Rívison Batista

17 de julho de 2017

Se tivéssemos a vida eterna

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Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas também durassem para sempre
O tempo não existiria.

O tempo é apenas uma desculpa
É a areia na ampulheta, a contagem regressiva
Que se inicia no instante do nascimento
E nos persegue por toda a vida.

E a velhice nada mais é do que células gastas
Vidas microscópicas que nos habitam sendo mortas
Por um processo evolutivo frio que não acaba.
Nós somos um conjunto dessas vidas microscópicas
Que morrem e vivem dentro de nós, toda hora
Mas, no espelho, existe apenas a gente.

Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Não existiria espaço para tanta gente
Não existiria chão para tantas pernas
Não existiria esperança de ideias novas.

E então envelheceríamos por dentro
(Mas seríamos belos por fora)
E nos tornaríamos tão máquinas
Quanto uma torradeira ou um avião
E se esgotaria a fonte dos sentimentos.

A morte que nos leva é injustiçada
A morte é a deusa dos arrependimentos
Quem morre fecha os olhos para esta estrada
O pulso estanca, as pernas deitam e o corpo para
Mas, quem sabe, não abre os olhos em outro firmamento?

Enquanto isso, da terra, surgem novos homens
Mulheres, animais, plantas e peixes
Moldados pelo sol e por novos ideais
Que caminharão numa Terra que é pequena para eles
Porque possuem genes mais fortes do que seus ancestrais.

E, desse jeito, meio sem jeito, a Via Láctea dá à luz
Novos conquistadores de qualquer coisa
Dá à luz pobres e ricos, mas isso nem importa
Porque, no sangue, todos tem a mesma fortuna
E todos vieram da mesma força.

Se tivéssemos a vida eterna
E as coisas durassem para sempre
Que chato seria.

A felicidade humana não teria chance
Pois o tempo não esgotaria
Seríamos jovens ultrapassados e rancorosos
Sentiríamos nossos corpos pesando como uma âncora
(Afundando nossas essências e nos deixando apenas os ossos)
(Sustentando nossa aparência e nos deixando menos fortes)
Seríamos cientistas idosos pesquisando nossa cura:
A morte.

 

*Rívison Batista é jornalista – poema escrito em 2011