Ailton Villanova

28 de julho de 2017

O cão era mesmo manso!

  O protético José Lemos é um apreciador contumaz dos finais de tarde na orla marítima. Depois de umas carreirinhas na areia da praia, ele senta a bunda num banquinho da barraca do Bida, em Jatiúca, e manda pra dentro uma ou duas cervejinhas geladas, com tira-gosto de canelas de siri.

      Outro dia, lá estava ele cumprido o ritual de sempre quando lhe surgiu pela frente um garotinho puxando um rottweiler pela corrente.

      – Ei, moço! – chamou o menino. – Moço!

      – O que você quer, meu filho? – indagou o protético.

      – O senhor podia fazer um favor pra mim? – insistiu o garoto.

      – Depende do favor. Diga qual é?

      – O senhor podia fazer um agradozinho na cabeça do cachorro? É só passar a mão e pronto!

      Para não ser indelicado com a criança, Zé Lemos resolveu afagar o animalão que, todo feliz, deu-lhe uma lambida na mão.

      – Pronto! – exclamou o protético. – Seu cachorro agora está satisfeito. Você também está?

      – Tô, sim. Brigado, viu?

      Quando o garoto ia saindo com o animal, Zé Lemos indagou curioso:

      – Ô meu filho, por que você mesmo não quis agradá-lo?

      – É que eu o achei perdido ali na praia, e queria saber se ele mordia ou não…

 

Um favorzinho, apenas…

      A maioria das pessoas não consegue entender como Edleusa Cristina ainda não provocou uma catástrofe, dirigindo o seu carrinho pelas ruas de Maceió. Ao volante, a jovem aí é uma temeridade.

      O carro de Edleusa, um Corsa zerado, está mais amassado do que maracujá maduro. Volta e meia está colidindo com um poste de iluminação pública, ou batendo em algum muro que estiver no caminho.

      Segundo as más línguas, a cédula de habilitação dessa criatura, ela ganhou de um político amigo do pai dela, de grande prestígio no Detran.

      Pois bem. Dias passados, no centro da cidade, um monte de gente se divertia adoidado em função da arenga de Edleusa com um guarda de trânsito, por sinal possuidor de incrível espírito esportivo, além de gozador ao extremo. Ela havia estacionado, na maior cara de pau, em cima da faixa de pedestres e nas barbas do guarda, que só fez colocar o apito na boca e dar uma trilada, de leve, no instrumento.

      – O que foi? – reagiu Edleusa, chdia de direito.

      O guarda riu e, muito tranquilo, respondeu:

      – Nada não, dona. Apenas eu pediria a sua gewntilesa de ao menos abrir as portas do carro, a fim dos pedestres poderem atravessar a rua, pode ser?

       Nem assim ela se mancou.

 

Resolve logo, Manuel!”

      Patrão muito bom, seu Olegário Pacheco resolveu dar um grande presente de casamento ao seu melhor funcionário, o português Manuel Barata. De modo que o chamou em seu escritório e comunicou:

      – Olha Manuel, toda a sua lua-de-mel com a sua noiva Maria Núbia correrão por minha conta, tá bom assim? É o meu presente!

      – Não precisa, seu Olegário. Basta sua consideração e amizade.

      – Você merece, rapaz! É o meu melhor funcionário. Garanto que vou dar à você e à sua noiva e melhor festa de suas vidas! A lua-de-mel de vocês vai ser no camping!

      E o português, todo encabulado:

      – Pra que esses estragos, patrão? É muito luxo!

      Bom. Manuel e Maria Núbia casaram. Pegaram a ordem de hospedagem e se mandaram pro camping. Chegaram lá, no finzinho da tarde. A noite, o casal recolhido e a noiva, maravilhada, não cansava de dizer:

      – Ah, Mané, mas que coisa linda esse camping! Eu nem acredito que gente está aqui!

      E o noivo, igualmente entusiasmado:

      – Mas acredite, mô amoire. Pode acreditaire!

      Madrugada, e a Maria Núbia naquela lenga-lenga:

      – Oh, Mané, continuo sem acreditar nessa maravilha!

      Nesse momento, ouviu-se uma voz na barraca vizinha:

      – Ô Manuel, seu filho duma égua, pelo amor de Deus dê um jeito de convencer essa mulher imbecil que tudo isso que ela está vendo é verdade! Todo mundo aqui tá a fim de dormir, porra!

 

Eita bolo danado!

      Delegacia do 3° Distrito de Polícia da Capital.

      O delegado Eduardo de Moraes Maia, mordido da vida, dava o maior esbregue no elemento que estava em pé na sua frente, o tal de Boca de Jacaré:

      – Ô rapaz, como é que você teve a coragem de tratar uma senhora de idade daquele jeito?!

      – Mas de que jeito, doutor?

      Eduardo Maia estava a ponto de estrangular o cara:

      – Ora, não me pergunte, seu canalha!

      – Mas o que foi que eu fiz com a mulher, doutor? Não sei nem porque estou preso!

      E o delegado, pra lá de indignado:

      – Como uma pessoa pode ser tão cínica e insensível! Depois que a bondosa senhora lhe deu um pedaço de bolo, você teve o desplante de atirar uma pedra na janela da coitada… Os vizinhos viram tudo! Isso não se faz, seu infeliz!

      – Ah, agora tô sacando, doutor! O que eu joguei na janela daquela senhora não foi uma pedra, não… 

      – Então o que foi, seu cretino?

      – Foi o próprio pedaço de bolo! Depois que eu dei a primeira mordida no bolo, quebrei os dois dentes da frente… Olhaqui, ó. Tá vendo? Então, doutor, eu fiquei muito puto e joguei o bolo fora. Azar que pegou logo na vidraça…