Ailton Villanova

23 de setembro de 2017

O general subversivo

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 – Abaixo a Democracia!

      O ambiente pesou, o vento parou, frequentadores daquele espaço finório tremeram nas bases. O velhote que havia feito protesto tão grave, repetiu:

      – Abaixo a Democracia!

      Diante daquele insulto inominável ao regime que mal havia sido instalado no País, depois de um período de governo autoritário, ditatorial, os bacanas que lotavam o restaurante onde acabara de entrar o velhusco, reagiram à altura, passado o momento de perplexidade.

       – Fora! Fora daqui, seu agitador! – gritaram todos em uníssono, como se houvessem ensaiado o coro.

       Mas o conveniente continuava bradando alguns decibéis acima da regra:

       – Democracia não está com nada! Democracia é uma merda!

       Aí, chegou o gerente da casa, que berrou mais alto ainda:

       – Chamem a polícia! Chamem o secretário de Segurança!  Chamem o comandante do Exército! Chamem todo mundo para tirar esse maldito daqui!

        Mal o gerente fechou a boca, pintou na parada uma guarnição da Rádio Patrulha, cujo comandante era um sargento adiposo e bigodudo, cheio de belicosidade:

         -Tá preso, velho filho da puta!

         E o velho:

         – A Democracia é uma bosta e a polícia é uma cagada de gato!

         Ah, pra quê! Pegaram o arruaceiro e o jogaram na caçapa do camburão. Num instantinho chegaram com ele na delegacia de plantão. Perante a autoridade policial respectiva, o comandante da guarnição sacolejava o velhote, tempo em que dizia:

      – Doutor, prendemos esse bêbado e subversivo alterando num restaurante da orla marítima. O senhor precisava ver a zoada que ele fazia. Acho bom enquadrá-lo direitinho! Se precisar dar uns bolos nele, eu estou aqui!

       O velho virou-se para o sargento e disse:

       – “Bolo” quem vai levar é a sua mãe e “enquadrado” quem vai ficar é o seu rabo!

       O delegado entrou firme:

       – Êpa! Olha a moral! Quem é você para esculhambar na minha delegacia? 

        E o sargento, nervosão, aparteando:

        – Quê que a gente faz com ele, doutor?

        – Peraí! Primeiro quero saber quem é esse velho bêbado. Quem é você?

        O velho meteu a mão no bolso, tirou uma carteirinha preta com letras douradas e disse:

        – Eu sou o general Antupatro Queiroz, do serviço ativo do Exército Brasileiro! Estou dizendo que essa democracia é uma merda e a polícia também é uma merda! Algum problema, seu delegado de merda?

        – Não senhor, seu general!

        – E agora, o que vai fazer?

        – Eu vou encaminhar o sargento aqui para fazer o que Vossa Excelência determinou!

 

Ajudando no afano

      O negão Eutanásio Pereira, mais conhecido como Zelião, logrou ganhar uma respeitável grana na Loteca e a primeira coisa que fez foi comprar um carrão de luxo, o melhor e o mais caro que havia na concessionária de veículos importados.

       Depois de ter pagado à vista, ele saiu dirigindo a máquina pelo centro da cidade. Na primeira esquina que dobrou, deu azar: um dos pneus esvaziou. Mais que depressa ele se entregou à tarefa de trocá-lo, coisa que sabia fazer bastante bem, porque a vida inteira viveu lavando automóveis e trocando pneus dos veículos alheios.

       Bom, lá estava Zelião fazendo o serviço quando escutou um barulho diferente no carrão: eram dois marginais abrindo o capô da máquina. Aí, ele chiou:

       – Ei! Que negócio é esse?! O que vocês estão fazendo?

       Um dos ladrões respondeu:

        – Fica na tua aí, colega! Já que você está roubando os pneus, nós vamos levar a bateria!

 

 

 

A empregada e o cão colaborador

      Talqualmente a jornalista Fatinha Vasconcellos, a psicóloga Perolina Azevêdo não tem sorte com empregada doméstica. Como sofrem essas amigas!

      Analisando direitinho a situação de ambas, chego à conclusão que Perolina ganha da Fatinha nesse particular. Enquanto em mais de duas dezenas e meia de vida a primeira já contratou 900 empregadas, a outra, um pouco mais idosa (cerca de 2 anos, mais ou menos), tentou conviver com exatas 1.503 criadas. Quando as duas amigas se encontram, o papo não é outro senão empregada doméstica.

        Recentemente, Perolina foi à loucura com uma certa Jumelícia, servidor doméstica que lhe fora sugerida por um primo que reside no interior. Diante de indicação tão importante e insuspeita, a psicóloga contratou Jumelícia. Uma semana depois, já não suportava mais os desaforos dela. Então, resolveu ter com ela uma conversa definitiva:

      – Você está dispensada!

      – Eeeeeuuu? Mas por quê, doutora Pepê? – perguntou, cheia de intimidade.

      – Porque você é muito folgada e abusada! Seu trabalho está cada vez pior! O pouco que você faz, fez malfeito. Estou farta!

      – Tá certo. Se a senhora tá querendo me botar pra fora…

      – Estou, sim. Tome o seu dinheiro e suma da minha vista!

      A empregada pegou o dinheiro, agradeceu, mas, antes de sair, tirou uma nota de 2 reais e jogou para o cachorro.

       – Mas que atrevimento! – reagiu a psicóloga. – Onde já se viu jogar dinheiro pra cachorro!

       E a demitida:

       – É que ele fez por merecer, doutora. Desde que eu cheguei aqui, era ele que lavava a louça!