Ailton Villanova

4 de julho de 2017

CACHORRO COVEIRO

      Apesar de veterinário recém-formado, doutor Ary Reinaldo de Farias tem se notabilizado como um profissional pra lá de competente, a ponto de ser o preferido das madames ricaças que possuem bichinhos de estimação. Dia desses, uma delas ligou para a sua clínica, algo preocupada:

 

      – Quem fala? É o doutor Ary Reinaldo?

      – O próprio. Às suas ordens, madame. – ele confirmou.

 

      E a finória:

 

      – Doutor, o meu cachorro está impossível! Será que o senhor daria um jeito nele? Um calmante… sei lá!

      – De que raça é o seu cão?

      – Dinamarquês.

      – Traga-o aqui, assim que a senhora puder. Preciso examiná-lo, certo?

 

      Dia seguinte a madame levou o canzarrão à presença do veterinário, que depois de examiná-lo conforme manda o figurino canino, definiu:

 

      – Com o cão está tudo bem. Nenhum problema aparente. O que é que ele vem aprontando?

      – Ah, doutor, esse cachorro agora pegou a mania de pular o muro do condomínio para perseguir todos os automóveis que passam na rua!

 

      Doutor Ary liberou um riso maroto, e comentou:

 

      – Ora, eu pensei que fosse coisa mais séria. Não há nada de estranho nisso, minha senhora. A maioria dos cães adora correr atrás dos carros!

 

      E a madame:

 

      – Ah, é? E eles também têm a mania de enterrar os coitados dos motoristas no jardim?

 

Doentinho, mas tão bonzinho!

      Funcionário público estadual em vias de aposentar-se, Olibaldo Cesário anda adoentado há um tempo. Para agravar sua situação, acometeu-lhe uma depressão filha da mãe. O leitor sabe bem que negócio brabo é essa tal de depressão e com o Olibaldo não poderia ser diferente. Na última semana sua saúde piorou consideravelmente.

      Bastante preocupada, dona Crisálida, sua esposa, ligou para o médico Luiz Nogueira e pediu para ele dar uma olhada no doente. Apesar de pediatra, Nogueira não se fez de rogado e foi à casa de Olibaldo. Demorou-se algum tempo com ele e, quando deixava o quarto, dona Crisálida, puxou-o pelo braço:

      – E então, doutor? O que o senhor achou do Olizinho?

      Doutor Nogueira respondeu com expressão grave:

      – Vou ser sincero com a senhora, dona Crisálida. Não gosto muito da aparência do seu marido!

       E ela, com ar de cumplicidade:

       – Pra lhe dizer a verdade, doutor, eu também não. Mas ele é tão bonzinho pra mim e pr’as crianças…

 

Aguardem o corno!  

      Antigo comerciante no interior do estado, um certo Lindelfo Carneiro decidiu mudar-se definitivamente para a capital, “por uma questão de foro íntimo”, conforme justificou. Esse “foro íntimo”, na verdade, chamava-se Elvira, sua esposa.

      Uma vez instalado na capital, Lindelfo inaugurou um mercadinho e construiu uma bela mansão. Em seguida, mandou erguer em volta um muro de três metros de altura.

      Assim que o muro ficou pronto, todo pintadinho de branco, um gaiato chegou lá e escreveu em letras enormes: “Corno”.

       É evidente que Lindelfo não gostou da ofensa. De modo que pegou um balde, encheu de água com sabão e passou o dia todinho apagando a palavra. E foi dormir morto de cansado.

      No outro dia, olha lá de novo: “Corno”. Com letras maiores ainda.

      Mais contrariado ainda, contratou meia dúzia de trabalhadores e mandou derrubar o muro. Foi dormir satisfeito depois que viu o resultado do serviço. Quando acordou de manhã, quase teve um infarto. Sobre a pilha de tijolos do muro derrubado, tinha lá fincado um cartaz que mais parecia um “out-door”, com os seguintes dizeres: “Brevemente, aqui, Corno!”

 

 

Dormiu demais da conta!  

 

      O distinto Herculádio Matoso tinha um problema tremendo de insônia. Só conseguia pregar o olho de manhãzinha, quando todo mundo estava acordando, para ir trabalhar ou para ir a escola. Como é funcionário público, tudo bem. Bronca quase nenhuma quando entrava para o expediente na repartição.

      Um dia, Herculádio resolveu se mancar, depois que colegas de trabalho o apelidaram de “Dorminhoco”. Então, procurou um clínico, contou o deu drama e este lhe receitou uns comprimidos.

       – Essas pílulas são infalíveis, meu caro! É tiro e queda! Inclusive, não têm contra-indicações. Com elas, você vai dormir tranquilo!  – garantiu o esculápio.

      E não é que o remédio fez efeito! Assim que Herculádio acabou de tomar a primeira dose, ele caiu na horizontal puxando um ronco firme. Acordo pela manhã bem disposto, antes mesmo do despertador tocar. Pulou da cama, meteu-se debaixo do chuveiro, tomou banho e um café adubado e meia hora antes do expediente começar, olha ele entrando lépido e fagueiro na reparftição!

      Herculádio fez questão de se dirigir a sala do chefe:

      – Olha eu aqui, doutor! Viu como cheguei cedo? As pílulas que o médico me receitou funcionam mesmo! Dormi tranquilo e não tive nenhum problema em acordar hoje cedo!

      O chefe respondeu:

      – Ótimo. Mas… e ontem?

      – Ontem?! O que é que você quer dizer com “ontem”?

      – O que eu quero é saber onde você se meteu ontem, que não compareceu ao trabalho!