Ailton Villanova

22 de julho de 2017

Afinal, dupla separação

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    Segurando uma pesada pasta de executivo, o distinto Odérlúcio Sérgio Penha (Delu, para os íntimos) caminhava apressado pela Moreira Lima, apenas reparando para o chão. De repente, trombou com outro transeunte, coincidentemente o amigo Etelvino Lima.

      – Epa! Que pressa é essa, rapaz? – indagou o amigo.

      E o Oderlúcio:

      – Desculpa aí, meu irmão. É que estou vindo do escritório do meu advogado, o doutor José Cordeiro Lima…

      – Você desapareceu, hein, cara? Que anda fazendo que nunca mais lhe vi?

      – Estou numa luta danada, rapaz! Processo de separação é coisa de louco!

      E o Etelvino:

      – Ahrráá! Finalmente, hein?

      – Pois é. Quando o negócio não dá certo, a gente se separa!

      – Falou! Você fez bem em largar aquela mulher. Eu nunca vi mulher mais puta, Delu! Pelamordedeus!

      – O quê? De que mulher você está falando?

      – Da sua! E de que outra mais poderia ser? Você não acabou de dizer que estava se separando dela?

      – Eu estou me separando é do meu sócio, o Agrício! Mas, me conte direitinho essa história da minha mulher?

      Nesse mesmo dia,  o doutor Cordeiro Lima passou a ter duas causas do mesmo cliente.

 

Desculpa aí, viu?

      O boa praça Paulo Max entrou no estacionamento de determinado shopping da cidade, deu uma paradinha, e foi lá dentro apanhar a namorada Cecy, que tinha ido fazer “umas comprinhas”. Na volta, cheio de pacotes, tomou o maior susto quando Cecy alarmou:

      – Ah, meu Deus! Acabaram com o seu carro novinho, meu amor!

      No estacionamento, em meio a uma pequena multidão de curiosos, o automóvel zerinho do Max estava com um lado totalmente amassado. Nisso, surgiu uma madame um bocado veterana que, sem dar tempo ao cara falar alguma coisa, apontou pra ele e indagou:

      – Você é o dono desse carrinho, meu rapaz?

      – Sou sim, senhora. – respondeu o Max, abaladíssimo.

      E ela, com um risinho no canto da boca:

      – Ah, que bom que você apareceu! Só fico tranquila quando tenho oportunidade de pedir desculpas. Desculpe, tá?

      Dito isto, a madame entrou num carrão importado, cuja frente mais parecia um maracujá, engatou uma primeira e saiu do estacionamento cantando pneus.

 

É proibido botar…!

      O velho João Barbosa, antigo funcionário da Alfândega, no Jaraguá, sempre foi um sujeito ortodoxamente conservador. Nos anos 50, morava no Alto da Conceição, distrito que intermedeia o Bom Parto com o Farol.

      Um certo dia, ele chegou do trabalho e encontrou a filha Elizabeth toda linda e perfumada, pronta para sair com o namorado Geraldo Menezes, o Escurinho (hoje perito criminal aposentado no Paraná), e aí deu o breque:

      – Para onde vão vocês, posso saber?

      Betinha, a filha, respondeu, timidamente:

      – A gente vai passear na Praça do Centenário, pai.

      E João Barbosa, cheio de ignorância:

      – Nada feito! Meia volta, os dois!

      Aí, Geraldo Escurinho botou moral:

      – Mas seu João, qual é o problema eu sair com a Betinha pra passear na praça? Fique certo que eu não vou tirar nenhum pedaço dela!

     E o velho, encerrando o papo:

     – O problema, seu fedelho, não e você arrancar um pedaço da minha filha. O problema é botar!

 

A balzaca “virgem”

      A veteraníssima Marluce Constantino, que já descambou das 70 primaveras, permanece solteira. E “invicta”! – sempre faz questão de frisar. Ela bate no peito e acrescenta:

      – Nunca precisei de peste de homem na vida. Pra mim, essa raça não existe!

      Mas, que danada de mágoa é essa que Marluce tanto guarda da raça masculina? O pesquisador Dasilva Cardoso, me esclareceu.

      Houve uma época – está com mais de 50 anos -,  quando Marluce ainda era moçoila e morava no Bom Parto, a rapaziada dava muito em cima dela, por causa das suas belas pernas e seu corpo sinuoso. Metida a sebo, esnobava os meninos.

      – Homem pobre comigo…nem ver! – repetia sempre.

      Bairro fabril, Bom Parto sempre foi constituído de gente simples, modesta, porém decente e trabalhadora. Nos seus tempos áureos, ali tudo era festa. Principalmente nas épocas natalinas, juninas e carnavalescas.

      Marluce era filha de operários da Fábrica Alexandria e sonhava casar com um doutor de verdade, com anel no dedo e tudo o mais. Lembra o pesquisador Dasilva Cardoso, que quando ela caminhava pelas ruas do bairro bompartense sua bunda rebolava tanto que ameaçava cair de uma hora pra outra. Matava a rapaziada de tesão.

      “Um dia”, conta Cardoso, “Marluce apaixonou-se de verdade por um bonitão chamado Jorásio, que dizia morar no Farol e usava sempre um anelão de formatura no dedo”. Foi amor à primeira vista.

      Marluce caíra de amores pelo “doutor Jorásio” quando os dois trombaram no vai-e-vem de uma festa natalina e, daí em diante, só se via os dois abraçadinhos e trocando beijos apaixonados, pelas ruas do Bom Parto. Até que, um dia, “doutor Jorásio” pegou a donzela de jeito, por detrás da caixa d’água do refeitório da Alexandria e… crau! A cobra cuspiu e o jacaré disse “miau”!

      Depois de haver depreciado a virgindade da garota, Jorásio desapareceu do mapa, deixando-a só e desesperada. Sua decepção aumentou ainda mais quando ela soube, através do próprio pesquisador Dasilva Cardoso, que o amado nunca foi “doutor” e que não passara de um simples cobrador de ônibus na linha de Fernão Velho.