Ailton Villanova

8 de julho de 2017

O trote do “Mr. Goldmann”

      Final de tarde de verão, sol se escondendo na linha do horizonte, ocaso apreciativo, e, como sempre faziam, os saudosos Bráulio Leite Jr. (advogado, teatrólogo e jornalista) e Alberto Jambo (jornalista e publicitário), amigos do peito, impagáveis gozadores e exímios passadores de trotes, ocupavam uma mesa no tradicional Bar do Relógio (Praça dos Palmares, centro da cidade de Maceió) e bebiam cerveja com tira-gosto de amendoim torrado. Estavam entretidos nesse degustar quando passa por eles e dobra na esquina da rua Barão de Penedo com rua Pedro Monteiro, uma viatura da Rádio Difusora conduzindo o recém nomeado diretor-geral da emissora (cuja sede ficava na Pedro Monteiro) Humberto Cavalcanti de Oliveira, igualmente de saudosa memória, que ainda era padre.  Bráulio olhou para o Alberto, que o olhou para o Bráulio. Aí, veio o estalo. A dupla se comunicava apenas com um simples olhar, quando pretendia aprontar alguma molecagem.

      Pagaram a conta calados e, no carro do Alberto Jambo, os dois rumaram om destino ao Teatro Deodoro, cujo diretor era o próprio Bráulio. Ainda mudos, entraram no gabinete da DG, Bráulio Leite esparramou o seu corpanzil de 250 kg na imensa poltrona feita sob encomenda para suportar o seu peso, deu garra do telefone, discou um número e, enrolando a língua com sotaque inglês, mandou ver:

      – Hello… Aqui falarrr Mister Goldmann…

      A pessoa que atendeu ao telefonema foi o radialista Arnoldo Chagas (excelente caráter, bom companheiro e profissional dos mais sérios – hoje também, e infelizmente, não mais entre nós), que se achava dando expediente no seu escritório de diretor comercial da Difusora. Muito jovem, Arnoldo ainda não era o brilhante promotor de justiça da Capital. Era estudante de direito da Ufal.

      – Boa tarde. Arnoldo Chagas, às suas ordens, mister Goldmann…

      – Thank you, mister… mister…

      – Chagas.

      – Ah, Mr. Chagas, eu serrr representante dos máquinas de lavarr “Corpeta”, da Machine Corporation. Gostaria de fazer uma… anúncio!

      Os olhos do Arnoldo brilharam:

      – Um anúncio? Muito bem!

      – Isso! Uma anúncio!

      – Está falando com a pessoa certa, Mr Goldmann!

      – Well… O senhor ser a mannager? Please, eu querer falarrr com mannager!

      – Nesse caso, o senhor aguarde um instante!

      Chagas levantou-se de sua poltrona, correu até a sala ao lado, que era a sala do diretor-geral, tirou o fone da linha de extensão do gancho, tapou o bocal do aparelho com a palma da mão e falou baixinho para o padre Humberto:

     – Professor, aqui no telefone tem um gringo, representante de uma indústria americana de máquinas de lavar, que quer falar com você!

     – Comigo? O que ele quer, especificamente?

     – Quer fazer um anúncio!

     – Mas esse assunto é com você!

     – Eu sei. Mas ele faz questão de falar com você!

     Padre Humberto pegou o fone:

     – Pronto!

     – O senhor ser a mannager? – indagou o falso gringo.

     – Sim, sou o diretor-geral da emissora, o que dá no mesmo!

     E Bráulio, incrementando o sotaque:

     – Eu ser Mr Goldmann. Prazérrr. Gostaria de fazer uma anúncio das máquinas de lavar “Corpeta”. Seria no caso, um promoçon de muitas dólares. Enton, como fazer?

     – Bom, nossa equipe comercial é muito competente. Tem aqui o doutor Arnoldo Chagas, com quem o senhor acabou de falar, que é o diretor comercial. Quando o senhor pretende iniciar a promoção?

     – Now!

     – Agora?!

