Ailton Villanova

7 de julho de 2017

“Sô purtêro não, moço!”

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 A rodovia denominada “A Sertaneja”, que liga Arapiraca a Batalha, foi construída no governo do professor Afrânio Lages. Quando ela começou a ser projetada pela antiga Secretaria de Viação e Obras Públicas, através do DER, várias foram as incursões feitas por técnicos dos dois órgãos, àquela região, entre esses o engenheiro Luís Carlos Lins Reis, que apesar de pouco tempo de formado, já era cobra na construção civil. De modo que, em razão disso, foi destacado pelo diretor de então do DER, Reinaldo Marinho, para a tarefa de medições preliminares num pedaço inserido no traçado da futura rodovia. Primeira coisa que o Lula ele fez, assim que assentou o solado das botas na região, foi procurar o dono da terra, um modesto agricultor intitulado Ezíquio Bezerra.

      – Bom dia, seu Ezíquio! – comprimentou o engenheiro.

      – Bom dia, seu moço! – respondeu o agricultor.  

      E o Luís Carlos:

      – O motivo de minha presença aqui, é para informar ao senhor que a futura rodovia Arapiraca-Batalha, passará por estas terras…

     – Uquê? Qui históra é essa? Quem mandô?

     – Bem, o projeto é do governo…

     – Aaahhh… o gunverno, hêm? Qué dizê qui o gunverno qué se apossá da minha terrinha!

     – Não se trata disso, seu Ezíquio! O governo está querendo o progresso desta região e o indenizará convenientemente, com toda justiça, pelo pedaço que desapropriar. O projeto beneficiará inclusive o senhor!

     – Vai, é? Cuma vai me binificiá, se vô tê uma ruma de carro passando pra riba e pra baixo puraqui?

    – Todos os dias, a todo instante e a toda hora.

      – Lasquei-me!

      – De maneira alguma, seu Ezíquio. Pense na valorização de suas terras!

      O matuto assuntou, assuntou, puxou um palhinha que pendia do canto da boca, deu uma cusparada do lado, apertou os olhos, fez cara de deboche e mandou:

       – Será qui o gunverno tá pensando qui eu vô fica aqui, o tempo intêrinho, abrindo e fechando a purtêra pra esse monte de carro passá pra riba e pra bacho (baixo)? Vô o quê, moço! Quero esse negóço na minha terra, não! Diga o gunverno qui percure ôtro!

        E encerrou o papo.

 

Nem puta e nem zona!

      Cada região com suas figuras folclóricas. O sertão alagoano, por exemplo, pariu inúmeras delas, sendo a mais notória de todas o José Florisvaldo, popularizado como Zé Flor, que é finado há mais de 70 anos.

      Metido a político, amigo de autoridades, Zé Flor era analfabetão e mais grosso do que papel de enrolar prego.

      Certo dia, o governador Osman Loureiro encontrava-se visitando a cidade de Santana do Ipanema quando quase trombou com Zé Flor, em pleno comércio, e fez aquela festa:

      – Como vai, Zé Flor?

      E ele, entusiasmado:

      – Eu vô bem, Incelença! Eu tava lá im Dois Riacho, quando sube qui Voça Incelença andava puraqui. Entonce, arribei c’os seiscento diabo só pra lhe vê!

      – Obrigado, meu amigo. E como vai aquela zona?

      – A zona? Ah, Incelença, pelo qui seio, continua cum as mêrma puta de sempre!

      O governador então esclareceu:

      – Não é disso que eu quero saber, Zé Flor. Estou perguntando é pela zona rural. A ru-ral, compreendeu, Zé Flor?

      – Ah, agora cumprendi, Incelença! Bom… a rurá inté qui tá boazinha de motô e lataria. Só tá meio ruinzinha mermo é de pinêu!

 

Distraído, nunca!

       Por ter tido a oportunidade de falar da grossura comportamental do Zé Flor no texto acima, me ocorreu, a propósito, um lance interessante protagonizado pelo galego José Monteiro, motorista da empresa Manguaba, distribuidora de óleo diesel. Sertanejo que nem o Zé Flor, esse cara é tal e qual o xará, na analfabetice.

      Numa segunda-feira dessas, Monteiro entrou manquitolando no escritório da empresa, para falar com o patrão. Ao reparar na sua situação, este reagiu algo preocupado:

      – Ô galego, o que foi que houve com você, rapaz? Por que está arrastando a perna desse jeito?

      E ele:

      – Foi uma dorzinha qui apareceu aqui… bem no pé do “pente”. Minha mulé acha qui é “arpêndis”!

     – Huuummm… Apêndice!

     – Isso, chefe! Arpêndis! Será quié é mermo, chefe?

      Como não é médico, o patrão Pedro Severo não emitiu nenhuma opinião a respeito. Mas fez melhor: encaminhou-o a um especialista, por conta da firma. Quando ele voltou, o patrão perguntou:

      – E aí, Monteiro, o que foi que o doutor disse?

      O motorista fez cara de desagrado e respondeu:

      – Aquele dotô é pur dimais fraquinho, seu Pedro! Sabe o qui ele falô qui’eu tenho?

      – Sei não.

      – Ele falô qui’eu tenho “distração”, já pensô?

      – Distração???!!!

      – Sim, sinhô. “Distração”! Premêro ele cumeçô me preguntando se eu jogava bola. Entonce, arrespondi qui era chegado a uma peladinha, todo sábado. Foi aí qui ele disse qui eu só pudia tá cum “distração”!

       O patrão abriu a boca para dizer alguma coisa, mas galego Monteiro não permitiu, tão indignado se encontrava:

       – “Distração”! Disconcordo! O sinhô mêrmo  sabe qui num sô distraído de manêras arguma. Se fosse, já viu, né? Era todo dia trombando com o caminhão da firma. Era ou num era?

       Quando seu funcionário acalmou-se, seu Pedro Severo pediu à ele que lhe passasse a receita médica e aí viu o que o doutor havia prescrito uns medicamentos para “distensão muscular”. Esse era o problema do cara.