Ailton Villanova

29 de julho de 2017

Linda, a suicida

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  Num dia de inverno tenebroso, nasceu no bairro do Bom Parto, lá pelos idos de 1935, Maria Lindináuria Paixão, simplesmente Linda. Apesar do cognome, Linda era um bocado feia e o corpo também não lhe beneficiava em nada. O destino foi muito cruel com a coitada.

      Aos sessenta anos, solteira e virgem, Linda ainda alimentava o sonho de arrumar nem que fosse uma amigação. O negócio era sair do caritó. Mas qual!

      Depois de vinte e duas plásticas e mil tratamentos para rejuvenescer, a balzaquiana embocou de vez no desespero e pela primeira vez na vida pensou em suicidar-se. Estimulada por essa tresloucada ideia, procurou o babalorixá amigo intitulado Pai Dedé, residente nas alturas do Tabuleiro do Martins e expôs a maléfica idéia.

        – Quer dizer que você pretende mesmo morrer?! – inquiriu o macumbeiro.

       – Quero, Pai Dedé! Não tenho mais esperança nenhuma em arrumar um homem! Já fiz tanto esforço e… nada! Sem homem é melhor morrer!

       Depois de pensar um pouco, o babalorixá opinou:

       – Pelo que você está me contando, sua vida é mesmo um cocô de louro, pra não dizer coisa pior!  Já que quer morrer, tudo bem! Suba no elevado do Cepa e pule lá de cima no meio do asfalto quando o trânsito  de veículos estiver no maior pico…

      – Pode não dar certo, Pai Dedé…

      – Como não pode dar certo?

      – É que posso não morrer e ficar paralítica pro resto da vida, em cima de uma cadeira de rodas.

      O macumbeiro voltou a pensar e, em seguida, lascou lá:

      – Já sei! Você vai morrer afogada! Corra para a praia da Avenida da Paz e quando chegar lá, pule daquela ponte que fica ao lado do Hotel Atlântico. Aí, você cairá dentro do Salgadinho. Se não morrer afogada, certamente morrerá toda poluída!

      E Linda:

      – Também não dá! Tenho horror a água!

      Então o pai-de-santo emputeceu:

      – Desse jeito você não quer morrer! Numa situação dessa ainda está escolhendo como quer esticar as canelas! Então, só tem um jeito: pegue um revólver e se mate com um tiro, pronto!

      Os olhos da desesperada Linda brilharam:

      – Taí, gostei dessa ideia! E eu nem tinha pensado nisso! Será que dói morrer de tiro?

      – Dói porra nenhuma! Você assenta os cabelos ligeirinho!

      – E se eu errar o tiro?

      – É fácil, minha filha. É só acertar o coração!

      – E onde fica exatamente o coração, Pai Dedé? Do lado esquerdo ou do lado direito?

       Impaciente com a mulher, o babalorixá explicou:

       – Preste atenção! Você pega o revólver e aponta para o bico do peito esquerdo…

       – O bico?

       – Sim, o bico! Aí, puxa o gatilho!

       No outro dia o macumbeiro recebeu um telefonema do Pronto Socorro. A assistente social informava a ele que Maria Lindináuria Paixão encontrava-se internada naquele nosocômio com um tiro a altura do joelho. 

 

Como entender o nenêm?  

      O bebedourense José Lucindo só conseguiu se casar quando completou 52 anos de idade, veterano pacas! Ainda assim porque a mulher que arrumou, de nome Estibórdia, era míope do último grau, mas que dava pro gasto.

      O grande problema enfrentado pelo casal era a ausência de filhos. Segundo o médico da família, o defeito era de Estibórdia, que possuía um tal de “útero infantil”. Mas a mulher, que sempre sonhou em ser mãe, bolou a ideia de adotar um garoto. O marido deu o maior apoio.

       Montado nessa opinião, o casal se mandou para a maternidade, onde foi recebido por uma gentil e simpática assistente social, que tratou de levá-lo ao berçário dos recém-nascidos expostos a adoção. Assim que bateu os olhos num bebezinho que estava logo na entrada, Estibórdia encantou-se por ele. Olhou para marido através das grossas lentes dos óculos, e suspirou:

       – Olhe só que criancinha linda! É um japonesinho! Vamos adotar este?

       Lucindo não concordou:

       – Tanto brasileirinho e você escolhe logo um japonesinho, mulher!

        – E qual é o problema, meu amor?

        – O problema é quando ele começar a falar. A gente não vai entender  nadinha do que ele disser. Escolha outro!

 

Vítima rubro negra

      O Agnoflézio ingressou na Polícia Civil naquela época em que para ser um “agente da lei” não se exigia muita coisa do sujeito. Bastava ser um bom caceteiro e matador sem muito escrúpulo. Agnoflézio não era nada disso. Muito pelo contrário. Era um cara pacato e educado. Mesmo assim, entrou para a PC, porque era filho da empregada doméstica de um figurão da segurança pública. Sua primeira missão foi apurar responsabilidade num crime de morte, ocorrido no bairro da Pitanguinha.

       – Quero que você anote direitinho tudo daquilo que constatar no local do crime, tá me entendendo? – orientou o delegado. – Depois, você me passa aquilo que viu, escrito num papel.

       – Confie em mim, doutor!

       E Agnoflézio se mandou pro local do crime, chefiando uma equipe de quatro agentes. Hora e meia depois, retornou à delegacia, atrapalhado com um monte de papéis, que depositou na mesa da autoridade.

      – Serviço feito, doutor!

      E o delegado:

      – E então a vítima foi alvejada com quantos tiros?

      – Primeiro, doutor, não foi “vítima”. Foi “vítimo”. Segundo não foi “alvejado”…

      – Ah, não foi não?!

      – Não senhor. Ele continua preto. É um negrinho, não sabe? Só que ele agora está todo misturado de vermelho… do sangue que derramou!