Ailton Villanova

17 de agosto de 2017

Senador de araque

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      Eu era diretor do Departamento de Polícia Científica da Secretaria de Segurança Pública e o meu colega Osvanildo Adelino de Oliveira, hoje merecidamente aposentado no posto de delegado de polícia, dirigia o Instituto de Criminalística, a mim subordinado. Juntos, realizamos, sem modéstia alguma, um belo trabalho. Até os nossos inimigos, inclusive os gratuitos, reconhecem isso. Determinado dia, fomos designados pelo secretário de segurança de então, José Rubem Fonsêca de Lima, para uma missão em João Pessoa.

      Fomos lá.

      Cedido pelo delegado Fernando Tenório, diretor de polícia da capital, viajou conosco o seu agente da maior confiança José Paschoal Moura Teixeira da Silva, o indefectível Mourinha. Esse cara, além de gozador por excelência, é um tremendo cara de pau.

      Viajamos à João Pessoa numa viatura descaracterizada, com Mourinha ao volante. Saímos cedo de Maceió, cerca das cinco da manhã -, e por volta das 9 e meia da manhã  estávamos ingressando em território paraibano. Foi quando nos lembramos que nossas panças estavam vazias. Mourinha deu o brado.

      – Não aguento mais de fome! Que tal a gente parar pra comer?

      Eu e Osvanildo topamos, na hora. Não demorou muito e o nosso veículo estava estacionando no pátio de uma churrascaria localizada na entrada da cidade de Baieux – a chamada “Terra dos Cornos” – cujo dono, ou gerente, sei lá, nos observava com cara de poucos amigos. Mourinha correu na frente e abordou o dito:

      – Tem um desjejum no capricho, amigão?

      E o cara, cheio de má vontade:

      – Tem não. Tô abrindo agora!

      – Mas…

      O sujeito nem deixou Mourinha terminar de falar:

      – Nem mais e nem menos. Já falei que estou abrindo agora, não falei? Faça o favor de retirar-se!

      Eu e Osvanildo caminhávamos atrás de Mourinha. Meu colega estacou de olho arregalado e eu esperei uma reação violenta do Mourinha, que é um cara parrudão. Mas, não. Ele fez meia volta, me encarou e disse, piscando um olho:

      – Tá vendo só, senador? O cidadão aqui está nos botando pra fora. Já pensou, senador?

      No que ouviu a palavra “senador”, o mal educado gerente mudou da água para o vinho. Aproximou-se de mim e falou cheio de mesuras:

      – Desculpe, senador. Eu não sabia que o senhor…

      O sujeito foi interrompido pelo Mourinha:

      – Você não sabe em que fria está se metendo, cara! Este aqui é o senador boca-quente de Alagoas, Aílton Villanova e este outro é o deputado federal Osvanildo Oliveira… boca mais quente ainda. Já ouviu falar neles?

      – Já! Já sim, senhor! – o cara mentiu, todo atrapalhado.

      Tomamos um lauto café da manhã. Negócio fino. Quando pedimos a conta, o gerente babou-se todo:

      – Pagar por um cafezinho desses? De maneira alguma, senhores. Foi uma honra poder servi-los.

      Em seguida, ele virou-se pro Mourinha e disse:

      – O senhor não se identificou. Qual sua graça, por favor?

      E ele, de cara fechada:

      – Coronel Moura!

     Não adiantou o esbregue que demos no Mourinha. O sacana repetiu a dose, horas mais tarde. Foi à noite, depois de termos cumprido nossa missão em João Pessoa. Estávamos jantando na churrascaria “O Cearense”, localizada no Parque Solón de Lucena, com música ao vivo, de leve, zoneando  nossos ouvidos. Mourinha desapareceu das nossas vistas por alguns instantes e retornou à mesa todo sorridente. Osvanildo observou, olhando pra cara dele:

      – Esse rapazinho deve ter aprontado outra!

      E ele, com a cara mais cínica do mundo:

      – Eeeeeuuu, doutor? Quiéisso!

      Daí a pouco, confirmou-se a suspeita do Osvanildo. A música parou e o locutor, muito do boçal, lascou lá:

      – “Senioras” e “seniores”… É com subida honrrra que estamos recebendo nesta humilde casa, as “presencias inlustres” do senador Aílton Villanova e do deputado federal Osvanildo Oliveira… da Terra dos Marechais”.

