Ailton Villanova

11 de julho de 2017

“O Túmulo dos Vivos”

                                            1 –  A ideia

      Ano de 1968. Com nova direção, a Rádio Difusora de Alagoas havia se transferido da rua Pedro Monteiro para a Praça dos Martírios. Convocado pelo recém-empossado diretor-geral Januário Procópio de Toledo, o radialista Sabino Romariz assumiu a direção artística da emissora oficial com grandes ideias na cachola. Ao cabo de três meses desde sua assunção ao cargo, Romariz já havia reativado o núcleo de rádio-teatro, recuperado os programas de auditório e dinamizado as transmissões esportivas. Ele nem sonhava em ser deputado.

 

      No rol dos novos contratados da “Pioneira” lá estava eu, com um salário invejável. Acumulava a direção do radio-jornalismo com a função de locutor-noticiarista.

 

      Difusora de vento em popa, disputando a liderança da audiência com a co-irmã Gazeta de Alagoas, de onde eu havia sido resgatado. A briga era boa e quem estava lucrando com isso era o ouvinte. E Sabino, naturalmente.

 

      Num começo de noite, eu me encontrava na redação do jornalismo editando o Grande Jornal Difusora – que ia ao ar às 22:30 hs – quando o contínuo José Silvestre me trouxe o recado:

 

      – Seu Sabino quer falar com o senhor. Disse que é urgente!

 

      Fui até a sala dele. Mal assentei os solados dos pés lá dentro, eis que ele saltou da cadeira que ocupava, entusiasmadíssimo:

 

      – Villa, acabo de ter uma ideia genial!

 

      – Desde que não seja mais trabalho pra mim, tudo bem! – respondi, tentando advinhar o que se passava na cabeça do colega. Ele, então, complementou:

 

      – Topa escrever um programa de terror?

      – Programa de terror, Sabino? – espantei-me.

      – É, rapaz! Um programa teatralizado. Você está lembrado daquele programa “O Túmulo dos Vivos”?

 

      Eu estava lembrado, sim. Excelente produção do Emanoel Rodrigues (gênio dos scripts radiofônicos e televisivos), que anos passados havia sido irradiada pela mesmíssima Difusora. Enquanto esteve no ar foi um arraso na audiência. Topei produzir o programa, desde que o ouvinte também participasse, enviando para radiofonização, fatos verídicos de assombrações. Eu nunca havia escrito sobre esse tema e me senti desafiado. Do jornalismo convoquei para me auxiliar na redação do script,  o companheiro Carlos Méro, hoje procurador de estado aposentado, e atualmente presidente da Academia Alagoana de Letras. Tocamos o pau.

 

                                             2 – Tudo bem até que…

 

      O “Túmulo dos Vivos” estreou numa sexta-feira a meia-noite e se fixou impreterivelmente nesse horário durante todo o tempo em que permaneceu no ar. Era de arrepiar até cabelo de estátua. Audiência incrível. O “cast” de radio-teatro, comandado pelo próprio Sabino Romariz, reunia excelentes valores.

 

      Além de escrever os scripts em parceria com o Carlos Méro, eu fazia a sua narração ao microfone, cujos episódios eram gravados um dia antes de ir ao ar. A sonoplastia, sob a orientação do saudoso e competente Francisco Magalhães, era de matar de medo! Em cada acorde, o ouvinte dava um pulo da poltrona.

 

      Lá pelo terceiro mês de irradiação ininterrupta,  o “Túmulo dos Vivos” era o dono absoluto da audiência. Foi aí que recebeu a ameaça de, pela primeira vez, não ir ao ar, porque o ator principal, Sabino Romariz, provavelmente não chegaria a tempo para gravar a sua participação no programa. Pelo seguinte: ele estava em São Paulo, tratando da aquisição de novos equipamentos para a rádio, juntamente com o diretor-geral, Januário Procópio.  O avião que traria ele e Januário de volta a Maceió não poderia aterrissar no Aeroporto dos Palmares antes das nove da noite da sexta-feira – justo da sexta-feira. “Túmulo dos Vivos”, pela sua complexidade, teria que ser gravado na véspera.

 

       Em São Paulo, Sabino dava pinotes de preocupação. Do lado de cá, a gente tentava alterar todo o script mas, mesmo assim, corríamos o risco de botar tudo a perder. De repente, chega o continuo Silvestre – sempre ele – e me comunica:

 

       – Seu Sabino tá no telefone e quer falar com o senhor!

