Ailton Villanova

22 de setembro de 2017

Ela era feia de assustar!

     O caro leitor por acaso já viu um desastre de trem, digo melhor, um trem virado? Se já viu, certamente haverá de concordar comigo quando afirmo que trem virado é um negócio feio pra caramba!

      Pois, então, mal comparando, reparar na figura de dona Desdêmona Asperilda era a mesma coisa que passar uma vista d’olhos num trem deitado. Mesmo assim, facialmente desmantelada, ela conseguiu um casamento. Incrível, mas é verdade. Desdêmona casou-se com um descendente de libaneses chamado Tamal Lucco que era  persistente tomador de bebida alcoólica e contumaz consumidor de drogas. Sua diversão era criticar a feiura da mulher. Sempre que podia, ele lembrava:

       – Olha, mulher, eu só casei com você porque estava biritado e cheio de maconha e de cocaína no juízo! Estou pagando por esse pecado!

       Vou fazer para o caro leitor, uma descrição resumida da pessoa física de dona Desdêmona: além da cara que era uma coisa pavorosa, ela tinha as canelas finas, muito parecidas com gravetos, para sustentar um corpo volumoso de três cinturas e igual número de peitos; era zambeta e bunda jamais possuiu. E mais: míope do último grau, bem dizer era quase cega. Para completar, possuía um bafo, desses de fazer qualquer urubu correr da parada.

         Apesar de tudo isso, era uma boa criatura. Católica ao extremo, sempre fazia as suas orações em casa (também casou-se em casa), até porque a igreja-sede da paróquia ficava bem distante. Mas, um dia, ela tomou uma decisão: iria à festa da padroeira e comunicou ao marido que, nesse dia, estava excepcionamente sóbrio:

      – Malzinho, estou pretendendo ir à festa padroeira, até porque vai haver procissão… Quer ir comigo?

      – Deus me livre! Tá maluca?! Tu tens coragem de sair na rua com essa cara infeliz, mulher?

      – E por que não teria, meu amor? Para estar perto da Virgem Maria eu faço qualquer sacrifício…

      – Mas é muita cara de pau! Olha, eu acho bom tu curtires esse barato de padroeira em casa mesmo. Se saíres por aí com essa cara, é bem capaz de levares uma vaia do povo. Já pensaste tu na procissão, e ainda mais com esse bafo de onça que tu tens?

      Desdêmona não deu a menor bola para os insultos do marido. E foi, sim, à festa da padroeira. Horas mais tarde, ao voltar para casa, estava feliz da vida. O marido ficou curioso:

       – E aí, mulher?! Correu tudo bem contigo? Ninguém te perturbou?

       – E por que haveria de me perturbar?  Muito pelo contrário: as pessoas foram muito bondosas comigo!

       – Não acredito!

       – Pois acredite. Por onde eu passava o povo olhava pra mim, se benzia e dizia: “Nossa Senhora!” “Virgem Santíssima!” Algumas pessoas até desmaiaram de tanta emoção!  

 

Neurônio e costela

      Depois que Deus criou Eva, Adão reclamou, inconformado:

      – Mas, Senhor, vou ficar com uma costela a menos do que ela?

      Em sua divina sabedoria, Deus rebateu:

      – O que é uma costela, Adão? Espera só para veres quantos milhões de neurônios te darei a mais!

      Dias depois, Deus voltou a falar com Adão:

      – Tenho para ti uma notícia boa e outra ruim.

      – E quais são elas, Senhor?

      – A boa é que decidi te dar um cérebro e um pênis.

      – Obrigado, Senhor! Mas… qual a má notícia?

      – É que o sangue que te darei só será suficiente para usar uma dessas coisas de cada vez.

 

Isaac, o ventríloquo

      Contam as Sagradas Escrituras que o Senhor ordenou a Abraão que sacrificasse o próprio filho, Isaac. Na hora em que o obediente Abraão levantou a faca para matar o garoto, uma voz potente, parecida com a de Deus, fez-se ouvir:

       – Tá bom, Abraão! Pare! Você já provou que é leal. Não precisa sacrificar o seu filho querido.

       Abrão deixou a faca de lado e, aliviado, olhou para Isaac, que se levantou e saiu correndo.

       – Volte aqui, meu filho! O senhor não quer mais que eu te sacrifique! Ele te ama!

        – Ama o cacete! – respondeu Isaac. – Se eu não fosse ventríloquo,    tava ferrado!

 

Libera ou não libera?

      Altamente biritado, cai aqui, cai acolá, eis que finalmente o Grozélio entrou numa igreja, justamente na hora em que o padre elevava a hóstia. Depois da comunhão, sem que o reverendo o tivesse levado em conta, Grosélio entendeu de dar uma bronca no celebrante, justo na hora em que o ostensório era recolhido ao sacrário:

      – Ei, seu padre! O senhor ao vai liberar um Sonrisal desse para a minha pessoa?

 

Ressaca bíblica

      Naquele tempo, contam os escribas, as festas de casamento na Galileia eram realizadas com muito vinho. E da mesma safra, convém que se esclareça.

      Pois bem. Depois de terem servido um monte de testemunhas de um casório muito concorrido, José e Maria voltaram pra casa um pouco tarde. Na manhã seguinte, José acordou com uma ressaca danada e com uma  dor de cabeça violenta. Para completar, a boca ressequida e amargando. A situação era tal, que José nem pôde levantar-se da cama. Aí, apelou para a esposa:

      – Maria, me traz um copo de água, por favor!

      Aí, Maria, que se achava ocupadíssima na cozinha, pediu ao filho:

      – Leva essa água pro teu pai!

      No que implorou José:

      – Pelo amor de Deus, não deixe o menino tocar nessa água, Maria!