Ailton Villanova

15 de agosto de 2017

A mancada do “doutor”

      Dentre aqueles que atuaram na Rádio Progresso de Alagoas dos velhos e bons tempos, não há quem não tenha guardada na memória a bizarra figura do “Doutor”. Baixinho, andar trôpego, olhos sempre vermelhos, míope que nem uma toupeira. Seu nome de batismo sempre foi uma incógnita. Mistério para Sherlock Holmes nenhum botar defeito.

      Queridíssimo do pessoal da Progresso, Doutor era uma espécie de faz-tudo na emissora, desde que o trabalho não exigisse muito da sua massa cinzenta. Raciocinar não era o forte do Doutor. De modo que nas atividades menos categorizadas da rádio, ela era primeiro-sem-segundo. Atacava com a mesma determinação e competência as funções de contínuo, porteiro, mensageiro, auxiliar de faixineiro, cobrador, vigia…

       O saudoso Edécio Lopes, seu antigo diretor, costumava dizer que o doutor era que nem pneu: só trabalhava “calibrado”.

      Ainda hoje vivo, Doutor continua constituindo o mais absoluto desafio à ciência. Começou a beber na infância e não parou mais. Não há esculápio neste mundo que, por mais competente seja, consegue explicar como o fígado dele ainda continua inteiro. Outros cristãos que tentaram acompanhar a sua performance alcoolífera, já esticaram as canelas faz tempo.

      O título honorífico de “Doutor”, esse velho servidor progressiano quando, ainda adolescente, no bairro do Poço, em meio a uma discussão etílica ele bateu no peito e exclamou:

      – Ninguém entende mais de cachaça do que eu. Nessa matéria eu sou Doutor!

      Todo mundo concordou e o apelido ficou.

       Aposentado há um tempão, Doutor sumiu do mapa. Na época em que a Rádio Progresso funcionava no último andar do Edifício Ary Pitombo, Praça dos Palmares, seu desjejum, no barzinho localizado no referido logradouro, invariavelmente era meio copo de cachaça e uma cajarana. Quando não havia cajarana, a falta era suprida com banana, ou pitomba. Daí pra frente, em todo boteco que Doutor encontrava pela frente ele parava para tomar “uma”.     

      Tirando o defeito da bebedice compulsiva, esse guerreiro sempre foi um sujeito legal. Uma pessoa do bem, mesmo. Humilde, jamais constituiu motivo de aborrecimento para os companheiros de trabalho. Também nunca foi de cair bêbado na rua. Sua embriagues, por incrível possa parecer, sempre teve limite. Aliás, limite que ele jamais impôs. A própria natureza é que sempre determinou o “basta” na sua biritagem.

                                                     ***

      Nos anos em que a Rádio Progresso funcionou no Ary Pitombo, mais das vezes os seus dois elevadores estavam pifando. Aí, o sufoco era grande. Subir e descer seis andares no amor febril significava o mais atroz dos castigos. Mas, para o Doutor, isso não constituía problema algum. Ele subia e descia a quilométrica escadaria no maior pique.

      Do primeiro ao quinto andares funcionavam repartições do finado Instituto de Pensões e Aposentadoria dos Servidores do Estado – Ipase: perícia, médica, ambulatórios, clínicas médica e odontológica, além dos setores burocráticos e administração. Nesse mundão todo, Doutor era bastante festejado.

      Num belo dia de segunda-feira, o velho José Olegário, porteiro do penúltimo andar (no último funcionava a Progresso), necessitou ausentar-se temporariamente do serviço para resolver um problema particular na Rua do Comércio. Procurava, de sala em sala, por alguém que pudesse substituí-lo no serviço, quando deu de cara com o Doutor que, de folga, zanzava pelos corredores do edifício. Aí, lhe pediu a gentileza de ficar no seu posto, “por um instantinho só”, enquanto “ía ali” e voltaria logo. Doutor ficou, porque nunca foi de negar favor a ninguém, muito menos a um amigo.

       – Vá tranquilo e com Deus, seu Olegário! – desejou-lhe Doutor.

       No penúltimo andar, a clínica médica do Ipase tomava todo o espaço do imovel. Vivia entupida de gente. Filas enormes diante dos guichês das fichas para consulta médica. Em dado momento, abriu-se a porta do elevador e de dentro saiu um velhinho segurando a barriga e caminhando com alguma dificuldade.

      – Cadê o dotô, ele tá? – perguntou, aperreado.

      Lá de um cantinho, alguém levantou o braço e respondeu:

      – Eu tô aqui!

      O velhusco aproximou-se todo encolhidinho, mal podendo andar:

       – Me salve, doutor! Tô com uma caganeira infeliz! Faz mais ou menos uns três dias que eu tô mijando pelo fiofó, que nem pato!

       O pessoal da fila, maioria gente aposentada, lascada da vida, espiava compadecida para o velho. Aí, Doutor assumiu pose de verdadeiro facultativo, temperou a goela e indagou, com o maior bafo de cana:

        – O senhor num parou de cagar nem um minuto?

        – Parei não, doutor! Num aguento mais!

        Para não passar em baixo diante da plateia, desde que havia sido identificado como “doutor”, o serviçal não se fez de rogado:

       – Tome um vidro de “Ducoláquis”!

       – Duco… Como, doutor? – indagou o velho, todo atrapalhado.

       – Du-co-lá-quis. Esse é bom demais! Já tomei muito!

       – Dá pro senhor receitar direitinho no papel, doutor?

       Escrever não era com o nosso amigo. Então, disfarçou. Começou a mexer nos bolsos, coçou a cabeça e finalmente desculpou-se:

      – Agora não dá! Tô sem os meus óculos e sem o caderninho de receita.

      Aí, uma mocinha que acompanhava uma velhota que estava na fila, interferiu no papo:

      – Eu tenho papel e caneta aqui, doutor! Quer que eu anote?

      Ambos, “paciente” e o falso médico concordaram e a garota escreveu bem legível e certinho, com letrinha de forma: Dulcolax.

       Com mil agradecimentos, o velho girou nos calcanhares e foi embora, arrastando os pés.

                                                         ***

        Decorridos mais ou menos uns vinte dias desse episódio, o tal velhinho voltou à clínica médica do Ipase. Mal se punha de pé, coitado. Dessa vez, estava acabado, mais parecendo um cadáver. Caminhava amparado por dois sujeitos parrudos.

       – Cadê o canalha do doutor que tentou assassinar o nosso pai? – berrou um deles.

        E quem era maluco dedurar o Doutor?

        Seu Olegário, que sabia da história, retribuiu o favor prestado pelo colega. Corajosamente, encarou o par de valentões e disse:

        – Aqui não tem nenhum doutor criminoso. O que tinha esse defeito, foi transferido de repartição. Não trabalha mais aqui!

        – E pra onde ele foi?

        – Ele foi transferido pro Maranhão!

        Doutor havia escapado de uma boa. A sua irresponsabilidade quase matou o velhinho. O remédio que havia “receitado” para o infeliz é conhecidíssimo pela sua eficiência na abertura das comportas anais até de elefante. Não há fiofó que resista.

        Contam que o ancião quase morreu derretido de tanto fazer cocô. Ele havia seguido à risca a recomendação do falso médico. Dizem que foi salvo por um milagre atribuído ao Padre Cícero.