 

       Romariz me ligava de São Paulo para saber como andavam as coisas por aqui. Contei-lhe o drama. Nesse momento, chega o Chico Magalhães e propõe:

 

       – Topa levar o programa ao vivo?

 

       Gelei. Mas respondi, sem saber direito o que estava dizendo:

 

       – Topo!

       – Então, avise aí pro Sabino que chegue pelo menos meia hora antes do programa ir ao ar.

 

       Dei o recado ao Sabino e ele vibrou!

 

       O “Túmulo dos Vivos” já era complicado para gravar, imagine que confusão dos diabos seria irradiá-lo ao vivo. Como a turma era meio                                              doida, encarou a parada numa boa.

 

        Sabino desceu no Aeroporto dos Palmares um pouco depois das 22 horas – o programa ia ao ar a meia-noite – e gastou mais de uma hora para chegar ao centro da cidade. Como ele não tinha visto o texto, entraria no estúdio às cegas, sem ensaio, e sem nada.

 

 

                                               3 – Final infeliz

 

           No estúdio de radio-teatro a turma estava tensa, quando Romariz entrou no ambiente de venta acesa e olho arregalado:

 

           – Tudo certo?

 

  Ninguém falou. Dali a cinco minutos a teatralização de uma história tétrica ao extremo, estaria sendo irradiada. Na sala da sonotécnica, Chico Magalhães cercado de um monte de discos de sonoplastia, iniciava a contagem regressiva. Enquanto isso, a protagonista da história, Marlene Santos, rezava uma ave-maria para Nossa Senhora da Luz.

 

      O episódio que dali a instantes começaria a ser radiofonizado, fora inspirado numa narrativa verídica, encaminhada pelo ouvinte José Maria Torres, residente no Jaraguá. Tratava-se da “maldição” decretada por um homem que fora decapitado na cidade de Boca da Mata, nos anos 30, e que voltara ao mundo dos vivos para se vingar dos seus matadores. Era uma trama com todos os ingredientes para fazer o ouvinte saltar da cadeira a todo instante e ter pesadelos durante o sono por uma semana inteira.

 

      Eu e Carlos Méro havíamos caprichado no texto.

 

      Meia-noite.

 

      Na técnica, o controlista Jerônimo Júnior bateu o gongo – póóóóiiimmm  – e o locutor do horário, Luís Carlos Reis, anunciou:

 

      – Atenção ouvintes… preparem seus corações! No aaarrr…

 

      Chico Magalhães sapecou uma música tétrica e Luís Carlos completou:

 

      – O Túmulo dos Vivos!

 

      O programa começou meio mole, porque os atores estavam todos nervosos, com medo de errar. Afinal, era imensa a responsabilidade de levar ao vivo  um programa que exigia complexidade técnica nas passagens musicais, sonoplastia, etc.

 

      Numa ligeira pausa para os comerciais do primeiro segmento, Sabino Romariz observou:

 

      – Estamos muito lentos, turma!

 

     Ele próprio quis dar o exemplo, no retorno do som para o estúdio. Chico Magalhães dera uma incrementada na música de fundo e Romariz, entusiasmadíssimo, alterou o texto por conta própria. Abriu o bocão e soltou um grito apavorante bem no pé do ouvido da atriz Marlene Santos:

 

      – Uuuuuggggrrraaaggghhhaaauuurrrr!

 

      O estúdio tremeu e Marlene quase caiu sentada do susto que tomou. Depois, desorientada e com o coração aos pinotes, ela reagiu em pleno ar:

 

       – Aaaiii! Você tá doido, seu peste? Isso é brincadeira que se faça, Sabino?

 

       Perplexo, Chico Magalhães não teve tempo de cortar o som dos microfones do estúdio, enquanto a triz prosseguia:

 

       – Você me deixou mouca, seu porra! Tá bêbado, é? Eu não fico aqui nem mais um minuto!

       E deixou o estúdio pisando firme.

 

        Em casa, os ouvintes ficaram sem entender o que estava se passando no estúdio. Que programa era aquele, afinal? De terror, ou de humor?  Entre os atores e o pessoal da técnica a gargalhada era uma só. Ninguém se segurava, inclusive o diretor e ator principal Sabino Romariz.

 

         Naquela sexta-feira fatídica, o Tumulo dos Vivos fechou para sempre.