Ailton Villanova

30 de agosto de 2017

Os Únicos Amores

 Numa das nossas emissoras de rádio, o locutor, muito do boçal, anunciava, cheio de sotaque sulista (por aqui, a esmagadora maioria deles faz questão de se pronunciar com o típico linguajar das pessoas do Sul, muito embora sejam autênticos papas-sururu):

      – Agora, caríssimos ouvintches, está entrando no arrr o pograma (sic) de maior audjiência do rrráiiidjio alagoano…

      O sonotécnico atacou com a característica musical e o cara completou:

      – “Djisque Múúúsica”!

      A característica subiu, desceu e ficou em BG. O locutor lascou lá:

      – E já temos na linha o nosso primeiro ouvintche a solicitar uma música… Alôôrrr, quem fala?

      Do outro lado, o ouvinte respondeu:

      – Aqui quem fala é o Alonso… da Ponta Grossa. Eu queria pedir uma música, pode ser?

      – Pode, sim, claro, Alonso! Aquirrr você manda! Olha, você está no ar, viu?… Diga qualéquié a música…

      E o ouvinte, todo entusiasmado:

      – Eu queria ouvir aquela música “Você é a única mulher da minha vida”… com Xitãozinho e Xororó…

      – Muitcho bem, amigo. Para oferecer a quem? À sua amada?

      – Exato. Eu quero oferecer à Odete, Augusta, Fátima, Creusa, Edite, Socorro, Aparecida…

 

O macete do negócio

       O comerciante Hermenegildo Caroba ensinava ao seu filho Marquinhos os macetes, as malandragens, as mutretas da arte de vender. Pegou um óculos de praia que se achava na vitrine de sua loja, mostrou pro garotão e falou:

          – Este óculos, por exemplo, é um óculos barato. Mas a gente pode faturar uma boa grana com ele. Só depende do freguês…

          – Como assim, pai?

          – Seguinte: quando o freguês perguntar quanto ele custa, você  responde: “Trezentos reais…” Se ele protestar, você emenda: “… pela armação. As lentes custam mil reais”. Se o cara ainda assim não protestar, você dá a botada final: ….”Cada uma!”

 

Mudança rápida e romântica!

      Duas madames se encontraram no calçadão da orla marítima. A que se chamava Nilza não escondeu seu espanto na hora em que bateu o olho na outra, identificada como Solange:

      – Oooohhh, meu Deus! Mas é você mesma? Que linda!

      E Solange:

      – Nilzinha! Não acredito, mulher! Eu soube que você ficou viúva… é verdade?    

      – Verdade. Fiquei viúva, mas casei de novo!

      – Ah, que bom! Está feliz?

      – Felicíssima! Não poderia estar melhor!

      – Me diz, querida… como você conheceu o seu segundo marido?

      – Ah, foi de uma maneira muito romântica!

      – Eu adoraria saber.

      – Bom, meu segundo marido, o Nelsinho, estava dirigindo o automóvel que atropelou e matou o meu primeiro marido, o infeliz do Antiógenes!

 

Mas quanta gentileza!

      Na lanchonete e bar do amigão Duda, localizada na Barão de Penedo, dois camaradas já meio biritados, traçavam, numa boa, um camarão ao molho de tomate e bebiam cerveja. Eram o tal de Josebias Furtado e um cara chamado Coriolano. Empolgadão, o primeiro falava pro segundo:

      – Bicho, não te conto…

      – Conta, vai!

      – Então tá. Lugar super-incrível é Salvador! Povo bom é o de lá!

      – Não diga!

      – Digo! Me responda mesmo: em que lugar do mundo você pode encontrar um cara completamente desconhecido, que lhe convida pra jantar num restaurante de luxo? Depois, esse mesmo cara pega você e leva pra boate, patrocina os melhores uísques e fica com você até de manhã… na maior assistência…!

      – Que barato, meu irmão!

      – Isso é que é hospitalidade! É ou não é?

      – Realmente, cara. Isso tudo aconteceu com você, foi?

      –  Comigo não. Foi com minha mulher. Eu estava dormindo no hotel!

 

Faz é tempo, ó!

      O matuto procurou o consultório do doutor Warner Leite de Assis (quando ele era médico; hoje é advogado), em Palmeira dos Indios, reclamando mais que bode embarcado:

      – Dotô, tô aqui com o furico todo escatembado! Num posso nem me asssentá dereito!

     Warner examinou o ânus do cabra cuidadosamente e a seguir definiu:

     – O seu caso é sério, meu amigo!

     – Num me diga uma côiza dessa, dotô! E o qui diabo eu tenho aí pur baixo?

     – Hemorroidas!

     – Porroida?! Ôxi, qui danado é isso, dotô?

     – He-mor-roi-das! São varizes das veias do ânus!

     E o matuto, conformado:

     – O qui se hai de fazê, né, dotô? Já fais um tempão qui passei dos setenta ânus!

 

Tudo, menos operar!

      Biriteiro de marca maior, o Poliedro deu garra de dois colegas e saiu pela noite afora, pinoteando de boteco em boteco. Na manhã seguinte, os três, no maior pileque, entenderam de curtir a ressaca na praia de Riacho Doce e se mandaram da Jatiúca pra lá, montados no carango do Poliedro, com este ao volante.

      No meio do caminho, lá pras bandas de Cruz das Almas, o trio acidentou-se. O carro do Poliedro foi de encontro a um caminhão coletor de lixo, que se achava estacionado rente ao meio-fio.

      Populares pegaram os feridos, botaram numa caminhoneta e se preparavam para levá-los ao Pronto Socorro, quando um deles observou:

      – Esse galego aqui já se lascou!

      O galego a que o cara se referia era, justo, o Poliedro, o mais bêbado dos três. Um cidadão mais atento, encostou o ouvido no tórax dele e rebateu a opinião do curioso mais apressado:

      – O galego num tá morto, não! Ele tá “vivinho da silva”!

      Os improvisados socorristas se mandaram com as vítimas pro HPS e os os entregaram a cuidados de médicos e enfermeiros plantonistas. Observando que Poliedro era o que apresentava estado mais grave, os doutores correram com ele para a sala de cirurgia. Assim que o colocaram na mesa respectiva, ele abriu os olhos e bradou:

      – Epa! Não me operem, não, porque eu posso morrer! Eu sofro do coração!

      E desmaiou.

      Poliedro foi retirado da sala de operação para o banheiro, onde lhe deram um banho em regra. É que, de tanto medo, ele havia feito o maior cocô na mesa de cirurgia.