Ailton Villanova

18 de agosto de 2017

“Qual foi mesmo a doença que matou cara?”

Atualmente gozando de merecida aposentadoria como corretor de seguros, o distinto Gildo Almeida foi repórter de rádio durante toda a sua juventude. Roberto Queiroz (promotor de justiça e professor universitário), Marcus Alves Costa (de saudosa memória) e José Pereira, o Pereirinha (atuando como repórter do Diário de Caxias, RJ) formavam a equipe de “focas” dos anos 70 do Departamento de Notícias de saudosa memória da Rádio Gazeta de Alagoas. Eu era o diretor. Bons tempos aqueles.

      Depois de passar pela “prova de fogo” cobrindo o dia a dia do Pronto Socorro, Gildo Almeida foi transferido para o plantão policial, onde formou dupla com o saudoso Élio Lessa. Deu-se bem. Tanto que, em pouco tempo, passou a produzir um programa popular – “Agente L-21” -, com notícias colhidas nas ruas e nos bastidores da polícia. Tinha a duração de 15 minutos ia ao ar antes do meio-dia.

      Como o Gildo ainda não era familiarizado com a arte de redigir, ou eu ou o Roberto Queiroz, ou os dois juntos, produzíamos os textos, baseados nos seus apanhados na fonte. Advinha quem era o apresentador do programa. Eu, claro!

      Certa manhã, por volta das 10 horas, eis que chegou Gildo Almeida a redação, vermelho que nem camarão torrado, abraçando um monte de papeis cheios de anotações. Pacientemente, fui selecionando as informações para  a redação final (às vezes ficava difícil entender o que Gildo escrevia). Aí, ele destacou uma folha de papel, passou às minhas mãos e falou:

      – Chefe, ia esquecendo…! Aqui tem uma notícia que dá bem pra novela de mistério!

      – Que notícia é essa? – indaguei curioso.

      E ele:

      – Peguei no IML! Lá tem um defunto que morreu de uma doença estranha pra burro!

      – Que doença estranha é essa?

      – Sei não. Só sei que o cara morreu de uma tal de “TEC”!

      – “TEC”?! E isso é doença mesmo?

      – Claro que é, chefe! Tava anotada na papeleta do defunto. “Causa mortis: TEC”.

      – Tem certeza de que era isso mesmo que estava escrito na papeleta?

      – Claro! Eu sou doido ou analfabeto, por acaso?

      – Tenho cá as minhas dúvidas. – eu disse.

      – Então, ligue pro IML!

      Liguei, já sabendo, de antemão, do que se tratava. O necropsista de plantão Pedro Santiago (já falecido) atendeu e eu perguntei:

      – Pedrinho, a vítima de nome… (e disse o nome do falecido) morreu de quê?

      – Aguente a mão aí que eu vou ver!

      Santiago demorou alguns segundos e me deu o retorno:

      – O homem morreu de T.C.E.

      Agradeci e desliguei o telefone. Virei-me para o Gildo, que estava ao meu lado, e disse:

      – Da próxima vez preste mais atenção no serviço. O cara não morreu de “TEC” porra nenhuma!

      – Morreu de quê, então?

      – Morreu de “Traumatismo Crânio Encefálico”, que na ordem médica é identificado pelas iniciais TCE!

      – E o que é “Traumatismo Crânio Encefálico”?

      Aí, dei uma de professor de medicina:

      – Trata-se de um conjunto de perturbações causadas por ferimentos na cabeça.

      A vítima, no caso, havia sido assassinada com um monte de porradas no crânio.

 

“Ué, cadê a câmera?!”  

      Na relação dos indivíduos mais displicentes deste mundo, existe um exemplar que bate todos os recordes: Juarez Branco, “câmera-man” da TV Gazeta. Conheço bem a peça porque fui seu diretor, naquela emissora.

      Juarez é o tipo do cara cuja desídia, mais dia menos dia, o colocará na crista da onda como líder universal da irresponsabilidade. Ainda não entrou para o “Record,s Book” (o famoso Guiness), porque acharam que ele, tal o seu incomum abstruso desinteresse, é merecedor de mais que uma simples coluna com um retratinho colocado de banda. Do Guiness, Juarez merece, sim, uma edição especial.

       Dizem que certo dia ele deitou o pijama na cama e atirou-se na cesta de roupa suja, onde agarrou numa madorna de 12 horas seguidas.

       Das incontáveis aventuras desse ilustre e desligado colega, existe uma que é verdadeira pérola e que, aliás, quase mata do coração o jornalista Régis Cavalcante.

       Régis era, então, o diretor de jornalismo da TV Gazeta. Um dia, pautou uma matéria interessante a respeito da vida e obra do imortal Graciliano Ramos. Ele próprio escalou-se como repórter e teve a infeliz ideia de designar o Juarez Branco para operar como câmera. O trabalho de reportagem iniciaria pela cidade de Quebrangulo, teria alguns “takes” em  Palmeira dos Índios e culminaria em Maceió. Depois de editada, a matéria seria exibida em horário nobre.

      No dia aprazado, uma segunda-feira de manhã, logo cedo, Régis reuniu a equipe (produtor, câmera-man, iluminador e motorista) e passou todas as coordenadas, insistindo na atenção do Juarez, porque ele o conhecia tão bem quanto eu:

      – Ô Juarez, o material de externa está todo pronto e checado?

      E ele:

      – Todo joiado!

      – Tem certeza? Você conferiu tudo mesmo, Juarez? Não está faltando nadinha?

      – Fique frio, chefe! Eu não falei que  o material está todo joiado?

      Conhecendo como conhecia o Juarez, o Régis não devia ter confiado apenas na palavra dele. Foi o seu erro. Mas errar é humano, não é?

       Equipe em ponto de bala, montaram todos na Belina do jornalismo e se mandaram para o interior. Quando trafegavam pelas proximidades de Maribondo, Régis teve uma premonição. Virou-se para o banco de trás, encarou o Juarez e comentou:

       – O meu anjo-da-guarda está me dizendo que há alguma coisa errada por aqui. Você tem certeza de que não está faltando nada na maleta dos equipamentos, rapaz?

       Juarez invocou-se:

       – Tava bom de não responder. Se você não confia em mim, por que não manda parar o carro para a gente conferir tudo?

       Régis acatou a ideia:

       – É o que eu vou fazer agora mesmo. Motorista, pare o carro aí no acostamento.

       Viatura estacionada, todos desceram para conferir o equipamento de gravação de externas. Abriram a maleta onde deveria estar acondicionada a câmera e Régis quase teve um infarto, quando reparou para dentro dela: a infeliz da câmera não estava lá.

      Foi aí que o Juarez bateu com a mão espalmada na testa e exclamou:

      – Putamerda! Como foi que não me lembrei na câmera?! Desculpa aí, viu Régis?

      Régis desculpou o Juarez. Mas não o perdoou!