Ailton Villanova

12 de agosto de 2017

O Sem-Grana

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       Escoltado por três PMs, o baixinho e barbudinho Algeróbio Macambira, mais conhecido como Pirrita, foi introduzido no gabinete do delegado de polícia civil Antônio Carlos de Azevêdo Lessa, à época titular da regional de Palmeira dos Indios. O chefe da equipe adiantou-se e disse ao delegado:

      – Acabamos de prender esse ladrão tentando assaltar o banco…

      Pirrita interrompeu a fala do praça, e protestou:

      – Êpa! Peraí, meu irmão! Ladrão, vírgula!

      E o PM:

      – Cala a boca!

      – Calar a boca por quê? E os meus direitos humanos?

      – Ladrão não tem direito nenhum!

      – Ladrão, não! Já falei que não sou ladrão. Me respeite!

      O delegado, que se mantinha calado e intimamente se divertia com a arenga, resolveu intervir:

      – Se você não é ladrão, o que e, então?

      E o malandro, todo cheio de pose:

      – Simplesmente, líder do Movimento dos Sem-Grana!

      O delegado Lessa deu um pinote da cadeira:

       – Tá querendo brincar comigo, rapaz?

       – Não senhor, doutor. Sou mesmo líder dos Sem-Grana!

       O delegado invocou-se mais ainda:

       – Você pode ser a gota serena! Isso não lhe dá o direito de querer assaltar bancos por aí afora. É crime!

       – E o que vou assaltar o quê, então? Me diga, doutor? As fazendas dos ricaços já estão com os caras dos Movimentos dos Sem-Terra, certo?

       – Errado!

       – O pessoal dos Sem-Terra invade as propriedades alheias e não vai preso! Nós, os Sem-Grana, não podemos nem chegar perto de um banco! Isso é discriminação!

        – Deixe de conversa mole! Você tentou ou não tentou roubar o banco?

        – Em absoluto, doutor. Simplesmente, fui pegar uma graninha, numa boa. O resto ia ficar lá, guardado, para outra ocasião, entendeu doutor?

        Prova é que o delegado Antônio Carlos não entendeu, que autuou o malandro por tentativa de assalto à mão armada e o mandou para a penitenciária.

 

Só reparando por cima!

      As manas balzaquianas Maria Asdubralda e Maria Antupatra baixaram no gabinete do delegado Aguinaldo Ramos, de saudosa memória, cheias de indignação:

      – Doutor, o senhor precisa ver a pouca vergonha que vem se passando na casa vizinha à nossa. Uma coisa horrível! – disse uma delas.

      E outra completou:

      – Maior escândalo! As mulheres, todas nuas, exibindo aquelas partes peludas… Ave!

      – E os homens, meu Deus do Céu! – retomou a primeira. – Doutor, os homens despidos, com aquelas coisas enormes balançando entre as pernas… Ai que pecado!

      Aguinaldo não se conteve:

      – Pelo que as senhoras estão me contanto, o negócio lá é um verdadeiro bacanal! Preciso acabar com essa esculhambação agora mesmo! Vamos lá!

      Acompanhado das duas solteiraças, o delegado marchou resoluto para o local da orgia. Chegando lá, reparou que a denúncia não correspondia exatamente a verdade. Um muro de mais de quatro metros de altura isolava pela frente, pelos lados e pelo fundo, o imóvel onde estaria se verificando o espetáculo de nudismo e safadeza.

      – Mas… não entendo! Daqui não se vê nadinha, senhoras. O muro é alto demais!

      Aí, a Maria Asdubralda rebateu o delegado:

      – Não vê? Pois suba naquela escada grandona que tem lá no fim do muro e olhe por cima!

 

Lutador destemperado

      Na cidade de Viçosa o Agrício “Ventinha” era famoso por suas arruaças. Bateu o recorde mundial de permanência nos xadrezes de lá. Tanto que só num mês ele foi recolhido à carceragem 88 vezes. É mole? Por não suportar mais sua presença na terra do “Menestrel das Alagoas”, o delegado Amarílio Amaral Guedes deportou-o para Maceió. Assim que aqui assentou o solados dos pés, arrumou uma confusão dos seiscentos diabos, no bairro do Feitosa. Sozinho, brigou com oito caras parrudos, num boteco que ficava por detrás do terminal rodoviário, e botou todos em nocaute.

      Ao saber da façanha do Ventinha, o prestamista Zé Negão, procurou-o na casa de uma tia onde ele estava hospedado e o convidou para ser lutador de boxe. Agrício Ventinha topou na hora e nem precisou treinar para enfrentar, no ringue, seu primeiro adversário, o Jorjão Boca de Bigorna, campeão amador peso pesado.

       A luta foi marcada para o sábado seguinte, na rinha de galos do Lindelfo, situada no Jacintinho.

       Durante a luta, Agrício perseguiu o adversário, que se vestia de branco, por todos os cantos do ringue. Quando o pegou de jeito, só lhe deu uma porrada no pau da venta. Foi desclassificado e não parou de protestar:

       – Essa luta foi uma porcaria! Não entendi porque fui desclassificado! Quem devia ter sido desclassificado era o meu adversário, que correu do pau o tempo todo!

       Aí, o empresário Zé Negão explicou:

      – Tu tava errado, cara! O tempo todo eu tentava lhe avisar que o cara de branco que tu perseguia no ringue era o juiz!

 

Transa desconhecida

      Quando se formou delegado, na Academia de Polícia Civil de Alagoas, o gordinho Antonio Rosalvo Cardoso, o Mamão, foi designado para a distrital de Novo Lino e chegou lá botando moral. Seu primeiro desafio como autoridade policial, foi apurar responsabilidades num misterioso caso de estupro, cujo inquérito já havia sido instaurado pelo seu antecessor. Tendo que dar sequência ao feito, Mamão chamou a primeira testemunha da lista, um certo Manuel Emídio, que começou a depor:

      – Entonce, dotô, o tár de istrupício…

      – Estuprador!

      – Isso! O tár de istrupradô agarro a mulé e começo a fuleráge…

      Cheio de pose, o delegado-calouro interrompeu o depoente:

      – Um momento! Olhe a linguagem! Diga coito, ao invés de fuleiragem!

      – E qui danado é coito, dotô?

         Mamão deu uma de professor:

         – Coito… Bom, coito é um tipo de linguagem que o senhor não teve a oportunidade de conhecer. Prossiga!

         O cara continuou depondo:

         – Cuma eu dizia, o tarado pegô a mulé e cumeçô a… o coito. De repente, levantô a perna dela e mandô a chave de jegue!

         – “Chave de Jégue”?! O que vem a ser “chave de jegue”? – quis saber o delegado estreante.

         O matuto, então, deu o troco:

         – É um tipo de fuleráge qui o sinhô num teve oportunidade de cunhicê!