Rívison Batista

4 de setembro de 2017

Triste-vida

Cinco e vinte da manhã. A cidade já estava iluminada por luz solar, porém silenciosa, ainda adormecida, ou desmaiada em alguns lugares onde os vícios noturnos são mais fortes. O pássaro dava voos rasantes pelos telhados das casas, que ainda conservavam certa penumbra e frieza da noite. Tinha sido um céu estrelado, com pouquíssimas nuvens. A manhã nascia, aos poucos, radiante, e isso animou o velho triste-vida [como também é conhecido o pássaro bem-te-vi]. O barulho de um ar-condicionado no máximo, em contraste com o silêncio, atraiu a ave para um condomínio de apartamentos. Desceu perto de um automóvel estacionado e começou a caçar insetos pelo chão, em especial baratas perdidas que não souberam achar um lugar escuro para proteger-se do sol. O bem-te-vi ancião fazia seu café-da-manhã quando foi surpreendido por um homem amargo, tão ruim quanto o gosto daqueles 'bichos escrotos' que digeria. O pássaro foi atingido por uma pedra arremessada com força. Os reflexos rápidos do animal o fizeram levantar voo, mas foi tarde. O impacto da pedra em uma das asas incapacitou o bicho, que ficou deitado no chão, encarando seu agressor. O seu canto, que antes era para saudar o novo dia, agora era de dor. Porém, para os seres humanos que viviam naquela colmeia humana de apartamentos, não havia diferença. Era o belo canto de uma ave do mesmo jeito que foi no dia anterior. Um despertador da natureza que acordava muitas pessoas. E, de fato, muitas pessoas despertaram sorrindo com os gritos de dor que o pássaro botava, com força, para fora. Uma dona de casa passava a manteiga no pão e dizia: “Canta mais, passarinho”.

O calvário

O ser humano parece ser o único animal no mundo que mata por diversão ou mero capricho. Todos os seres viventes da Terra matam para sobrevivência, seja para alimentação ou disputas territoriais. O próprio triste-vida [que agora fazia jus ao nome] não matou insetos por maldade. Senhor Pedro, que tinha jogado a pedra na ave, é zelador do condomínio. Ele tinha passado por uma noite difícil, fazendo vários cálculos com vários boletos e se dando conta de que não conseguiria pagar metade daquilo. Uma raiva sem tamanho subiu pela cabeça do homem, que entrou em erupção, soltando alguns palavrões e chutando o portão do condomínio. Por fim, o 'vulcão humano' precisava fazer algo sentir a fúria dele [pois certas pessoas não conseguem simplesmente sofrer sozinhas]; agarrou a primeira pedra que viu e a arremessou contra o pássaro. Devagar, a raiva do homem foi esfriando. Chegou perto da ave, olhou para ela como Deus no céu olha para a humanidade e disse: “Se ferrou”. Depois disso, correu para pegar o ônibus.

O triste-vida, agora moribundo, tentava arrastar-se pelo estacionamento. A asa, há poucos minutos, era um meio de liberdade, mas agora era um fardo difícil de ser carregado. O animal gritava de dor a cada passo tímido que dava. Estudantes passavam para a escola e viam o bicho no chão. Uns olhavam curiosos, outros assustados. O bem-te-vi não teve a sorte de cruzar o caminho de uma pessoa que o salvasse. Aos poucos, chegou embaixo da janela de um quarto de apartamento. Um casal acordava trocando carícias que resultaram em sexo. A mulher dá um beijo demorado no companheiro e sussurra no ouvido dele: 'A natureza está nos aplaudindo, amor. Escuta o canto da ave abençoando nossa relação'. E após o ápice do prazer, os dois cochilaram despretensiosamente. O pássaro vai perdendo as forças a cada minuto, pois sangra e a luz de um sol impiedoso já o faz ficar tonto de calor. Nos últimos dias, o céu tinha ficado nublado, causando um clima agradável. Mas, justamente naquele dia, não havia nuvem alguma para sombrear o animal ferido. O olhar desolado da ave parecia que ilustrava um pensamento: 'O que eu fiz para merecer esta via crucis?'. Um gato observava, de longe, o sofrimento do triste-vida. A fome do gato era maior do que a do pássaro quando caçava insetos.

A ave, ao avistar seu último capataz, entrou em desespero e fez várias tentativas frustradas de voos. Algumas resultaram em cambalhotas desastradas, outras machucaram ainda mais o local ferido. O bem-te-vi foi parar embaixo de uma janela de um apartamento de uma senhora idosa. Com 86 anos, a anciã debruçou-se sobre a janela e ficou admirando aquele céu limpo. 'Que dia fantástico. A natureza, a essa altura da vida, ainda me dá a  chance de abrir a janela e sorrir', murmurou a senhora. Viúva e sem filhos, a idosa passava a maior parte do tempo observando a rua, que podia ver à frente, além das grades do estacionamento do condomínio. Ao olhar para baixo, viu o triste-vida já sem forças. Não pensou duas vezes. Pegou a bengala e foi devagar ao estacionamento. A cada pequeno passo, já imaginava qual seria o tratamento mais adequado para a ave. Mas a natureza, naquele dia, não queria finais felizes; queria sacrifícios. O gato foi veloz e correu com o pássaro que gritava entre os dentes do felino. A senhora, ao chegar no estacionamento e não ver mais nada, achou que a ave tivesse voado para longe. Voltou séria ao apartamento, pensando no marido falecido e na vontade de cuidar do animal para aliviar o vazio que sentia.

 

*Rívison Batista é jornalista