Gerônimo Vicente

11 de julho de 2017

O dia em que Freitas Neto se despediu de mim

Era noite de quarta-feira, quando eu me dirigia ao auditório do Sebrae-AL, no Centro de Maceió. Estava atrasado para um Seminário de Mídia Digital, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Alagoas, presidido à época por Fátima Almeida. O evento foi realizado em parceria com as empresas de comunicação do estado. Pela primeira vez, a entidade colocava a discussão sobre notícias on-line para a categoria e estudantes de comunicação e a convidada era uma diretora do portal UOL, o pioneiro no país em notícias veiculadas pela internet. O motivo do atraso foi o fechamento do suplemento do Diário do Município pelo qual eu era responsável quando atuei na Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Maceió.

Era julho de 1997 e ao entrar no local do seminário  dirigi-me à escada, onde encontrei, no topo, o jornalista Freitas Neto que, ao me avistar preocupou-se, logo de primeira, em explicar o motivo de sua saída antecipada do seminário.

– Viajo no sábado para Cuba e preciso me preparar. Por isso estou indo embora agora, explicou.

Além da justificativa, Freitas disse-me que na terra de Fidel participaria de um congresso sindical e de um festival cultural. Desejei-lhe boa viagem, mas estranhei a ansiedade do colega, pois como muitos estavam acostumados, Freitas além de somente deixar os eventos no final, fazia questão de se alongar, em demasia, nas intervenções feitas.

Dois anos depois da morte de Freitas Neto, encontrei o jornalista alagoano Audálio Dantas no Palácio República dos Palmares onde seria homenageado pelo governo de Ronaldo Lessa. Na ocasião, ele lembrou de Freitas. Foi então que contei sobre último dia que o encontrei no Sebrae antes da viagem a Cuba.

– Parecia que ele estava se despedindo de mim para sempre, disse a Audálio.

– Engraçado! Ele conversou com você na quarta-feira e na madrugada de quinta-feira, por volta das 2h da manhã ele me ligou e me disse a mesma coisa e tive a mesma impressão sua. Muita coincidência!, reforçou Audálio. 

Não tinha intimidade com Freitas Neto, mas parece que um caminho me levou até ele. Aos 17 anos, todos os dias ao final da aula no Colégio Moreira e Silva, antes de chegar a casa onde morava, no Mutange, ia a uma mercearia na rua principal para fazer lanche e, todos os dias, exatamente, às 11h40, avistada aquele Fusca marrom, dirigido por um homem que eu achava parecido com Tiradentes. O mais estranho era que o condutor  buzinava e estendia a mão para fora do carro em uma cena que se repetia diariamente. Perguntava quem era ele e um vizinho, urbanitário e sindicalista dizia ser um advogado que morava em Bebedouro.

Já no início dos anos de 1980, soube que Freitas Neto também era jornalista e presidente do sindicato da categoria, depois de ouvir uma entrevista dele na Rádio Progresso dada ao jornalista Jurandir Queiroz. O discurso de ataque ao regime militar e, principalmente ao presidente da República João Figueiredo, ao  qual acusava de matar e torturar opositores,   deixou-me impressionado pela coragem. Meses depois estava Freitas na linha de frente  de combate à violência no estado,  patrocinada pelo sindicato do crime que era composto por integrantes do coronelismo político e por famílias que mantinham laços de apadrinhamento com exibidos autores de homicídios.

A aproximação com Freitas Neto se deu na condição de estudante de comunicação ao participar de congresso de jornalistas. Fui indicado pelo então Centro Acadêmico de Comunicação Social da Ufal representante junto ao sindicato para discutir o estágio profissional dos alunos e o reconhecimento do curso junto ao Ministério da Educação. Freitas Neto foi uma figura decisiva na abertura de acesso a parlamentares, a entidades classistas e à própria Reitoria para que fosse encontrada uma solução para agilizar o diploma dos futuros profissionais.

 Certa vez, voltando para casa com Freitas Neto tive a viagem mais tensa. A atuação do jornalista em defesa dos direitos civis, dos trabalhadores e contra as ações criminosas dos coronéis da política o tornou um inimigo de alguns poderosos que, volta e meia, faziam-lhe ameaças de morte. Nesse dia, estávamos em um congresso da categoria na Escola de Enfermagem, na rua Pedro Monteiro, no Centro de Maceió. As discussões começavam na sexta-feira à noite e devido as divergências ideológicas de sindicalistas vinculados à CUT e a CGT, o evento tinha dia para começar, porém para acabar não se sabia a hora exata. Somente Freitas Neto demorava uma hora a cada intervenções que fazia, de forma que esse congresso acabou por volta da meia-noite de uma segunda-feira, depois de três  dias de propostas e contrapropostas.

Por falta de ônibus pedi carona a Freitas Neto no famoso Fusca. Foi um tormento! À medida que o jornalista me contava como agia as organizações criminosas e quem eram seus comandantes no Estado, o veículo soltava disparos como se fossem tiros de armas de fogo, sinal de velas desgastadas ou cano de escape furado.  Trêmulo cheguei ao local ao cruzamento da linha férrea, no Mutange, próximo onde morava, contudo escondendo o medo, enquanto Freitas Neto seguiu tranquilo e sozinho com seu veículo sob disparos até Bebedouro.

Soube da morte de Freitas em Coruripe, onde passava um feriadão e enquanto assistia a um jornal de TV. Imaginei que o acidente aéreo tivesse sido um atentado, tamanha eram as investidas do governo norte-americano de George Bush contra a Ilha de Fidel.

Vinte anos se passaram, mas a imagem do “Tiradentes” como o chamava antes de conhecê-lo, ainda hoje para mim se completa com um dos mais ferrenho defensores da democracia que já conheci.