Ailton Villanova

22 de agosto de 2017

O SUPERVENDEDOR

      Ninguém acreditava que Ruberivaldo Brandão,  o Berinho, aquele garotinho timidozinho, zambetinha e zarolhinho se transformasse num dos maiores vendedores de livros do país.

      Esse ilustre bebedourense aprendeu o ofício com o tio José Antonio Santana Brandão, hoje aposentado e residindo no sítio que adquiriu no Tabuleiro do Martins.

      Berinho saiu do bairro Bebedouro para caminhar por esse mundo afora, carregando numa pasta de couro enorme dezenas de livros de todas as categorias e espécies. Com o tempo, a timidez desapareceu e ele ganhou notoriedade como “o mais eloquente” papeador entre os seus colegas propagandistas.

      Hoje em dia, Berinho é capaz de vender, numa boa, sorvete para esquimó, em pleno Polo Norte.

      Uma das suas últimas visitas foi à residência do doutor Francisco de Assis das Neves, devorador contumaz de livros. Assim que bateu na porta do ilustre advogado, a esposa dele, de cara marrada, foi log avisando:

      – O Chiquinho não está!

      E Berinho, sem se abalar:

      – Eu sei, dona Nair. Estou aqui justamente para falar com a senhora!

      E ela, tentando se livrar dele:

      – Nem me venha com esse papo de livro!

      – Mas é só um dicionário…

      – Não quero!

      – Minutinho só, dona Nair. Este dicionário não é um dicionário qualquer. É um dicionário utilíssimo, atualizadíssimo. Custa apenas 10 reais!

      – Mas eu não quero comprar nenhum dicionário, seu Berinho! Nós já temos vários, aqui em casa. E foi o senhor mesmo quem nos vendeu, tá lembrado não?

      – Claro que estou. Mas este aqui… Olhe, eu vou lhe fazer uma  confidência: este dicionário é o dicionário de cabeceira do presidente da República.

      Com esse papo Berinho deixou a residência do doutor Francisco de Assis feliz da vida. Mal dobrou a esquina, trombou com o próprio:

       – Ora, mas que coincidência, doutor! Eu estava mesmo pensando no senhor. Olhe, acabo de receber a edição revista e atualizada do Novo Dicionário da Língua Portuguesa…

        – Quero não. Já tenho dicionário demais!

        – Ah, mais o senhor vai querer, sim!

        E tome papo no ouvido do causídico. Contou mil maravilhas do dicionário. Doutor Chiquinho abriu a guarda e ele empurrou-lhe o “pai dos burros”.

        Quando o advogado chegou em casa com o dicionário debaixo do braço, dona Nair alterou:

        – Você também, Chiquinho?! Olhe só pr’aqui! – e mostrou o seu exemplar recém-adquirido.

       A reação do marido de dona Nair foi imediata. Chamou a empregada e deu a ordem:

      – Odete, corre ali na esquina e me traz aqui aquele filho da puta do Berinho!

      A doméstica correu atrás do vendedor alcançando-o na terceira esquina. Assim que botou o olho na Odete, o vivaldino lascou lá:

       – Já sei! O doutor Francisco quer outro dicionário, não é? Leve este último exemplar. Faço abatimento. Tem dinheiro aí?

      Prevenida, a doméstica tinha uns trocados escondidos no sutiã que, somados, perfaziam 5 reais.

      – Fico com essa grana. Leve dicionário e lá o seu patrão devolverá o dinheiro que você acaba de me dar.Tchau!

 

SURPREENDENTEMENTE CONHECIDO!

      Coriolano Coutinho era barbeiro em Piçabuçu. Um dia, se cansou daquela vidinha repetitiva sem futuro e arribou para Maceió, com a cara e a coragem. Deixou uma raspinha das suas economias com a esposa, dona Durvalina, e o resto investiu na compra de um carrinho Gordini. Quem se lembra do Gordini?

      Pois bem. Coriolano pegou o Gordini e botou na praça. Fazia ponto na saudosa mercearia e bar Helvética, que ficava no comecinho da Rua do Comércio, pertinho da igreja do Livramento.

       As coisas terminaram dando certo para o Coriolano, apesar de ele dirigir muito mal.

      Um dia, finalmente, ele teve condições de mandar buscar a família para a capital, porque já tinha uma casinha toda mobiliada, no bairro da Levada.

      Chegaram a mulher e os filhos, ainda pequenos. Aí, nosso herói botou todos dentro do carrinho e começou a passear com eles pela cidade. Cheio de orgulho e vaidade, falou para a mulher:

      – Tu carece vê, Durvalina, cuma eu sô cunhicido aqui no Maceió!

      – É mermo?

      Nesse momento, ele tirou um fino num carro próximo a Praça Deodoro e o motorista berrou:

      – Barbeiro filho da puta!

      Dona Durvalina não se conteve:

      – Num me admira o povo daqui te cunhêça, Coriolano! Mas o qui me dêxa ispantada é qui cunheça tomém a tua mãe!

 

TODAS ARROCHADAS!!!

      É no salão de beleza que o mulherio mais conversa e faz fofoca. O leitor sabe com é mulher quando se junta.

      Tenho uma amiga, Cícera Bastos, que possui um salão de embonecamento, na Jatiúca. Marmanjos como eu, também frequentam a casa, que é finíssima.

       Num dia de sábado, o salão de madame Cícera estava lotado de mulheres, algumas das tais vaidosas e esnobes. Em dado momento, uma delas, em cujo cabelo a madame tentava dar um grau, abriu a boca e falou em voz alta, o suficiente para ser escutada em todo o quarteirão:

      – Cícera, capricha neste cabelo que eu hoje vou ter uma noitada daquelas, como meu gato, o Arnaldo…

      – Vão a alguma festa? – quis saber a cabeleireira.

      – Festa particular… – respondeu cheia de ironia. – Tenho até peninha do coitado…

      – Pena por quê?

      – É que eu sou arrochada demais! Toda vez que a gente transa, eu deixo ele com o pinto todo machucado!

      Sem demora, outra perua que se achava no secador, achou também de querer esnobar, só pra não ficar por baixo:

       – Eu estou tão ansiosa, meu Deus!

       – Por que?- Cícera deu corda.

       – É que hoje vou estrear namorado novo. Ele é japonês, sabe? Eu tenho pra mim que iremos àquele motel que inauguraram há pouco… Coitadinho do japa!

       – Coitadinho???!

       – É que também sou muito apertada! Aliás, apertadíssima! Prá você ter uma ideia, quando eu faço xixi eu me enxugo com um cotonete!

       Essa foi demais. A mulherada ficou toda muda.

       De repente, o silêncio foi quebrado com o grito de uma balzaca que lia uma revista, sentada num canto da sala:

       – Ai, meu Deus!   

       A dona do salão assustou-se:

       – O que foi que houve?

       E a coroa, se espremendo toda:

       – Desceu a minha menstruação! Alguém aí tem um confete?