dona Alfreda, mulher do Alderindo Barbosa é uma mulher muito legal. Mas tem um probleminha com ela: é muito desligada.

      Belo domingo, uma vizinha desse distinto casal organizou um piquenique para as bandas de Japaratinga e convidou as pessoas mais chegadas, entre essas Alderindo e Alfreda. Conhecida como exímia cozinheira, dona Alfreda foi encarregada de preparar o rango da turma. De modo que ela passou o sábado inteirinho envolvida nessa tarefa. Uma vez concluída, toda a comida foi acondicionada numa cesta enorme e guardada a sete chaves.

          E lá se foi o pessoal enfileirando os seus carros estrada afora, rumo ao local do piquenique. Ao chegarem lá, arrumaram o que fazer. Os marmanjos inventaram uma tal de pescaria, as crianças danaram-se a foguetear e as mulheres entrosaram um papo legal.

           O convescote estava ficando uma beleza, quando os homens deram por terminada a pescaria porque tinham coisa melhor para fazer: biritar. Lá pelas duas da tarde, todo mundo já com as tripas roncando, quando alguém anunciou a saída do rango. Aquela alegria…

            … Logo transformada em tristeza!

            Alderindo, o mais faminto de todos, correu para a cesta onde certamente estaria guardado o almoço. Assim que abriu a referida, arregalou o olhão e deu o grito:

             – Mulher infeliz!

             E a turma toda, em coro:

             – O que foi???!!!

             E ele:

              – Essa mulher é distraída como a peste! Ela trouxe a cesta de roupa  suja, em vez de trazer a cesta de comida!

 

“Minha mulher não é pata!”

       O sertanejo Opitato Rodrigues se mandou das lonjuras de Delmiro Gouveia, com a mulher, dona Deolinda, à tira colo, e veio bater em Maceió, à procura de um médico para examiná-la. Entre inúmeros, escolheu o clínico Rômulo Antônio de Azevedo Uchoa.

       – Seu dotô vim aqui cum a Dió pra mode o sinhô curá o incômudo dela, num sabe? – disse o matuto.

       A paciente tinha o ventre crescido, estava muito pálida, membros e rosto inchados. Doutor Antônio Uchoa mostrou toda a sua craqueza ao diagnosticar, na hora, que dona Deolinda estava sofrendo dos rins. E fez a clássica pergunta ao marido:

       – Sua esposa urina com abundância?

       – Cuma, dotô?

       – Sua esposa urina com abundância? – repetiu o médico.

       O matuto invocou-se:

       – Epa, dotô! Uquié isso?! Pera lá! Minha mulé mija pela xoxota, inguáu as ôtra! Quem mija pela bunda é pato!

 

O polegar serve, sim!

       Sem possibilidade nenhuma de evoluir na administração pública, o servidor Jarbas Dermeval de Oliveira resolveu aposentar-se, mesmo na condição de contínuo, aos 46 anos de serviço. Mas não largou a mania danada de querer ser o que a folhinha não marca. O negócio dele é ser diferente dos outros e nunca está satisfeito com nada.

      Outro dia, encontrava-se pegando um rango numa daquelas lanchonetes da orla da Pajuçara, quando pintou no recinto um antigo colega de repartição, o Sebastião Gregório:

      – Tudo em cima, Dema?

      – Médio!

      – Me conte as novidades…

      – Novidade nenhuma, por enquanto. Antes de você chegar eu estava apenas pensando…

      – Pensando no quê?

      – Na natureza. Eu estava pensando como a natureza é burra…

      Sebastião espantou-se:

      – Mas o que é isso, rapaz? Pirou, foi?

      – Pirei não. A natureza é burra mesmo. Quer ver uma coisa? Pra que a gente tem cinco dedos em cada mão se a gente nunca usa todos eles? Veja só o polegar… Não serve pra porra nenhuma!

       Nesse momento entrou na conversa um camarada que bebia numa mesa ao lado:

       – Não pude deixar de ouvir o amigo falar que o polegar não serve pra nada…

         – Serve mesmo não!

         E o cara:

         – Então me diga como é que você está conseguindo pegar aí o seu sanduíche sem ele. Qual é o dedo que está segurando a parte de baixo , me diga? Se não fosse o polegar você só iria comer a parte de cima, seu imbecil!

          Aí, o tempo fechou, porque os dois começaram a trocar insultos. Daí, partiram para as vias do fato. Jarbas Dermeval saiu da briga com os dois polegares quebrados.