     – Yes! Gostarria de discutir detalhes da lançamento. Eu estar hospedado aqui no Hotel Califórnia…

     – Ah, no Hotel Califórnia? Muito bom! Fica bem pertinho aqui da rádio. Nesse caso, poderemos conversar imediatamente!

    – A senhorr pode vir até aqui?

    – Perfeitamente, Mr Goldmann. Iremos… eu e o doutor Arnoldo!

    – Good. Eu esperar!

    Desfeita a ligação, mais que depressa Bráulio Leite e Alberto Jambo, ambos às gargalhadas, pegaram o carro e pisaram de volta ao Bar do Relógio. Num instantinho chegaram lá, porque naquela época, idos de 1960, o trânsito de veículos no centro da cidade, era tranquilo.

      Meia hora depois, escorados por detrás de um poste de iluminação pública e de olho na porta do hoje falecido hotel – que ficava no final da Barão de Penedo – , a dupla de gozadores aguardava a saída de Humberto e Arnoldo. Eles não demoraram muito a aparecer.

       Aborrecidos e decepcionados, o reverendo e o radialista deixaram o hotel em passo de ordem unida, reclamando mais do que bodes embarcados. Eles haviam sido informados pelo gerente que jamais, em tempo algum, alí se hospedara o tal de Mister Goldmann.

 

O inconveniente Costa Cabral

      Vassil Vieira de Barbosa, de saudosa memória, além de atleta laureado do futebol brasileiro nos anos 50, foi um excelente comentarista do bate bola, aqui nas Alagoas. Veio para cá com a missão de treinar o Centro Sportivo Alagoano, amou esta terra, casou-se aqui e aqui fincou raízes. Ao abandonar os gramados, virou radialista. Morreu cedo demais.            

      Mas deixou um grande legado: o filho Oswaldo Barbosa, tão competente comentarista quanto ele.        

      Do grande Vassil, a turma do rádio coleciona inúmeras histórias.

      Certa vez, ele o Valdemir Rodrigues e o Costa Cabral, todos então atuando na Rádio Difusora de Alagoas, foram à Campinha Grande constituindo a equipe que faria a cobertura do jogo entre CSA x Treze Sporte Clube, jogo esse válido pelo campeonato nacional.

      Instalados no melhor hotel da cidade, Vassil e Valdemir ocuparam um apartamento duplo e o Costa Cabral ficou com um quarto só pra ele, pelo seguinte motivo: Vassil detestava roncadeira no pé do ouvido e Cabral ronca mais do que carro velho subindo ladeira.

      No domingo, o trio cumpriu galhardamente sua missão na velha Terra da Borborema. O jogo terminou empatado em 1×1. Vassil Barbosa, como sempre, deitou e rolou na análise da partida. O trio voltou ao hotel no começo da noite, feliz pelo dever cumprido, jantou fartamente e cada um dos seus integrantes se recolheu ao seu respectivo leito. Vassil ferrou no sono na cama do canto do apartamento que dividia com o Valdemir, porque só gostava de dormir afastado do interruptor de luz, outra de suas manias.

      Alta madrugada, relógio descambando das três horas, todo mundo em sono profundo quando, em dado momento, o silêncio foi rompido por um baticum terrível na porta do apartamento onde se alojava o Vassil Barbosa, cujo sono era pesado. O mundo podia se acabar que ele não se mexia.

      Mas dessa vez ele acordou!

      A pessoa que aplicava violentas porradas na porta do apartamento do Vassil parecia bastante aflita, porque insistia desesperadamente no baticum. Então, ele pulou da cama assustado, olhou para o Valdemir, que dormia a sono solto, e correu para abrir a porta. No que abriu, deu de cara com o Cabral, olhão vermelho, cabelo todo arrepiado.

      – Quê que houve, “colhega”? – perguntou Vassil preocupado.

      E Costa Cabral, com a cara mais inocente do mundo:

      – Nada não. Passei aqui apenas pra bater um papinho, já que não estou conseguindo agarrar no sono!

      O berro de revolta do Vassil foi tão grande, que acordou todos os hóspedes do hotel. De manhã, a reclamação foi geral, perante a gerência.

      Por recomendação da gerência, o trio teve que deixar mais cedo o hotel, infelizmente.