Ailton Villanova

26 de agosto de 2017

A desventura do boníssimo Valmir

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      Jornalista culto, advogado competente, escritor brilhante e pesquisador emérito, o saudoso colega Valmir Calheiros de Siqueira de quando em vez passava por um apertozinho, inclusive por conta dos seus frequentes lapsos de memória. Certo dia, sofreu acidente em dose tripla que o deixou horizontalizado num leito hospitalar.

      Eu conto.

      Empenhava-se o genial companheiro no conserto de uma porta, em sua residência, quando, em dado momento, uma barra de madeira despencou de altura superior a 2metros e- pleft! – se abateu sobre sua cabeça. Foi terrível! Da madeira destacava-se um prego filho da puta de grande, que foi esbarrar a poucos milímetros do cérebro do caro colega.

       Pegaram o Valmir Calheiros e correram com ele para o HPS. A tábua também foi junto, pregada na careca dele. Com muita perícia, os doutores de plantão no nosocômio conseguiram arrancá-la com prego e tudo.

       Terminada a tarefa cirúrgica, o médico-chefe recomendou:

       – O senhor já pode ir pra casa doutor Valmir. Mas eu o aconselho a tomar muuuiiito cuidado! Inclusive, evite botar o juízo para pensar…

       – Mas por quê? – indagou Valmir meio grogue da anestesia.

       – É que pode prejudicar na recuperação da massa cefálica, que foi lesionada. O caso é serio!

       – Pode deixar, doutor, que eu me cuidarei direitinho. Posso ir? Nivaldete, a minha esposa, está me esperando em casa.

       – Pode ir!

       Naquilo que Valmir levantou-se da mesa para ir embora, a janela da sala de cirurgia foi empurrada para dentro por uma lufada de vento. Aí, aconteceu novo desastre: a quina da maldita janela atingiu em cheio o ferimento que acabara de ser suturado e o jornalista desabou desmaiado de tanta dor.

      E lá voltaram os esculápios a consertar o novo estrago na cabeça do velho Calheiros.

      Providenciado o segundo curativo, o hospital liberou novamente o paciente, que decidiu voltar pra casa de taxi.

      Colocaram Valmir no carro e o motorista, meio aloprado, arrancou cantando pneus. Na primeira esquina – vabei! –,  trombou violentamente num poste e o passageiro, que viajava no banco de trás, foi catapultado para a frente. Valmir saiu voando por cima do banco dianteiro e enfincou a cabeça no para-brisa do veículo, espatifando-o.

       Nem é preciso dizer que o colega voltou para o hospital.

       Os doutores do plantão do HPS o receberam com espanto:

       – De noooovvvooo???!!!

       Médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem e alguns voluntários passaram várias horas arrancando os cacos de vidro do “telhado” do Valmir.

        Terminado o serviço, ele ponderou com os extenuados médicos e auxiliares:

         – É melhor que eu fique logo internado, para o caso de ocorrer novo acidente.

         Arrumaram-lhe uma vaga na UTI.

 

Finalmente, a vocação!

      A época em que Antônio Sapucaia era juiz de direito da comarca de Atalaia, a polícia local capturou o elemento conhecido como Dé da Neusa, taradão acusado de um monte de crimes capitulados como “atentado ao pudor” e algo mais cabeludo.

      Concluido o respectivo inquérito policial, o delegado que o presidiu colocou o indivíduo à disposição do magistrado Sapucaia. No dia designado para a audiência no fórum, eis Dé da Neusa se deparou com o doutor Sapucaia, num dia em que ele se achava menos invocado que de costume.

      O magistrado pegou a ficha de antecedentes do indigitado transgressor, franziu a testa e, cheio de ironia, o encarou por cima dos óculos:

      – Ora, mas isso é que é currículo decente! Furto! Roubo! Tráfico de Drogas! Atropelamento com fuga! Lesão corporal! Estupro! Estupro! Estupro…! Danou-se! Como é que você me explica isso, rapaz?

       E o meliante, com a cara mais lisa do mundo:

       – Ah, excelência, é que custei a descobrir a minha verdadeira vocação!

 

Prefeito passarinheiro

      O saudoso colega Nunes Lima era o editor da página de Municípios da Gazeta de Alagoas e resolveu dar uma incrementada na sobredita. De modo que programou uma série de matérias especiais através das quais teriam maior relevo, durante determinado período, as potencialidades naturais do litoral alagoano.

      Para o pontapé inicial à promoção, o próprio Nunes decidiu, ele próprio, manter os primeiros contatos com os prefeitos da região. Elegeu Japaratinga como arrancada para a iniciativa e mandou-se pra lá.

      Assim que assentou o solado dos pés em território japaratinguense, Nunes Lima dirigiu-se imediatamente à prefeitura municipal, onde foi recebido por um dos assessores do chefe da edilidade, que foi logo avisando:

      – Infelizmente sua excelência, o prefeito, não está atendendo hoje, porque está cuidando de um problema importantíssimo!

      Nunes entendeu, claro. Afinal, para que serve um prefeito? O cara tem mesmo é que se preocupar com os problemas do município.

      Nunes procurou uma hospedaria, acomodou-se lá e, dia seguinte, bem cedinho, voltou à prefeitura. O mesmo papo: “Ele não pode atender”. Aí, Nunes, tarimbadão, manjou na jogada e resolveu dar um pulinho na residência do alcáide. Ali, naturalmente, receberia a informação verdadeira e quente, acerca do seu paradeiro.

        O jornalista bateu na porta do da casa do prefeito, uma garotinha veio atender:

        – O quié, moço?

        Nunes presenteou-a com um confeitinho, para ganhar sua confiança e, por fim, indagou:

         – O prefeito está, minha filha?

         A menininha piscou os olhinhos e respondeu:

         – O painho num tá não!

         – E onde eu poderia encontrá-lo, você sabe?

         – Ah, moço, sei não. Só sei que desde ontem ele anda por aí com uns meninos, petecando passarinhos!