Ailton Villanova

21 de julho de 2017

Outra surra, não!

      Dona Martha Mercedes acordou às 4 da manhã com o barulho da chave na fechadura da porta da frente e pensou: “É o cretino do Adilson!” Ato contínuo, jogou o pensamento de lado, pulou da cama, correu até a cozinha, pegou um porrete e foi abrir a bendita porta. Abriu-a, mantendo a luz da sala apagada, para dar maior ênfase à surpresa preparada para o marido.

      Assim que dona Martha reparou, pela abertura da porta, numa cabeça dando sopa, ela não contou conversa: enfincou o cacete pra frente sem dó e nem piedade – pou, pou, pou…

      Berros terríveis vararam a madrugada.

      A voz… Aquela voz não era a do Adilson! Mais que depressa, dona Martha acendeu a luz e reparou na pessoa que ela havia agredido selvagemente. Era o vizinho do lado, Astrogildo Pantaleão.

      – Vizinho! O que o senhor está fazendo na minha casa esta hora?

      E o infeliz, apresentando uma enorme rachadura na testa, que expelia sangue pra todo lado:

      – E esta é a sua casa?

      – Claro que é, seu Astrogildo!

      – Eita diabo! – suspirou ele, liberando um bafo etílico de 500 mil barris. – Errei de residência! A senhora me perdoe pelo amor de Deus!

      – Tá perdoado! Eu bati no senhor desse jeito pensando que era o cachorro do meu marido. Me perdoe, também!

      – Tudo bem, vizinha. Mas será que a senhora poderia me fazer um grande favor?

      – Se estiver ao meu alcance… Que favor, seu Astrogildo?

      – Dê um pulinho na minha casa e avise pra minha mulher que eu já apanhei por hoje. Outras porradas dessas eu não vou aguentar!

      Dito isto, Astrogildo esparramou-se no chão, em estado comatoso.

      Morreu três dias depois, no Pronto Socorro.

 

Cheio de dúvidas…e de pontas  

      Manuel Alves, nascido em Portugal, veio morar em Maceió. Tendo aqui chegado solteiro, nos anos 50, fixou residência no antigo distrito da Cambona e logo casou-se com uma funcionária da fábrica de Biscoitos Brandim, a bonita Marly.

      Passados alguns anos de matrimônio com aquele pedação de mulher, Manuel cismou que estava sendo corneado. É que Marly chegava tarde todas as noites, ganhava mil presentes e, sexo com ele, nécas. Até que, um dia, resolveu seguir a mulher para constatar se era corno mesmo.

      Na Praça dos Martírios ele viu Marly encontrar-se com um bonitão alto, forte, pinta de galã. Correu mais pra perto e viu quando eles entraram num fusca. Na hora ia passando um taxi, Manuel deu com a mão, o veículo parou, ele entrou e disse para o motorista:

      – Siga aquela fusca!

      O taxi seguiu o casal de adúlteros até um motel no Barro  Duro, mas o português pediu ao motorista que fizesse meia-volta e o deixasse em casa, o que foi feito.

       Quando Manuel descia do taxi na porta de casa, deu de cara com o vizinho, e com ele desabafou. Contou a aventura que tinha tido sem omitir detalhe nenhum e, por fim, desabafou:

      – A minha dúvida é terrível, seu Jair. O que diabo a Marlizinha foi fazer no motel com aquele gajo, me diga!

 

Perdeu, mas falou!

      Quando está alcoolizado, o que é quase sempre, o Manuel Catarino é considerado o dono da “língua mais solta da cidade”. O cara fala além das medidas e é só ele quem faz uso da palavra, mais ninguém. Num final de semana desses, lá estava ele tomando a sua cervejinha na birosca do Tonho Calcanhar de Peru, excepcionalmente calado. E todo mundo de olho nele, que ainda estava sóbrio.

      Em dado momento, o motorista Júlio Venta de Urubu, que era um dos preocupados com o Catarino, achou de bolar uma ideia para mantê-lo de bico calado, já que ele começava a dar sinais de embriaguez. E Catarino biritado é caixão e vela preta.

      – Bicho! Tô a fim de fazer uma aposta com você! – disse o Júlio.

      E o Catarino, já temperando a goela:

      – Qualé a aposta?

      – Eu lhe pago 20 paus se você continuar calado por pelo menos mais uma hora!

      Os olhos do Catarino brilharam:

       – Topo!

       – Então, vamos lá! A gente conta a partir de agora, certo?

       – Certo.

       A negrada biritando e o Catarino, idem. Júlio com um olho nele e outro no relógio. Dez minutos, e o falador mudo. Quinze minutos, olha ele de boca fechada! Vinte minutos, silêncio total.

      Mas…

      Transcorrida meia hora, o falador deu uma temperada caprichada na goela, uma olhada no relógio, arregalou os olhos e, não conseguindo se controlar, abriu o bocão:

      – Meia hora! Eu não aguento!

      E virando-se para o Júlio, completou:

      – Me paga a metade, bicho! Uma hora sem falar é muito tempo pra mim!

      E não parou mais de falar. Teve de sair do bar na base do tapa e falando, falando…