      A palma comeu no centro.

      Procurei terra no chão e não encontrei. Tive vontade de sair disparado porta afora. Olhei para o Osvanildo, ele estava azul de raiva e vergonha, tentando meter-se debaixo da mesa. Então, eu disse pra ele:

      – Aguenta a barra, meu irmão. Quando a gente sair daqui, a gente mata o Mourinha.

      E o Osvanildo, entre dentes:

      – Com o maior prazer, companheiro.

      Bem, não matamos o Mourinha. Ele correu na nossa frente e nos esperou, pacientemente, no hotel, que a nossa raiva passasse.

      Horas depois, a gente ria a valer.

 

O impagável Sandoval Caju

      O paraibano Sandoval Ferreira Caju era um homem carismático. Ganhou fama e prestígio na política alagoana, a partir do rádio. Viveu os áureos tempos da nossa radiofonia. Abdicou do microfone para ser prefeito de Maceió, com votação consagradora. Mais tarde, despencou das alturas da celebridade atingido por um petardo manipulado pelas forças do poder despótico que tomou o Brasil de arrancada no início de 64.

      Utilizando o microfone da Rádio Progresso de Alagoas com seu notável programa “A Tribuna do Povo”, abalou as tradicionais estruturas da política local, com suas denúncias e apelos em favor das comunidades mais carentes e sofridas. Quase virou santo, porque fez o milagre de arredar da frente o monturo que a burguesia utilizava para embaraçar a visão dos carentes de justiça social.

      Em defesa do povão, Sandoval Caju quebrou protocolos, disse aquilo que a esmagadora maioria queria ouvir, com toda a força de sua inteligência e da coragem que sempre possuiu.

      Foi um fenômeno de efêmera duração na política, infelizmente. Trataram logo de derrubá-lo porque ele estava incomodando demais aos chamados poderosos.

      Cassado pelo golpe militar de 64, não teve outro remédio senão o de se limitar à sua banca de advogado, profissão que também exerceu com determinação, competência e dignidade.

      Mas, o Sandoval Caju radialista dos tempos iniciais do “sem fio” alagoano, desse daí se tem que era irreverente e espirituoso como poucos.

      Na Difusora, além de comandar o programa de auditório “Palito de Fósforos” atuava também como rádio-repórter. O que mais admirava nele era a sua extraordinária presença de espírito.

      Certa vez, foi designado para fazer a cobertura do sepultamento de importante autoridade. O inditoso havia falecido de um “mau súbito”. No cemitério, minutos antes do sepultamento, Sandoval driblava a multidão ouvindo um depoimento aqui, outro ali… tudo a respeito da vida e da obra do pranteado. Quando deu fé, estava à beira da sepultura. A terra fofa cedeu com o seu peso e olha lá Sandoval Caju dentro do buraco! Sorte é  que o ilustre “de cujus” ainda não havia baixado lá.

      Mas o radialisa não perdeu o rebolado. Falando estava, falando continuou, de microfone em punho, dentro da cova:

      – Amigos ouvintes, agora estamos falando diretamente do buraco do doutor…

      Excelente orador, Caju era dono de um improviso facílimo.  “Essa sua capacidade de comunicar-se sem custo e sem atropelos, foi razão também do seu sucesso junto as massas”, lembra o colega Cláudio Alencar. Seus discursos de campanha tinham o linguajar peculiar, de fácil entendimento e cheio de tiradas interessantes:

      – Eu hoje vim de branco para me tornar mais claro! –  discursou certa noite, num comício de campanha, no bairro do Bom Parto. Na ocasião, ele vestia uma roupa de linho branco.

      Ainda locutor de rádio, encontrava-se animando o seu programa de auditório quando, de repente, engasgou-se com a própria saliva. Não deu mancada. Pigarreou, temperou a garganta e sapecou:

     – Tosse? Pigarro? Rouquidão? Tome Xarope Bromil!

     E Sandoval continuou animando a galera. Bom para o laboratório fabricante do remédio, que ganhou um comercial gratuito.