Ailton Villanova

13 de julho de 2017

O grande Bethoven

Ele nasceu no pé da serra de Água Branca, dentro de uma casinha pobrezinha de dar dó. Quando completou seis meses, seus pais muito humildes e analfabetos, o levaram para batizá-lo na igreja da Matriz. Chegaram para o reverendo Odulpho, exibiram a criança, a mulher antecipou-se ao marido e disse:

      – Páde, a gente vinhêmo pra móde o sinhô batizá o sambudinho…     

      E padre Odulpho, alma caridosa ao extremo e dono de uma cultura musical invejável, perguntou ao casal pelos padrinhos.

     – A gente num arrumêmo não. – respondeu a mãe.

     – Não tem importância. Os pais, Nossa Senhora e eu podemos ser os padrinhos. Qual o nome da criança?

     – Ciço! – informou a mãe.

     – Ciço?! – exclamou o vigário.

     – A gente só arrumêmo esse, seu páde… – justificou-se a mãe.

     – Nesse caso vou dar outro nome à ele. Um nome famoso. Um nome forte!

     E o pai, emocionado:

      – Vixe minha Nossa Sinhora! Só pode ser nome de santo! Será Jesus Cristo?

     – Não! Vamos batizá-lo com o nome de Bethoven!

     – Bitôvi?! Eita nomão fidaégua!

     Bethoven foi batizado e cresceu aos trancos e barrancos pelos campos poeirentos do Sertão. Pelo menos conseguiu concluir o curso primário e tratou de aprender, mais ou menos, uma profissão: mecânico de autos. O manejo de chaves, peças e outros babados inerentes ao trabalho de consertador de veículos automotores ainda lhe ocultava alguns mistérios e guardava dificuldades, apesar dos esforços do mestre Zé Pequeno em deixá-lo por dentro de todos os segredos do ofício. Mas ele foi indo em frente.

      Quando mestre Zé Pequeno morreu, deixou um substituto mais ou menos a altura. De vez em quando Bethoven tinha lapsos de memória e aí complicava o serviço. Mesmo assim, era muito considerado na região sertaneja.

      Um dia, encostou na sua oficina, na base do empurrão, um carrão todo moderno, cheio de trique – trique, de propriedade de um fazendeiro ricão, pouco familiarizado com a máquina, que se achava ao volante.

      – Bitôvi, esse meu carro parou de andar, de repente! Veja aí o que foi que aconteceu com ele, rapaz! Um carro tão novo…!

      – Xovê…

      Bethoven virou, mexeu, gastou um bocado de massa cinzenta e nada de descobrir o defeito.

      – Olha, seu Dudé, só vai abrindo o motor…

      – Abrir o motor do meu carro novinho!!! 

      – É o jeito!

      – Tá bom, tá certo. Quando é que eu venho buscá-lo?

      – Amanhã de tarde.

      Dia seguinte o carrão não ficou pronto. Três dias depois, o dono dele já disposto a atear-lhe fogo, eis que Bethoven anunciou:

       – Descobri o defeito, seu Dudé!

       – Descobriu? Onde foi o defeito? – indagou o proprietário, ansioso.

       – Depois que eu desmontei todo o motor foi que reparei que o carro não tinha gasolina!

 

Além de bicha, corna convencida!

      Agepê, gayzaço ao extremo, flagrou o namorado a maior presa de bico com outra bicha, na praia da Avenida da Paz e ficou fulíssimo da vida:

      – Eu vou matar os dois! Eu vou matar…! Vou, vou e vou!

      Um outro colega que testemunhou o seu desespero, correu para acalmá-lo:

      – Deixa de ser boba, santa! Você mata os dois, vai presa, e aí, lá na cadeia vão lhe deixar com fome e você pode até morrer. Então, além de bicha, você vai ser corna, presidiária e defunta…

      E Agapê, reconsiderando:

      – Sabe… pensando bem… acho que vou ser só bicha corna mesmo!

 

Filho sem luxo

      Fraco de cultura, o Coriolano contava os dias para o nascimento do filho, que mexia e remexia no ventre da mãe. Fã incondicional do finado Michael Jackson, ele já havia reservado uma homenagem ao saudoso “rei do pop”, conferindo o nome deste ao filho que estava prestes a nascer. Seria, então, o Michael Jackson II.

     Mal nasceu a criança, Coriolano se mandou para o Cartório do Registro Civil de Santana do Ipanema. Chegou lá na hora do almoço. O tabelião, o oficial do registro, e o escrivão haviam saído para pegar o rango e só se encontrava na repartição um serviçal, que era metido a autoridade.

      – Que deseja? – perguntou o tal serviçal, parecendo o dono do cartório.

      E o Coriolano:

      – Quero assentá no papé o nome do meu fio, qui nacêu cáje nestante!

      – O nome dele?

      – Michael Jackson II!

      Aí, o empregado boçal embaraçou-se. Mas teve uma saída:

      – Olha, como eu estou sem óculos, escreva aí o nome do menino. Mais tarde eu passo tudo para o livro…

       O pai garatujou o nome do filho conforme o seu parco entendimento: Máico Jéquiçon Cigundo. E assim o bebê ficou registrado.Tempos depois, Máico já concluindo o curso primário, sua mãe, dona Belailda, comunicou ao marido:

      – Coriolano, a prefessora do Máico mandô avisá qui tu tem qui compra uma tar de ciclopéida pro menino!

      E o pai:

      – E essa prefessora é doida? Ela tá pensando qui eu sô argum milionáro? Num posso nem comprá uma bicicreta pro bichinho, quanto mais um negóço de luxo desse! Ôxi! Pur enquanto ele vai indo pra escola é a péis mermo!