Ailton Villanova

19 de setembro de 2017

“Cavernoso”, um pinguço invocado

conhecido no Alto da Conceição – conexão Bom Parto/Farol – o pinguço Albelídio Jurema, o “Cavernoso”, (hoje ocupando, definitivamente, exíguo pedaço de terra no Cemitério de São José, Trapiche da Barra), protagonizou histórias as mais hilárias.

      Frequentador assíduo do antigo “Bar do Padre” (cujo proprietário foi o ex-sacerdote Aristides Barros), localizado na primeira transversal da rua Marquês do Herval (Rua Morou, Bebeu), bairro Farol, Cavernoso convivia com a nata do radialismo alagoano. É que o bar do finado reverendo era o preferido do pessoal do rádio, principalmente da Difusora, que ficava na esquina da citada artéria, com avenida Fernandes Lima, a 20 metros do Tribunal de Contas do Estado.

       Num determinado dia, por sinal um começo de tarde de sexta-feira, eis que Cavernoso entrou no Bar do Padre – àquelas alturas entupido de biriteiros  -, e aí encarou o garçom Agenor Bonfim, que estava estreando na função:

       – Ôpa! Tu é novato aqui, num é gente fina?

       E o Bonfim:

       – Sim, senhor. Estou começando hoje!

       – Nesse caso, vamos comemorar!

       Dito isto, Cavernoso virou-se para os presentes e anunciou:

       – Bebida grátis pra todo mundo! Hoje, por causa da estreia do novo garçom, eu pago o “estrago”, falei? Bota uma pra você também, garçom. Quero ver todo mundo embriagado!

       E Cavernoso promoveu a maior festa, enchendo, ele próprio, o copo de todo mundo, reiteradas vezes. Lá pelas tantas, arrastou-se até a porta, pretendendo ir embora sem pagar. O garçom Agenor o agarrou pela manga da camisa:

      – Ei, rapaz! Nada de enrolada comigo! Olhe aqui a conta, já que você disse que ia pagar tudo! São 160 cruzeiros!

      – Ôxi! Que onda é essa, rapaz? Será que a gente num pode nem tirar uma brincadeira?

      – Comigo ninguém brinca! Vai, paga logo a conta!

      – Com que dinheiro, rapaz? Tô liso!

      Ao escutar a palavra “liso”, o garçom, que era um sujeito parrudo, pegou o Cavernoso pelo fundilho e o atirou na rua, depois de lhe ter aplicado uns bons tabefes.

      No outro dia, à mesma hora, olha o Cavernoso de volta ao Bar do Padre! Na base do grito, anunciou, novamente:

      – Atenção, colegas! Bebida pra todo mundo, por minha conta! Ô garçom, encha o copo da rapaziada… menos o seu. Já vi que você fica muito violento quando bebe!

 

Um velho muito sabido!

      Aquele advogado boçal pra cacete, famoso por gostar de aparecer e querer ser o que a folhinha não marca, resolveu dar uma de caçador, durante o período de férias que ele próprio se deu. De modo que foi caçar patos em uma região alagada. Ao alvejar um desses palmípedes, o coitado foi cair dentro da propriedade do velho Antiógenes Monteiro, que era toda protegida por arame farpado.

       O advogado pulou a cerca para pegar o pato abatido e, quando caminhava até o ponto onde ele caíra, eis que se deparou com o proprietário da fazendola, que se achava ao volante de um tratorzinho.

        – Pare já aí, seu ladrão! – determinou o dono da terra.

        E o advogado, cheio de direito:

        – Eu não sou ladrão! Apenas vim buscar o pato que acabei de abater. Pra seu governo, cidadão, eu sou um influente advogado, ouviu? Posso meter-lhe um processo e lhe tomar a propriedade. O senhor não me conhece e nem sabe do que eu sou capaz!

        – Entonce, peraí! – ponderou o velho. – Purquê nóis num arresorve a questão à moda serteneja, pra acaba com essa pendenga?

        – Como assim?

        – É o siquinte… eu dô trêis chute im vosmicê. Adispôi, vosmicê dá três chute nimim. Quem aguentá mais caladinho, ganha, tá certo?

        O advogado boçal avaliou a questão e logo concluiu que aquele velhote franzino era parada fácil. Então, resolveu topar a parada. 

         Bastante vivo, seu Antiógenes propôs mais uma vez:

         – Eu chuto premêro, purcauso qui sô mais véio e mais fraquinho!

         O advogado concordou. O primeiro chute aplicado pelo velho Antiógenes atingou o “saco” do doutor. O segundo foi dado no meio da cara, quebrando-lhe o pau da venta. Depois de urrar muito, o advogado se levantou e disse:

        – Dê o terceiro, velho covarde!

        Seu Antiógenes chamou na grande – pei! – pegando nos rins o boçal que, mesmo quisesse, não conseguiria gritar, porque mal podia respirar, tamanha era a dor. Depois de alguns minutos, pôs-se de pé, mal se sustentando nas canelas, e ameaçou:

      –  Agora, pode ir rezando, velho fidapeste! Eu sou faixa preta de karatê e vou desmontá-lo, na base da porrada!

      E o velho, com aquele risinho maroto:

      – Carece não, meu fio. Eu disisto da briga. Arricunheço qui perdi. Pode pegá o seu patinho, viu?