Ailton Villanova

15 de julho de 2017

A “soneca” do Andrade Filho

      Ele sempre foi homem elegante. Nos gestos, no falar e no vestir.

      José Estanislau de Andrade, ou simplesmente Andrade Filho, nome que adotou artisticamente, teve uma passagem curta, porém marcante, pela vida. Deixou um belo exemplo de companheirismo e de como fazer rádio com inteligência e competência.

      Mas, como não há bom sem defeito, Andrade Filho não fugiu à regra daquilo que as pessoas costumam chamar de imperfeição: era boêmio arraigado e nômade incorrigível.

      Dono de uma extraordinária voz, carismático e moderado, entrou para a história do rádio como um dos maiores locutores que este país já teve. Em todos os prefixos onde atuou deixou a sua marca inconfundível de galã. Andrade desmantelou corações de um mulherio que o adorou como ídolo. Mas só uma mulher o teve com exclusividade, definitiva e apaixonadamente: Lenir. Ela o entendeu mais que ninguém.

      Lenir amou Andrade Filho até as últimas consequências e lhe deu quatro filhos, o seu maior orgulho.

       Andrade Filho surgiu no rádio através da Emissora Rio São Francisco, da histórica Penedo, que também projetou outros grandes valores artísticos como Guimarães Neto, Abílio Dantas, Stênio Reis, Antônio Manuel, Edvaldo Alves e Damião Carvalho. Sabino Romariz, também penedense, iniciou-se radiofonicamente em Maceió, na Difusora.

       Transferindo-se  de malas e bagagens para a Capital, Andrade Filho veio emprestar sua competência à Rádio Difusora de Alagoas, porque Penedo havia ficado pequena para ele. Da Difusora, tempos depois, transferiu-se para a Rádio Gazeta e, desta, saiu para atuar em outros prefixos deste mundão de Brasil. A partir daí, ninguém o segurou mais, a não ser a amada Lenir. Por onde passou só fez amigos. Ganhou fama e prestígio nacionais.

      Numa de suas incursões mundo afora, um dia ele voltou para Maceió. E aqui ficou para sempre.

      Num dia parecido com este, o guerreiro sofreu um acidente vascular cerebral e perdeu parte dos movimentos de um lado do corpo. A voz, sua maior marca profissional, entretanto permaneceu inalterada. Passado considerável período inativo, Andrade voltaria ao rádio, para a alegria dos amigos e dos incontáveis fãs.

      Numa certa tarde encontrei-o na Rua do Comércio. Havia pouco tempo saíra ele do hospital. Abatido , mas sempre mantendo a elegância, ele me pediu quando nos despedimos, depois de um forte abraço:

      – Villa… quando eu morrer, escreva uma crônica pra mim, daquelas que você sabe fazer!

      Tempos depois ele morreu de infarto, em plena via pública. O pedido que me havia feito eu tive que atender como cumprimento de uma das mais ingratas e dolorosas tarefas da minha vida de jornalista. Era o mínimo que eu podia fazer por um colega querido que sempre admirei e muito me honrou com a sua amizade. Dele, entre tantas lembranças, recordo pitoresco episódio que rendeu apreensão, mas também muitas gargalhadas.

      Véspera de Natal. Eu, que dividia na Rádio Gazeta as funções de locutor e de redator do Departamento de Notícias, estava editando os últimos textos para a última audição do jornal-falado quando, do estúdio, o colega Ary Rodrigues, de saudosa memória, me perguntou pelo interfone:

       – Villa, o Andrade está por aí?

      Eu deveria largar às 22:30hs., logo depois de Gazeta de Alagoas no Ar, que seria apresentado por mim e pelo Andrade. Respondi negativamente ao Ary, acrescentando que tinha visto o procurado subindo a escadaria que levava ao segundo andar (onde se situavam os estúdios de locução e de sonotécnica). Andrade deveria substituir o colega ao microfone às 21:00hs. Desse horário já passavam 10 minutos.

      Ary Rodrigues estava agoniado, porque às 22:00hs deveria estar saindo da Rodoviária (que naquela época ficava no Poço), de ônibus, com destino a Recife, onde passaria o Natal com a família.

      O relógio marcava 21:30hs, quando o Ary voltou a berrar pelo interfone:

      – Cadê o Andrade, pelo amor de Deus?

      Mistério. Onde teria se metido o cara? Eu mesmo, com estes dois olhos que a terra haverá de comer, vi quando ele subia ao 2° andar. Então, peguei o jornal-falado, botei debaixo do braço e subi para verificar o que havia acontecido com o Andrade. Juntei-me ao Ary e ao sonotécnico do horário Humberto Calheiros, e demos uma busca em todo o andar, onde, inclusive, funcionava o auditório.

      Então, fui para o sacrifício. Ary se mandou para a rodoviária e eu fiquei na locução. Apresentei o jornal sozinho e continuei aguardando a presença do colega misteriosamente sumido.

      Meia-noite. Sinos anunciando o Natal. Foguetório nas ruas. E eu puto da vida. Meus pais, irmãs, esposa e filhos me aguardando para a ceia natalina.

      Cheguei em casa às 02:00hs da madrugada, depois do encerramento da programação da emissora, imaginando na esculhambação que daria no Andrade  Filho, quando o encontrasse.

      Dia seguinte não vi o colega. Aliás, ninguém o viu em parte alguma. As especulações na emissora davam conta que ele, mais uma vez, teria sumido no oco do mundo, sem avisar a ninguém. Era típico dele. Quando cismava, arrancava do dicionário a página onde se definia a palavra “responsabilidade”. Lembro que uma vez ele chegou para a Lenir beijou-a e disse: “Amor, vou alí na esquina comprar cigarros. Volto logo!” Voltou, mas dois meses depois. Esses lances de irresponsabilidade do velho Andrade eram cíclicos. Tinha períodos que virava santo e ficava paradinho, num canto só. Lenir morria de felicidade.

      Bom.

      O sumiço misterioso do colega provocou um reboliço danado na Rádio Gazeta. O senhor Brancildes do Espírito Santo, que era uma espécie de paizão da turma, chamou o diretor-geral José Barbosa de Oliveira num canto e manifestou a sua grande preocupação:

      – Zé, esse caso do Andrade é sério! Como uma pessoa pode desaparecer desse jeito aqui dentro?!

      Completados dois dias e meio de intensas buscas, inclusive nos hospitais, IML e cemitérios, eis que, boquinha da noite, eclodiu novo e estrondoso reboliço na rádio. Um “fantasma” exsurgira da escuridão, em pleno palco do auditório (que separava a cabine de locução da sonotécnica), e todo empoeirado e cheio de pucumãs, ensaiou um exercício de espreguiçamento. Ato contínuo, falou com voz cavernosa, para ninguém, especificamente:

      – Uaaaahhh! Que horas são?

      Não ficou ninguém. Locutor e sonotécnico abandonaram seus postos e, num pique só, desceram para o primeiro andar, berrando por socorro.

      Minutos depois, a situação estava esclarecida. O tal fantasma era nada mais nada menos que o Andrade Filho. É que, naquela véspera de Natal ele havia farreado o dia inteiro, no Bar do Chope. Tão Bêbado ficou que, depois de colocar os solados dos pés da emissora, considerou que seria de bom alvitre puxar um breve ronco, antes de substituir Ary Rodrigues na locução. Então, meteu-se debaixo do palco e passou da conta. Dormiu dois dias e meio. Direto, que nem cantiga de grilo.