Ailton Villanova

1 de agosto de 2017

Quem já viu relógio andar?

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      O Astrágalo Xavier sempre foi considerado um sujeito tranquilo. Entretanto, depois que recebeu a notícia de que o governo havia anunciado que daria um aumento de 6,5%  ao funcionalismo público estadual, transformou-se numa verdadeira pilha de nervos, segundo sua esposa Aspásia, senhora muito distinta.

      Astrágalo é servidor público estadual. Preciso dizer mais alguma coisa para justificar o seu nervosismo?

      Pois bem. Esse distinto cidadão encontrava-se conversando com o vizinho Agapito à porta de casa quando dona Aspásia chamou:

      – Astrazinho… Ô Astrazinhôôô! Favorzinho, amor!

      E ele:

      – O que é, mulher da bubônica? A gente não pode nem conversar sossegado com os amigos! Fala!

      E a madame, meio chorosa:

      – Olha, amor, o relógio caiu no chão e parou!

      Astrágalo não se aguentou. Abriu o bocão e gritou na maior ignorância:

     – Ora, sua imbecil… você queria o quê? Queria que ele caísse no chão e começasse a andar?

 

A vingança da bicha

      Duas bichonas um bocado rodadas – Lelê e Lili –, moravam juntas havia séculos, numa quebrada da cidade. Lelê, a mais idosa das duas era ciumentíssima. Um dia, ela pegou uma gripe for-tis-sima e caiu de cama.  Pensa que a ingrata da Lili ligou pro estado de saúde da parceira? Ligou nada! A desalmada caiu na gandaia, muito na dela, deixando a amásia abandonada e desesperada.

     No domingo seguinte, Lili voltou a aprontar. Saiu de casa de tardezinha e só voltou na segunda-feira de madrugada, aos tombos, mais bêbada do que gambá. Morrendo de ciúme, Lelê abriu o postigo e ficou reparando a chegada da Lili que, dado o seu estado de alta embriaguez alcoólica, perdeu o equilíbrio e caiu dentro de um buracão que havia no jardim e que elas costumam chamar de piscina. Na primeira afundada, Lili levantou os braços e gritou:

      – Socorro! Ui! Ui! Socorrooo!

      E Lelê, dando uma de desentendida:

      – Aqui não mora nenhuma Socorro! Você está batendo na porta errada, queridinha! Favor não in-sis-tir!

      E bateu a janela, vingadíssima.

 

Mas que buraco, doutor?!

      Recém nomeado delegado de polícia civil – isso faz mais de 30 anos – , o colega Belmiro Cavalcante, o indefetível “Camburão”, foi parar na distrital de Matriz do Camaragibe e já chegou lá querendo botar ordem na circunscrição. Reuniu em seu gabinete de trabalho policiais civis e militares e deu o seu recado.  Mal considerou encerrado o papo, eis que surgiu no ambiente o soldado PM chamado Ferreira, do destacamento local, que anunciou:

      – Doutor, o pessoal da ronda acabou de prender o Neguinho Tatu, arrombador perigoso!

      Delegado-calouro, Camburão quis mostrar que era bamba no riscado:

      – Cadê esse elemento? Tragam-no à minha presença!

      O soldado Ferreira, achou-se no dever de advertir:

      – Doutor, todo cuidado com esse elemento é pouco!

      – Por quê?

      – Porque ele é um tremendo dum fujão. Conheço a peça!

      – Pode deixar ele comigo!

            Neguinho Tatu foi levado à presença do delegado e ouviu dele um esbregue desses que não se dá num jumento. Dia seguinte, logo cedo, o mesmo soldado Ferreira bateu na porta do alojamento onde dormia o delegado:

           – Doutor, chegue aqui fora que o Neguinho Tatu tá querendo fugir!

           O delegado Camburão correu para a carceragem e, em lá chegando, a primeira coisa que viu foi o buracão feito no meio da cela onde se achava recolhido Neguinho Tatu. Aí, não se conteve:

            – Pra que esse buraco aí, fidapeste?

            E o meliante, com a cara mais inocente do mundo:

            – Que buraco, doutor?

            – Esse daí, bem diante da sua venta. Tá querendo me fazer de idiota, seu safado? Me explique já, pra que esse buraco aí no meio da cela!

             E o bandido:

             – Sei explicar não, doutor. Eu tenho pra mim que alguém andou tentando entrar aqui na cela, através desse buraco. Só pode ter sido!

 

Ih! A memória falhou!

      Dona Argileusa Gomes, ou por outra, “Dona Gegêu”, era uma madame muito conhecida no bairro de Ponta Grossa, porque sabia de tudo e estava em todas. Um dia, ela foi convocada a depor num inquérito policial pelo então delegado de Acidentes de Veículos, Oswaldo Nunes, dado o fato de que fora arrolada como testemunha de um atropelamento, nas proximidades do finado Cine Lux. Ela já baixou na especializada falando pelos cotovelos.

      Oswaldo Nunes chamou-a ao cartório para a devida oitiva, indagando-lhe cheio de gentileza:

      – A senhora viu o acidente?

      – Claro, meu filho! Vi tudinho! – respondeu dona Gegêu.

      – Está mesma disposta a colaborar com a polícia?

      E ela, bastante disposta:

      – E o que você acha que eu estou fazendo aqui, meu filho? Claro que estou disposta a colaborar!

      – A senhora está bem lembrada de como ocorreu o acidente?

      – Isso é pergunta que me faça, meu filho? Minha memória é que nem memória de elefante!

      Nesse ponto da conversa, o delegado achou por bem determinar ao escrivão que começasse a tomar por termo as declarações da testemunha. No início da qualificação – nome completo, filiação, endereço, estado civil -, dona Gegêu respondeu tudo direitinho. Mas, começou a complicar quando o escrivão indagou:

      – Sua idade, por favor?

      – O quê?

      – A idade da senhora, por gentileza… – repetiu p escrivão.

      Dona Gegêu passou a mão na testa, entronchou a boca e replicou:

      – E quem pode se lembrar dessas coisas num momento como este, meu filho? Pule essa parte!