Ailton Villanova

13 de setembro de 2017

O inventor da válvula russa

      Outubro, ano de 1996.

       De manhã logo cedo, dona Alzira, a bondosa e saudosa genitora do galego Álvaro Cleto, antigo consultor mecânico das gráficas Tribuna Independente e Gazeta de Alagoas, ligava para o gordinho Miguel Pierri, bastante preocupada:

 

       – Miguel, acho que o meu Alvinho (ela o chamava de Alvinho, imagine só. Mãe sempre é generosa) está ficando pirado!

 

       – O que a faz pensar assim, dona Alzira? – indagou Pierri, tentando imaginar o que, desta vez, teria aprontado o galego.

 

        E dona Alzira:

 

        – Imagine, meu filho, que o Alvinho botou na cabeça a ideia de viajar à Moscou!

 

        E o Miguel Pierri:

 

        – Ver o quê lá, dona Alzira?

 

        – Diz ele que acabou de inventar uma válvula para o coração do presidente da Rússia!

 

        – Realmente, dona Alzira, o seu filho pirou de vez!

 

        Miguel Pierri acabou de conversar com a aflita mãe, colocou o telefone no gancho, levantou a cabeça e olhou para a frente. No que olhou, o que foi que ele viu? Viu o Álvaro Cleto empessoa e em cores! Estranhissima coincidência!

 

         – Oi! – cumprimentou ele.

 

         – Oi!  – retribuiu Pierri.

 

         Cleto completou sua fala:

 

         – Chefe, estou querendo uma licença…

         – Pra quê?

       – Preciso viajar.

       – Pra onde?

       – Pro exterior… Rússia, mais precisamente!

       – Hummmm… Então é mesmo verdade! Agorinha mesmo a sua mãe me deu um toque.

       – Deu?

       – Quer dizer que você inventou uma válvula para o coração do presidente Bóris Yéltsin…!

       – Verdade! Os caras do serviço de espionagem da Rússia descobriram que fui eu o autor da válvula que o doutor Wanderley Neto implantou no coração do meu amigo Walter Pita…

       – Ah, quer dizer…

       – Isso mesmo! Peguei umas peças do carburador do fusca do Denison Petronilho e fiz a válvula. Sucesso total!

       – Válvula de carburador de fusca?!

       – Exatamente. A do presidente Bóris Yéltsin é mais sofisticada que a do Walter. Tu estás sabendo que acabei de comprar o Lada do nosso colega de trabalho Zé Ronaldo, não estás?

       – Tô por dentro!

       – Pois foi pra isso. Desmanchei o carburador do Lada e fiz a válvula pro coração do Yéltsin!

 

       Para quem não sabe, foi graças ao Álvaro Cleto quem o ex-mandatário russo escapou da morte. Por conta disso, ele é considerado herói na terra de Lênin.

 

Passando a limpo depois

      Quando na ativa (hoje está aposentado) o locutor de rádio, Luilton Roosevelt tinha um grande fã clube. Certo dia, quando atuava na Gazeta, ele descia a ladeira da Catedral e aí foi reconhecido por uma das suas tietes, a balzaquiana Teotônia Xavier, à época residindo no Farol. Sem perda de tempo ela se lançou pra cima dele, toda desmilinguida:

 

       – Oooohhh, meu Deus! Mas é o Luilton Roosevelt!

 

       E o baixinho, com aquele vozeirão:

 

       – Sim, sou eu!

       – Mas que felicidade! Será que você poderia me dar um autógrafo, Luilton querido?

       – Pois não, minha “tia”.  É uma honra!

 

       Teotônia procurou um pedaço de papel na bolsa e não achou. Não perdendo tempo, olhou para o canto da calçada e viu um pedaço de papel amassado e sujo. Sem a menor cerimônia, pegou-o e estendeu-o ao seu ídolo, que exibiu a maior cara de nojo:

 

        – Mas nesse pedaço de papel, dona! Está muito sujo!

 

        E ela, algo aflita:

 

        – Faz mal não, meu amor. Quando eu chegar em casa eu passo a limpo!

 

Discursando de boca murcha

      Pelo menos duas vezes na vida, o saudoso colega Jorge Vilar tentou ser vereador: uma em Maceió e outra em Barra de Santo Antônio. Apesar de sua grande popularidade como homem de rádio, principalmente, não logrou êxito nessas empreitadas.

 

       Vilar era um tremendo gozador e viveu a vida como sempre quis, feliz e tranquilo. De vez em quando, passava por uns apertos, como aquele, por exemplo, quando perdeu a prótese dentária, no encerramento da campanha eleitoral para vereador em Barra de Santo Antônio.

 

        Antes do discurso final, Vilar entendeu de tomar umas cervejas na companhia dos colegas Valtenor Leôncio e Jalon Cabral. Na hora de subir no palanque, certo que já estava eleito, Vilar ouviu a recomendação do Jalon:

 

        – Capricha, viu Jorge?

        – Deixa comigo!

        – Bote drama na oratória. Muito drama!

 

        E Vilar:

 

        – Porra, Jalon, é comício ou é novela?

        – Não é novela, mas você precisa dramatizar para impressionar o eleitorado, entendeu? Abre mesmo o bocão!

 

         Jorge abriu o bocão. No que abriu, a prótese caiu. No que caiu, um cachorro malandro que por ali passava, indevidamente apropriou-se dela e disparou rua afora, sumindo no negrume da noite.

 

         Além de ter perdido a prótese dentária, Jorge Vilar perdeu a eleição. E culpou o Jalon pela desdita.