Ailton Villanova

27 de julho de 2017

Ainda bem…!

      Qualquer semelhança com o anedotesco relativamente ao fato que vai abaixo contado, terá sido a mais absurda coincidência.

      Seguinte:

      Um certo artista plástico intitulado Getúlio E. Prazeres viajava, de carro, do Recife a Maceió pelo litoral quando, a certa altura, lá pelas imediações de Maragogi cochilou ao volante e o veículo, que ele próprio dirigia, capotou várias vezes. Bastante avariado e com um ferimento sério no olho esquerdo, foi removido para um dos hospitais da capital alagoana, onde foi submetido a melindrosa intervenção cirúrgica.

      Em menos de um mês Prazeres estava bonzinho, enxergando melhor julho que antes. E ficou muito agradecido cirurgião oftalmológico, o doutor Nairo Freitas.

      Em razão disto, o artista plástico resolveu manifestar o seu profundo agradecimento ao Nairo, presenteando-lhe com uma obra realista, de sua autoria. E pintou um belíssimo exemplar de olho humano. Uma perfeição, fato que emocionou bastante o ilustre especialista.

      – Gostou da surpresa, doutor? – indagou o artista, todo empolgado.

      E Nairo Freitas, com a sinceridade que sempre o caracterizou:

      – Gostei. É uma bela obra! Ainda bem que eu não o operei de hemorróidas!

 

Não sabia o caminho do céu!

      Determinada congregação evangélica organizara uma campanha para a conquista de novos adeptos no Benedito Bentes, cujas palestras, a cargo de autoridades da igreja eram proferidas no centro social daquela comunidade. Cada dia, baixava lá um pastor e dava o seu recado. A programação vinha sendo realizada sem problema algum até que, o pinguço conhecido como Zé Pinguim, resolveu empanar o seu brilho.

      Ocorre que o tal Pinguim encontrava-se escorado num poste, na entrada do residencial, quando parou ao seu lado um carrão preto, cujo piloto, um sujeito elegantíssimo, colocou a cabeça de fora e indagou:

      – Caro senhor, por gentileza, onde é que fica o centro comunitário?

      Zé Pinguim respondeu, com aquele bafo:

      – É fácil. É só o senhor seguir em frente e dobrar a primeira esquina à direita. O prédio do centro social fica logo no começo.

      O bacana agradeceu e se mandou. Ele era o pastor evangélico escalado para a pregação daquela noite.

      Horas depois, Zé Pinguim vai passando pela porta do CSU, olha lá pra dentro e reconhece o sujeito que deitava falação para o público. Parou, ficou plantado, escutando o pastor falar e, aí, o referido fez uma pausa no seu discurso e disse:

      – O prezado irmão pode entrar. É um prazer tê-lo conosco. Aqui, você vai ficar sabendo o caminho do céu!

      O pinguço soltou uma risada, cuspiu de lado e respondeu:

      – Caminho do céu coisa nenhuma! Tu num sabia nem o caminho do CSU, como é que agora vai saber o caminho do céu!

 

O negrão disfarçado

      Figura bastante conhecida nas redações dos jornais alagoanos, e emissoras de rádio idem, o finado José Amaro foi um portocalvense que soube propagandear bem a sua terra. Querido de políticos e do povão, Zé Amaro chegou a ser vereador em sua terra. Um dia, pelo fato de ter trabalhado tanto por Porto Calvo, ganhou uma viagem de recreio a São Paulo. De morou-se por lá uma semana e voltou empolgadíssimo:

      – Puxa, mas São Paulo é um cidadão!

      Durante um mês inteiro ele não parou de falar um só instante nas belezas paulistanas. A esse respeito, chegou até conceder entrevistas no rádio e na imprensa. Numa dessas entrevistas, o também saudoso Sabino Romariz, indagou-lhe:

      – Ô Zé Amaro, quando esteve em São Paulo você chegou a enfrentar algum problema de racismo?

      Zé amaro respirou fundo e respondeu:

      – Meu caro Sabino, senti, sim, um probleminha de racismo. Foi na Estação da Luz. Tinha lá um pessoal falando mal de preto… dizendo que preto era armada do cão…

      – E você reagiu?

      – Tá doido, Sabino? Eu fiquei foi na minha, bem quietinho, disfarçando pra eles não perceberem que eu sou preto!

 

 O verdadeiro esbulho

      Dias atrás, morreu no Recife, um velho amigo de infância, o Benedito Bernardino de Sena. Excelente caráter, bom pai de família, ele estava aposentado da antiga Chesf, vivendo das boas lembrança dos anos dourados do velho Bom Parto. Biu de Sena bem que tentou ser um grande atleta do futebol mas foi seu irmão caçula, o Déca, quem despontou como um dos maiores goleiros do bate bola suburbano.

      Nos idos de 1960, ele e outros jovens prenhes de reputação futebolística formaram na equipe de amadores do Centro Sportivo Alagoano, entre esses o Cícero Cabeção, o Paulo Picolé, o Eugênio e o Derivaldo Targino. Eromir (o orgulhoso pai do ator global Erom Cordeiro), o mais jovem dessa turma, era o ponta esquerda titular do time principal do CSA.

      Conta Eromir, que numa determinada partida válida pelo campeonato suburbano, o CSA amargou uma injusta derrota, fato que revoltou o dirigente Segismundo Cerqueira Filho. Sentindo-se lesado, ele gritava a plenos pulmões no vestiário do CSA:

       – Esbulho! Esbulho! Fomos garfados!

       A palavra “esbulho” insistentemente pronunciada pelo cartola, chamou a atenção do Biu de Sena. Quando Cerqueira acalmou-se, Sena chamou Eromir num canto e perguntou:

       – Ô “Eroma”, que diabo é “esbulho”?

      Eromir meteu lá uma pose de catedrático e mandou:

      – Esbulho, meu caro, é o ato ou efeito de usurpar, espoliar, apropriar-se ilegalmente, entendeu?

      Desse dia em diante, Eromir passou a ser para Biu de Sena o seu filólogo predileto.