Ailton Villanova

26 de setembro de 2017

Ratos de estimação

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      Melhorado de vida, o Alcalino Botelho resolveu morar num ambiente compatível com a sua pessoa. Procurou o amigo Gumercido Marques, corretor de imóveis e disse:

      – Olha, Guma, me veja aí uma residência num bairro bacana, para eu morar. Minha preferência é Pajuçara, Ponta Verde ou Jatiúca porque sou ligado num marzão.

      Gumercindo rebateu:

      – Sopa no mel, meu chapa! Acaba de desocupar uma casa joiada, justo na Pajuçara. É casarão pra doutor!

      – E a vizinhança?

      – Tudo gente fina! Classe média alta, tá bom pra você?

      – Bom demais. Quero essa! Quando posso me mudar?

      – Acredito que daqui a uma semana, porque próximo a ela existe um terreno baldio coberto de mato, que, dizem, pertence à Ceal e que ela vai mandar limpar…

       – A partir de quando?

       – Acho que a partir de amanhã! – mentiu Gumercindo.

      Alcalino esperou um mês para a tal de Ceal mandar limpar o terreno. Impaciente, resolveu mudar-se com a família, assim mesmo. Dito terreno parecia uma floresta e tinha tudo de ruim que o leitor possa imaginar.

       Dia seguinte ao da mudança, Alcalino e família, todos felizes, eis que o filho menorzinho, o Juninho, flagrou um gabiruzão tentando escalar o muro da residência e abriu o bocão:

        – Socorro, maínha! Os ratos estão invadindo a nossa casa!  Chame a polícia!

        Madame não chamou a polícia, mas apelou para o marido, que já pintou no pedaço com uma enorme ratoeira debaixo do braço. Era daquela do tipo gaiola com uma abertura bifurcada, por onde o rato entra e não consegue sair.

        Instalada a armadilha anti-ratífera, o chefe da família retornou ao trabalho tranquilo e calmo. À noite, quando chegou em casa foi reparar no local onde havia instalado a ratoeira e constatou o sucesso da iniciativa: presos na armadilha mais de dez ratos. Então, ele chamou a esposa e deu a ordem:

      – Amanhã de manhã trate de dar um sumiço nesses pestes!

      Ordem dada, ordem esquecida. Outro mês depois, Alcalino ficou sabendo que os roedores ainda permaneciam vivos, gordos, buliçosos e felizes, na mesmíssima ratoeira, que fora transformada em “residência” para eles.

        – Posso saber por que não mataram os gabirus? – perguntou Alcalino à mulher, cheio de autoridade.

        E a esposa, com ar de penalizada:

        – Ah, meu filho, e quem teve coragem de matar os bichinhos?

        Dessa vez, o próprio dono da casa se preparou para eliminar os gabirus. Levou-os até o lixão, abriu a ratoeira e, ao invés de matá-los, soltou-os lá. Assim que se viram livres, os roedores dispararam de volta à casa e se esconderam debaixo da cama do casal.

        Hoje, adotados como “animais de estimação”, os sobreditos gabirus estão vivendo numa boa no sítio recém-adquirido pelo Alcalino, no Tabuleiro do Martins. Diz ele que os bichos – todos  gordos e gozando de excelente saúde – são mais eficientes que certos cães-de-guarda.

 

O espírito era uma brasa, mora!

      O sapateiro Alvarides da Conceição andava apavorado com um “fantasma” que cismou de invadir o seu lar. Sabedor do fato, seu primo Eratóstenes, cabo aposentado da PM, apresentou-lhe a solução:

       – O remédio é você mandar benzer a casa. Não há fantasma que resista!

       Alvarides acatou a sugestão do primo e chamou um padre para exorcizar o tal “fantasma”. O reverendo foi lá e mandou ver o seu repertório exorzístico e deu por resolvido o problema. Depois de quinze dias de calmaria, olha o “fantasma” infernizando de novo! Dessa vez o primo Eratóstenes radicalizou:

        – Olha, Alvarides, nesse casso só chamando um “pai-de-santo” pra fazer uma mandiga daquelas bem radicais… com tudo a que tiver direito, topa?

       Apavorado e querendo se ver livre do sacana do “fantasma” a qualquer preço, Alvarides topou a parada e convidou o próprio dono da ideia para assistir à sessão macumbal marcada para a sexta-feira seguinte, à meia-noite.

       No horário aprazado do dia combinado, o babalorixá baixou na casa do Alvarides. Baforando um charuto fedorento pra cacete, o cara lascou lá o plá introdutório:

       – Hê, hê… inicialmente vamos defumar a casa com um preparado de pó de asa de morcedo, raspa de unha de urubu, pelo de rato gabiru e língua seca de cobra cascavel.

       Dito isto, o babalorixá pegou os ingredientes, jogou numa cumbuca de metal cheia de brasas e fez da referida uma espécie de turíbulo. Assim que começou a girar a cumbuca pelo meio da casa, uma brasa escapou, saiu voando, fez uma parábola e foi cair justamente dentro da camisa do Alvarides, pelas costas. Gritando de dor, ele começou sapatear na sala. Em seguida, disparou pelo corredor e foi esbarrar no quintal, onde ficou estrebuchando.  Ao ver o drama do infeliz, o “pai-de-santo” apelou:

      – Acudam que o “espírito” pegou seu Alvarides! E é dos brabos! Deve ser o Exu Mangolô Tei-Tei! Esse é a gota serena!

      A turma tentando segurar o Alvarides  e o babalorixá botando moral:

      – Vai p’ras profundezas do inferno, Exu condenado! Xô, Satanás fidapeste!

      Nesse momen to, Alvarides conseguiu falar. Com os olhos cheio de lágrimas e as costas fumaçando, ele desabafou:

      – Exu o cacete! Quando esse pai-de-santo filho da puta inventou de sacolejar essa porra de cumbuca, uma das brasas escapuliu e caiu nas minhas costas, por dentro da camisa…

       A bolha que se formou nas costas do infeliz era do tamanho de uma laranja!