Ailton Villanova

5 de julho de 2017

Engoliu a “perereca”!

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  Gente boa, o diarista José Ernesto, mais conhecido como Deda Boca de Ninho, desdentou-se muito cedo, mais precisamente no ano de 1967. É que fora acometido de uma incomum e raríssima moléstia bucal intitulada “gengiborum carecorum”, que lhe fez sumir do cenário bucal todos os dentes com raiz e tudo. Por causa disso, ficou meio complexado. Só conversava com as pessoas tapando a boca com a mão.

      Passados anos e anos falando aos sopros, e vivendo só na base do mingáu, da canja e de sopinhas, Boca de Ninho encontrou, certo dia, a oportunidade de readquirir a dentição, embora que postiça. Um seu amigo, o Nataniel Bezerra, foi quem deu a dica:

      – Ô bicho, tu anda banguelão porque quer. Tem aí um candidato a vereador, que mora na Levada, que nessas épocas eleitorais, gosta muito de distribuir chapas dentárias. Vai lá!

     Boca foi. De posse do endereço do tal candidato, bateu na porta dele e explicou o seu drama.  O cara pediu que ele entrasse e disse:

      – O amigo chegou em boa hora. Eu tenho aqui umas “pererecas” que sobraram da campanha passada e que estou pretendendo distribuí-las nessa próxima. É só você experimentar pra ver a que cabe bem na sua boca. Topa?

      Boca topou.

      O candidato foi lá dentro e, em seguida, retornou à sala com uma caixa de sapatos abarrotada de próteses dentárias. Retirou a tampa da referida , virou-a sobre o centro da sala e despejou um monte delas, acrescentando:

       – Veja qual dessas daqui vai dar pra você!

       Depois de provar umas trinta, Boca de Ninho escolheu aquela que se encaixou, mais ou menos, na cavidade bucal.

       – Tá meio folgada, mas dá pro gasto! – observou todo contente.

       O candidato emendou:

      – Isso é bronca safada. É só você botar um calço de algodão em cada canto da gengiva… e pronto! Fica legal!

      Zé Ernesto saiu da casa do candidato de “perereca” na boca, pulando de alegria e rindo até de desastre de trem. De vez em quando a infeliz ameaçava cair da boca mas ele, muito rápido, travava o maxilar.

      Apesar de desdentado, Zé Ernesto possuía uma namorada chamada Dorinha, que jamais reparou na sua boca murcha. Primeira coisa que ele fez, assim que saiu na rua, foi dirigir-se à residência da amada. Chegou lá, bateu palmas na porta e quando a moça escancarou-a, ele sapecou um sorriso cheio de dentes, que ia de orelha a orelha. Naquilo que reparou na boniteza da prótese (que tinha até dente de ouro) dando maior grau na boca do namorado, Dorinha não se conteve de tanta emoção: pendurou-se no pescoço do Ernesto e fez aquilo que jamais deveria ter feito: sapecou-lhe um beijo aloprado… na boca.

      Dorinha foi fundo no ósculo. Emocionadíssima e um tanto excitada, ela entendeu de puxar a língua do amado. Como a prótese estava folgada, ela veio junto e terminou enganchada na goela da coitada, depois de ter derrapado no seu palato, isto é, no “céu” da sua boca.

      Levada às pressas ao Pronto Socorro, Dorinha teve de ser submetida a uma melindrosa intervenção cirúrgica de emergência, para a retirada do corpo estranho da sua goela.

       Para evitar novo acidente, Boca de Ninho preferiu continuar banguela.

 

Limpa no boné!

      Domingo de futebol. Trapichão lotado. No gramado, digladiavam-se as maiores e mais tradicionais forças do bate bola alagoano: CSA x CRB. Na geral, cheio de cachaça na cuca, encontrava-se o negrão Rodésio Alves, agitando adoidado:

     – Olhaí galera! Esse jogo tá muito fraco! Se eu me abusar, desço daqui, entro em campo, pego a bola e faço o maior cocô em cima dela… falei?

     Não faltou quem o incentivasse. Mas também teve torcedor protestando:

      – Cala a boca, imbecil!

      Ao escutar o termo depreciativo à sua pessoa, negrão Rodésio levantou-se e revidou:

      – Também cago na sua cabeça, seu fiadaputa! E na do juiz, também! Rá, rá, rááá…

      Aí, estabeleceu-se a discussão. Quando esta dava pinta de descambar para algo mais sério, entrou na parada um PM do patrulhamento do estádio (ah, desculpe, da arena!) todo cheio de autoridade:

      – Qual é o babado aí?

      Um torcedor respondeu, apontando para o Rodésio:

      – É esse negão aí! Ele tá prometendo fazer cocô na cabeça de todo mundo!

      Rodésio replicou:

      – Êpa! “De todo mundo”, vírgula! O praça aí tá fora do esquema. Num vou fazer cocô na cabeça dele, de jeito nenhum!

      Todo vaidoso, o PM estufou o peito e a galera vaiou o valentão. Um dos torcedores achou de querer complicar:

       – E por que você não faz também cocô na cabeça do soldado? Se afrouxou, foi?

      E o Rodésio:

      – Me afrouxei porra nenhuma! O que eu não quero é sujar a boina dele, porque vou aproveitá-la pra depois limpar o meu cu, manjou na ideia?