Ailton Villanova

2 de agosto de 2017

Um marido demais!

      A saudosa delegada Elza Dias era a titular de Defesa da Mulher de Arapiraca, quando, certa ocasião, ao dar por encerrado o expediente na repartição teve sua atenção requestada por uma de suas auxiliares:

      – Doutora, será que daria para a senhora atender a uma queixosa? Ela está tão aflita, coitadinha…!

     Coração bom demais, Elza aquiesceu:

     – Tá certo.  Traga ela até aqui.

    A policial conduziu a mulher à presença da delegada. A infeliz tinha um olho tapado e um calombo enorme no meio da testa.

     – O que foi isso, minha filha?! – indagou a delegada.

     E a mulher:

     – Foi um pau que levei do meu marido! Olhe só como ficou o meu olho, doutora. É bem capaz de eu ficar cega…!

     E Elza, tentando confortá-la:

     – Fica não, porque Deus não quer. Agora me conte como ocorreu essa agressão.

    E a queixosa, segurando o olho:

    – Foi assim, doutora: meu marido Tióge, aquele condenado, estava dormindo aos roncos. Aí, fiz a gentileza de tentar acordá-lo e comecei a sacudí-lo…

    – Mas pra quê, se o homem estava dormindo tranquilo?

    – Tava, doutora. Mas acontece que quando ele foi se deitar, esqueceu de tomar o comprimido pra dormir, entendeu? Eu o acordei justamente pra ele tomar o remédio. Agora, me diga doutora, precisava ele ter batido

em mim com tanta ignorância, precisava?

 

Um síndico de mau gosto

      O síndico do prédio onde morava o Emerildo Souza era tido como um tremendo paquerador. Das criaturas que vestem saia, ele só respeita mesmo escocês. Por esse motivo Souza era invocado com o cara. Uma noite, ele entrou em casa puto da vida e desabafou com a mulher:

      – Esse síndico é mesmo um grande imbecil! Tem um mau gosto que chega a irritar a gente!

      E a mulher:

      – Você está falando do Agatenildo?

      – E de quem mais eu poderia estar falando? Aqui tem outro síndico, por acaso? Você viu só a cor que ele escolheu para pintar o prédio?

     E a madame, apoiando o marido:

     – Ah, mas não é só isso, meu bem. Ele também é abusado! Você sabe que ontem ele me chamou de gostosa?

     E o Souza mais puto ainda:

     – Eu não disse que ele tem um mau gosto terrível?

 

Genial proposta bebúnica

      O indivíduo chamado Agnosvaldo Júnior é tido e havido como o “rei do pileque”! E vive se gabando disso em toda esquina:

      – Eu sou colega do nego Pelé! Ele num é rei? Eu também sou!

       Domingo desses, ele saiu enchendo a cara em tudo quanto foi de boteco da orla marítima e na hora de voltar pra casa, que fica em Cruz das Almas, só lhe restava no bolso uma nota de 5 reais, com a qual pretendia tomar a “saideira”. Aí, botou na cachola que esse último grogue deveria ser de uísque. De modo que parou na derradeira barraca do itinerário e pediu ao cara que atendia ao balcão:

      – Me vê aí 5 pratas de uísque, amizade!

     O barman reagiu indignado:

     – Tá querendo brincar comigo, rapaz?! Este aqui é um estabelecimento sério. Uma dose de uísque custa 10 reais!

     – Nesse caso você bota meia dose e tá resolvida a questão!

     – Aqui, não vendemos meia dose nem de cachaça. E vá logo saindo de fininho, antes que eu me aborreça!

      Humilhando e bastante chateado, Agnosvaldo fez meia volta para deixar o ambiente e quase trombou com o colega de copo conhecido como Pitiguirra, que levantou o braço e gritou pro barman:

      – Botaí uma dose de uísque, Jesus!

      – É 10 reais! – respondeu o tal Jesus.

      – Não perguntei o preço! – rebateu Pitiguirra, cheio de moral. – Vai servir ou não vai servir o meu uísque, Jesus? 

      Doido pra beber, Agnosvaldo aproveitou o momento para lançar uma inusitada ideia: assim que o barman estendeu pro Pitiguirra o uísque requisitado, ele, Agnosvaldo, lançou o desafio:

      – Ô meu prezado, eu aposto cinco “pilas” com você como sou capaz de tomar essa sua dose sem abrir a boca!

      Pitiguira duvidou do papo:

      – Sem abrir a boca?! Tá brincando!

      – Verdade! Aposto cinquinho…

      – Eu pago pra ver. Apostado!

      Então, o esperto Agnosvaldo pegou o copo com a bebida e virou a dita cuja na boca. Engoliu todo o uísque de uma só talagada. Pitiguirra deu o grito de vitória:

      – Ganhei! Rá, rá! Você perdeu a aposta! Você abriu a boca!

      E Agnosvaldo estalando a língua e lambendo os beiços:

      – Perdi, foi? Perdi, mas bebi o uísque pelo preço que queria!

      Pagou a aposta  saiu manquitolando, feliz da vida.

 

Por que não reparou antes?

      O repórter-fotógrafo Adailson Calheiros, nosso companheiro aqui da Tribuna Independente, é um monstro para trabalhar. Então, nas épocas eleitorais, como a que se avizinha, é que se desdobra. A gente costuma ver, na porta de seu estúdio fotográfico filas e mais filas de candidatos querendo retratar as suas carrancas para cartazes de propaganda.

      Reclama Calheiros que tem dias que nem pra comer tem tido tempo, de tanto trabalho.

      Na última campanha eleitoral pintou no estúdio de Adailson Calheiros um candidato a vereador no interior do estado, cuja cara era toda fora de esquadro. Mas ele insistia que esse detalhezinho não constituía atrapalho algum à sua pretensão de chegar ao parlamento interiorano. Adailson bateu umas mil e quinhentas fotografias do sujeito para ver se aproveitava ao menos uma que não assustasse os seus eleitores.

      Uma semana depois, o candidato, cujo nome era Grináurio, foi pegar as fotos no estúdio do Calheiros e levou com ele a esposa, uma baixinha sarará do cabelo agastado, muita chata e cheia de direito. Ela pegou uma das fotos do marido, olhou, olhou, fez cara de desagrado e disse pro Adailson, na maior cara de pau:

      – Gostei não! Num fiquei nem um tiquinho satisfeitas cum esses retratos. Meu marido tá parecendo um “lubisome”!

       Adailson Calheiros não deixou por menos. Deu o troco para a madame, em cima da bucha:

       – Eu sei, madame. Tá na cara! A senhora tem toda razão. Mas devia ter visto isso quando se casou com ele!

       E encerrou o papo.