Ailton Villanova

9 de agosto de 2017

Também com uma cara dessas…!

     Doutor Leobino Veiga foi um médico competente, que viveu no Farol. Falecido há mais de 50 anos, tinha um consultório no centro da cidade, destinado à chamada  “Classe A”, mas atendia a plebe no ambulatório da antiga “Saúde Pública” – atualmente 1° Centro de Saúde da Capital – que ainda hoje funciona na praça de Nossa senhora das Graças, bairro da Levada.

      Dizem os do seu tempo, que doutor Leobino, independentemente de ser um craque na medicina preventiva, era chato pra caramba! Estava sempre de mau humor. Jamais alguém o viu esboçar o mais leve sorriso.

      Certo dia, encontrava-se o ilustre esculápio bem à vontade no ambulatório da Saúde Pública quando bateu lá o pedreiro conhecido como Tonho Neném, figura popularíssima e simpática, cuja residência ficava na Ponta Grossa. Só que sua cara não ajudava em nada. Mas ele se achava bonito e irresistível.

      – Doutor! – disse ele – Estou com um problema muito sério, aqui no estômago! É um negócio que sobe, depois desce, depois sobe de novo e depois desce…

      – Espere aí! – disse o médico. – Deite naquela mesa, que eu vou examiná-lo direitinho.

      O paciente obedeceu, o doutor procedeu conforme manda a medicina e, em seguida, rabiscou alguma coisa no receituário, recomendando:

      – Tome esses comprimidos de 8 em 8 horas…

      – E o que é que eu tenho, doutor? – perguntou, aflito, o paciente.

      – Besteira. É só um “pum” indeciso!

      – E que diabo é isso de “pum indeciso”, doutor? Nunca ouvi falar nessa doença!

      – E não é doença mesmo. O problema é que, com essa cara de fiofó que você tem, o “pum” fica na dúvida. Não sabe se sobe ou desce!

 

Enterro mensal

      Faz um tempão que o Arinaldo Tertuliano saiu do interior de Alagoas com a ideia fixa de vencer em São Paulo. Seu sonho era ser metalúrgico, como o seu grande ídolo Inácio Lula. Conseguiu! Ainda hoje é funcionário de uma das maiores montadoras de veículos da América Latina, situada em São Bernardo do Campo.

       Certo dia, encontrava-se Arinaldo operando o seu torno mecânico quando avisaram que havia um telefonema pra ele, oriundo de Maceió. Com o coração aos pinotes, correu para atender. Ao dizer o tradicional “alô”, escutou o seu irmão Genebaldo sapecar:

      – Ari, o pai morreu!

      Muito abalado e impossibilitado de comparecer ao enterro do velho, o metalúrgico orientou o irmão que cuidasse direitinho do funeral e depois lhe mandasse a conta. E assim foi feito.

      A primeira conta chegou às mãos do Arinaldo quinze dias depois do sepultamento do pai. Arinaldo mandou um cheque. Só que, a partir dali, nos meses seguintes ele não parou de receber um novo débito com o mesmo valor. Aí, ele invocou-se e ligou pro irmão:

      – Ô Géo, que funerária de ladrão é essa que você arrumou, rapaz? Todos os meses ela manda a mesma conta! O que está havendo?

      O irmão esclareceu:

      – Sabe o que é, Ari? É que quando a gente foi enterrar o pai, o pobrezinho não tinha terno. Aí, o jeito foi alugar um…!

 

Passageiro vivaldino se deu mal!

      O mecânico Aglimério Sena saiu de Campo Alegre (onde morava e trabalhava) com destino a São Miguel dos Campos, para receber o pagamento de um conserto que havia feito no carro de um certo Filermon, funcionário da Usina Caeté.

       Pegou a grana com o cara e na viagem de volta subiu num ônibus que fazia a linha Arapiraca/via-Campo Alegre/São Miguel. Acontece que, por engano ou má fé do cara do guichê, foram vendidas duas passagens para um mesmo assento, justo aquele que foi ocupado pelo Aglimério. Então, estava ele bem sentado, aguardando a saída do coletivo, quando um matutão cutucou no seu ombro:

       – Esse lugá é meu! Vô p’ras Arapiraca!

       Aglimério retrucou:

       – O senhor deve estar enganado! O lugar é meu!

       – Não sinhô! É meu! Óie aqui o númbro da passáge: 28!

       – Repare também a minha. É 28! – rebateu o mecânico.

       – E agora, Cuma é qui fáis? – indagou o matutão, coçando a cabeça.

       Dando uma de vivo, o mecânico pegou a palavra de volta e sugeriu:

       – Vamos fazer o seguinte… quando o ônibus chegar em Campo Alegre, será a sua vez de sentar, tá certo assim?

       O matuto acatou a ideia. Muito à vontade, Aglimério aproveitou para dar uma bela cochilada e só acordou quando o coletivo parou em Campo Alegre.

        – Já cheguêmo! – avisou o matuto, dando novo cutucão no mecânico.

        Aglimério levantou-se, cedeu o seu lugar ao cara e, quando saía de fininho, resolveu tirar uma chinfra:

        – Tchau, otário! Era aqui mesmo que eu tinha que descer! Rá, rá!

        Aglimério desceu mais rápido do que imaginara, devido a violentíssima porrada que tomou no pé do ouvido, porrada esta desferida pelo matutão. O mecânico passou voando pela janela do coletivo e foi estatelar-se no meio do asfalto.

 

Pra quando seria o suicídio?

      Brincadeira entre colegas quase resultou numa tragédia.

      Irresponsável e gozador ao extremo, Genoíldo Fonseca achou de tirar uma onda pesada com o Moacir Firmino, motorista da firma onde ambos trabalham. Acontece que Firmino não gostou da brincadeira e deu a maior engrossada. Graças ao chefe dos dois, Eutíquio Moreira, tudo terminou bem entre gargalhas e com alguns goles de cerveja.

      Era um sábado, a turma da empresa Leal & Medeiros Ltda se achava reunida num botequim próximo, tomando umas e outras e jogando conversa fora, quando o chegou o Firmino e falou, cheio de pose, só pra se gabar:

      – Acabei de comprar uma “doze” zerada! É importada e tem capacidade para seis cartuchos!

       Aí, Eutíquio Moreira, que deveria ter ficado calado, achou de interpelá-lo:

      – Mas pra quê você quer uma espingarda 12, rapaz? Você é caçador? É policial, por acaso?

      – Claro que eu não sou nada disso. Comprei a “maquina” só pra matar corno!

      E o Fonseca, cuja língua é mais venenosa do que língua de salamandra, entrou de sola, assim que o Firmino acabou de falar:

      – E você está pretendendo se suicidar quando?