Ailton Villanova

6 de julho de 2017

Comeu gato por lebre!

comeu gato por lebre 600x300 c - Comeu gato por lebre!

      O delegado de polícia civil Eulálio Rodrigues é bom de boca desde novinho, quando morava no bairro Bom Parto. Sempre sob a alegação de que “filho de pobre não pode ser biqueiro”, o distinto colega não enjeita parada quando se trata de encarar um rango esperto. No barato mastigatório ele deita e rola.

      Eulálio estreou no cargo, na década de 70. Seu primeiro posto de trabalho, como titular, foi a regional de polícia baseada na cidade de Novo Lino. Assim que assentou o solado dos pés naquele território, tomou a iniciativa de conhecer toda a sua circunscrição, começando pela cidade vizinha de São Luiz do Quitunde. Consigo, levou o colega Antônio Rosalvo Cardoso, o indefectível Mamão, que é época era o delegado distrital da já referenciada Novo Lino e, portanto, seu substituto nas eventualidades.

      Recepcionados em São Luiz do Quitunde pelo cabo PM Aureliano, chefe do Grupamento de Polícia Militar (GPM), os visitantes passearam pela cidade a manhã inteira e quando se lembraram de retornar à base, já passava do meio-dia. Aí, o prestimoso cabo Aureliano decretou:

      – Doutores, me desculpem a ousadia, mas os senhores só voltarão para Novo Lino depois do almoço. Mandei o soldado Itamar capturar um animalzinho e eu mesmo vou prepará-lo, no maior capricho, para a gente comer…

      Naquilo que escutou as benditas palavras do cabo, Eulálio Rodrigues entrou em transe.  Seus olhos brilharam e a baba escorreu pelo canto da boca.

      – Ora, cabo, nem precisava esse trabalho todo. Mas já que você está insistindo tanto…

      E o militar, puxando ainda mais o saco:

      – É uma honra, doutor Eulálio!

      E o trio rumou à residência do cabo, que deixou os ilustres visitantes descansando no alpendre e se mandou para cozinha.

      – Façam de conta que estão nas suas próprias casas, doutores. Fiquem à vontade, enquanto preparo o animal.

      Nesse momento bateu no delegado Mamão uma vontade danada de  esvaziar a bexiga e, aí, ele pediu ao anfitrião que lhe indicasse o caminho do WC. Mamão foi lá, fez um pipi de milhões de espumas e, quando voltava ao alpendre, escutou, sem querer, o cabo falando para a esposa:

      – Tenho que caprichar no tempero desse gato. As visitas aí são gente muito importante!

      Mamão quase correu porta a fora. O estômago começou a embrulhar e quando se preparava para revelar ao Eulálio o que havia escutado, foi atrapalhado pelo cabo:

      – Doutor, que tal a gente abrir o apetite com uma cachacinha?

      O dono da casa foi falando e logo despejando a aguardente nos copos dos delegados. Ele próprio iniciou a bebedeira, engolindo o primeiro grogue. Mamão o acompanhou e Eulálio não quis ficar para trás.

      Enquanto a comida estava no fogo, o trio mandava brasa na cachaça. Mamão ficou embriagado e não almoçou de jeito nenhum. Melhor para o Eulálio, que comeu pelos dois.

     Na volta a Novo Lino, soltando mil arrotos, Eulálio Rodrigues, que se achava ao volante, fez uma observação:

      – Ô Mamão, eu não sabia que você bebia!

      – E não bebo!

      – E como você me explica o pileque de antes, durante e depois do almoço?     

     Mamão esclareceu, com voz pastosa:

      – Pra não comer gato por lebre, meu irmão, eu faço qualquer negócio!

      – Que gato? Que lebre? Não estou entendendo nada!

      – Estou falando do almoço, rapaz! Aquilo que você comeu com tanto gosto e tanta satisfação, não foi coelho porra nenhuma! Foi gato!

      Eulálio Rodrigues parou o carro e botou todo o rango pra fora!

 

Ela estava fora de uso!

      João Oliveira, o João do Fio, era um eletricista competente. Mas, por causa da sua biritagem exagerada, perdeu vários empregos e terminou entrando em desgraça, a ponto de sair mendigando pelas ruas “uma bebidazinha pelo amor de Deus”. Até que bateu na porta de uma coroa que tinha toda a pinta de fogosa. 

      – Que deseja? – ela perguntou.

      E João do Fio:

      -Será que a senhora não tem aí um uisquezinho que não queira mais?

      – Tenho não!

      – Uma cachacinha?

      – Também não!

      – E um dinheirinho?

      – Piorou!

      – Será que a senhora não tem nadinha aí que o seu marido não quer mais?

      A madame piscou duas vezes, coçou o queixo e finalmente disse:

      – Tem, sim. Entre!

      João do Fio entrou. Mais tarde, depois de ter tomado um belo banho, raspado a barba, se perfumado todo e rangado bastante, encontrava-se na maior folga, espichado na cama, comentando para a dona da casa, que se achava ao seu lado, naquela base:

      – Eu não consigo entender como é que o seu marido resolveu não lhe querer mais, meu amor!

 

Mala desgraçada

      Apesar de tremendo gozador, José Rubem Fonseca de Lima é um cara do coração imenso. Antes de aboletar-se duas vezes na cadeira de prefeito da cidade de Tanque D’Arca, foi delegado, diretor de polícia civil e secretário de Segurança Pública. Aposentou-se como procurador de Justiça, com mérito.

     A época em que era o titular da SSP, ele foi fazer uma visita de surpresa ao falecido presídio São Leonardo e ficou impressionado com um detento que tinha a cara muito triste e não parava de repetir:

     – A-ma-la-foi-a-mi-nha-des-gra-ça!”

     Zé Rubem aproximou-se do diretor do presídio, delegado Mário Pedro dos Santos, e comentou, cheio de compaixão:

     – Coitado daquele preso! Olha só acara dele! Parece que é um bom sujeito e deve estar sofrendo muito! A mulher a que se refere com tanta insistência deve ter virado a cabeça dele. Acho que vou mandar providenciar sua remoção para o Manicômio Judiciário. O caso dele deve ter sido crime passional, não foi Mário Pedro?

      E o diretor do presídio: 

      – Que nada, secretário! Esse cara é um tremendo pilantra! É traficante dos mais perigosos…!

      – Não diga!

      – Digo! Ele foi flagrado com vinte quilos de maconha dentro de uma mala!

      E Zé Rubem:

       – Ah, é? Realmente, ele tem razão: a mala foi mesmo a sua desgraça!