Ailton Villanova

25 de agosto de 2017

Quem manda mais: o juiz ou o soldado?

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Desde os tempos da soldadesca do Império, os registros do cotidiano enfileiram milhares de episódios nos quais a figura do milico exsurge comparada à de, praticamente, um rei. Então, na época dos conflitos nos sertões nordestinos, o meganha impôs-se pela força do arbítrio, da perversidade. Ganhava mais fama aquele que mais vítima fizesse. Não estou contando nenhum segredo. Ainda hoje continuamos testemunhando espetáculos tristes protagonizados pelos herdeiros dos algozes fardados dos tempos do “ronca”.

      A farda dá um poder danado ao homem. Nas comunidades menos avisadas, então, o fardado manda e desmanda; esfola e mata.

      Por incrível que possa parecer, soldado de polícia no interior é mais autoridade que o coronel, mais autoridade que o delegado de polícia, mais autoridade que o padre… É mais autoridade que o prefeito… e que o juiz. O matuto tem muito mais que respeito por ele: tem temor. Os motivos estão explícitos no exórdio.

      As histórias dos sertões estão eivadas de fatos e causos que credenciam o militar não graduado, ou por outra, o soldado raso, como “dono do poder” .

      Relato, aqui, um episódio hilário, verdadeiro em todos os seus aspectos, apenas como um pequeno ilustrativo do poder que o soldado de polícia exerce no interior.

     Ocorreu no estado de Pernambuco, como poderia ter ocorrido em Alagoas, em Sergipe, ou na Bahia.

      Bom. Era dia de feira livre em Serra Talhada. Mundão de gente pra lá e pra cá. O novo juiz da comarca, doutor Thomé Bulhões, muito jovem, ainda, precisava impor sua autoridade. Serra Talhada tinha a fama de município violento. Então, o ilustre magistrado decidir marcar firme.

      Solzão de derreter juízo, eis que doutor Bulhões misturava-se com o povão, tendo como acompanhante o escrivão Nestor Armindo, que, por sinal, era seu primo.

      O magistrado caminhava pela feira, driblando as barracas, quando, de repente, estacou diante de um matuto que exibia na cintura uma faca-peixeira de muitas polegadas. Bem dizer uma espada.

      – Pra que essa faca, rapaz? – perguntou o juiz todo cheio de autoridade e arrogância.

     O matuto respondeu:

      – Pra nada!

      – Então, passe ela pra cá! De hoje em diante não quero ver ninguém armado nesta cidade, está me ouvindo?

      Murchinho, o matuto entregou a faca ao juiz, que seguiu em frente com ar vitorioso.

      Um feirante que havia presenciado cena, chegou junto do cara que havia sido desarmado e fez o “boi-de-fogo!:

      – Seu Migué, vosmicê é desarmado pur um rapazinho discunhicido e num fáis nada? Vosmicê percurô sabe quem é ele?

      – Percurei não!

     – E então? Vosmicê obrô munto máu!

     Ao escutar a ponderação do amigo, o matuto Miguel correu atrás do juiz e o alcançou quando ele dobrava a esquina:

      – Um minutinho aí, seu Zé…!

      – O que é que você quer? – redarguiu o magistrado.

      O sertanejo então respondeu com uma pergunta:

       – Eu só quiria sabe se vosmicê é sordado. É sordado puracauso?

       – Não! Eu sou juiz! Sou o juiz de direito da cidade!

      – Ah, é? Entonce me dê a minha faca de vorta, seu merda! E eu pensando que vosmicê era sordado!!!

 

Cuspir nunca mais!

       Na nossa briosa Polícia Militar havia um soldado finíssimo, educadíssimo, chamado Margarido Joaquim. Ocorre que colegas gaiatos lhe conferiram o apelido de “Moça”, fato que não condizia com a sua condição de machão. Por que Moça? Porque, além do prenome meio feminino, o PM só gostava de andar cheiroso e elegante.

       Quantas vezes o indigitado teve de sacar o seu “trabuco” para evitar que continuassem lhe chamando pela alcunha. Contava o saudoso coronel PM Jayme Ferreira Lima que havia perdido as contas das carreiras que o Moça impôs à negrada. Nessa época, Jayme era aspirante a oficial.

       Um dia, mandaram o Moça servir no 2° Batalhão sediado em Santana do Ipanema, que era comandado pelo finado coronel PM Malaquias Oliveira. Seu oficial imediato era o próprio filho, então capitão Alarico de Oliveira, também falecido.

       Determinado dia, coronel Malaquias recebeu em seu gabinete o PM Margarido, que lhe fez um apelo dramático:

      – Por favor, meu coronel, mande o pessoal acabar com esse negócio de me chamar de Moça. Pega mal! Vai terminar eu me desmantelando aqui dentro!

      E o velho coronel:

      – Pode deixar, meu filho. Amanhã, mando formar a tropa e dou um esbregue daqueles!

      Dito e feito. De ordem do pai e superior hierárquico, o capitão Alarico perfilou a milicada diante do comandante, que mandou ver um esporro no capricho:

       – Aquele que insistir em querer desmoralizar o soldado Margarido vai se ver comigo, entenderam?

      Bastante emocionado, o praça pediu a palavra, quebrando o protocolo. Coronel Malaquias abriu a concessão.

      Então, o Moça falou:

      – Obrigado, meu coronel. Obrigado a todos os camaradas, pela maneira como acataram o pedido do nosso comandante. Em troca disso, eu garanto que nunca mais vou cuspir na sopa de vocês!

 

Viagem infeliz  

      O cabo PM Santana era chegado a uma cachacinha esperta. Começava a biritar assim que saía do expediente, no QG da corporação.

      Numa-sexta-feira, assim que botou na rua os solados dos coturnos, correu para o boteco de sua preferência, que ficava na Praça São Vicente, a poucos passos do quartel do comando geral da corporação. Saiu de lá no fim da noite, trocando as canelas e entrou num coletivo da linha Ponta da Terra/Vergel do Lago. Arriou a bunda num banco, espichou-se todo, puxou o boné para cima dos olhos e começou a roncar.

      O coletivo fez o circular dezenas de vezes e nada do passageiro descer. Foi e voltou ao final da linha, aboletado no veículo, como se ele fosse de sua propriedade. E todas as vezes que o cobrador chegava junto, ele dizia com voz pastosa:

      – Xão Paulo, meu nego… Xão Paulo!

      Motorista e cobrador, então, deixaram o cabo Santana dormir à vontade. Mas, na vez de recolher o carro à garagem, tinham de tomar uma atitude.

      – Vamos deixar esse cara no quartel! Opinou o cobrador.

      – É, vamos! – concordou o motorista.

      E armaram uma estratégia.

      O motorista parou o ônibus na porta do quarte-geral da PM e abriu o bocão:

      – Chegamos a são Paulo, meus amigos! Desçam todos!

       Assustado, Cabo Santana abriu os olhos, pulou de dentro do coletivo e caiu estatelado no Corpo da Guarda.

        Acordou às 10 horas do dia seguinte, pensando que estava num quarto de hotel, em São Paulo:

       – Porra! Mas que porcaria de hotel é esse?

       É que ele não reparou que se encontrava trancafiado no xadrez da carceragem do quartel-geral!