Ailton Villanova

1 de julho de 2017

Rigoberto, o sonhador

      O pai era catador de sururu na lagoa de Bebedouro e a mãe exercia a atividade de lavadeira. A vida do Rigoberto não poderia ser um mar de rosas, conforme sói acontecer como todo pobre que vem ao mundo embalado pela cantoria de sapo cururu.

      Quando Rigoberdo abriu os olhos para o mundo pela primeira vez, ele se achava ao lado da mãe numa esteira de pipiri, a primeira cama que conheceu, na modesta casa dos seus pais, seu Adórfio e dona Eutêmia, localizada no ponto mais distante do Flexal de Baixo, lá mesmo em Bebedouro. O mar, que não o de rosas, claro, ele só conheceu quando tinha 11 anos de idade (antes só conhecia a lagoa) e nesse dia quase morreu afogado. Uma onda pegou-o de jeito e o atirou longe. É que ele havia confundido as águas.

       Rigoberto tentou várias profissões na vida, mas fixou-se naquela que o aproximou mais do álcool: lixeiro da falecida Cobel. Pegar lixão com a cara limpa não é para todo cristão. Muito menos para ele.

      Rigoberto era um sonhador. Quando seus pais morreram, ele passou a residir numa pensão sórdida localizada na Brejal. Era uma vaga imunda que ele intitulou de quarto. Acostumado com a sujeira, isso para ele não constituía problema algum. Como não tinha amigos, muito menos namorada, todos os finais de semana ele pegava o restinho do dinheiro que sobrava das despesas diárias, passava numa banca de jornais situada na Praça das Graças, bairro da Levada, comprava uma daquelas incríveis revistas dinamarquesas (na ausência delas optava pela Playboy), entrava na farmácia do saudoso Rui Câmara, comprava um envelope de sal de frutas, botava no bolso e pegava o caminho de casa, feliz da vida.

       Trancado no seu pardieiro, Rigoberto se apossava de um copo d’água e se dirigia ao banheiro, onde pregava fotos das mulheres nuas nas paredes imundas. Depois, jogava o sal de frutas no copo e quando a água deste começava a fazer bolhinhas, adicionava açúcar no recipiente e, em seguida, botava imaginação para funcionar. E, com a mão direita ocupada, levantava a esquerda e, em êxtase, balbuciava com os olhos cerrados:

      – Aaah! Isso é que é vida! Mulheres…! Champanhe…!

 

Ambos a trabalho

      Sujeito cheio de responsabilidade e muito certinho na tarefa de fiscalizar estabelecimentos comerciais, o Betonaldo Calixtrato foi designado para inspecionar uma lanchonete no centro da cidade. Como não havia lugar para estacionar, ele parou o carro em cima da calçada e deixou um bilhete pregado no limpador do para-brisa, tentando justificar o seu ato infracional:

      “Estou aqui a trabalho”.

      Quando voltou, encontrou uma multa e um “post-scriptum” no seu bilhete:

       “Eu também!”.

 

Produtos garantidos

      Dona Estringovilda, gordinha até umas horas, voltou ao médico Diastemildo Barroso, um profissional havido como um profissional muito democrático.

      – Cheguei, meu filho! – anunciou ela, quase saltando na ponta dos pés. – Que tal o meu perfil? Preciso de regime?

      E o médico:

      – Ora, ora… A senhora pode comer o que quiser. E aqui está a lista das coisas que deve comer.

 

Testemunhas das testemunhas

      Cheio de moral, o delegado de polícia civil Antônio Rosalvo Cardoso, o indefectível Mamão, interrogava um sujeito acusado de furto:

      – É melhor você confessar a sua culpa, rapaz! Várias testemunhas o viram arrombando aquela casa na noite passada.

      E o acusado:

      – “Menas” a verdade, chefia! Tenho testemunhas que juram que não havia testemunhas!

 

Produtos garantidos

      Uma madame chique, mal pisando no chão, entrou na loja do Asclepíades, localizada no antigo mercado público, e indagou dele:

      – Moço, por favor, as coisas que o senhor vende aqui duram muito?

      E ele:

      – Ah, senhora, deve durar muito, sim. Os fregueses não voltam nunca!

 

Coitados dos vizinhos!

      Aos 18 anos, o rapagão chamado Nicolau Limeira emancipou-se e foi morar sozinho numa quitinete, lá pelas bandas da Jatiúca. Depois de algumas semanas, sua mãe, dona Escolástica, telefonou para saber notícias dele:

      – Como vai, filhinho? Como são os seus vizinhos?

      – São esquisitos, maínha! – respondeu o garotão. – De lado há um cara que vive batendo com a cabeça na parede e do outro há uma senhora nervosa, que chora sem parar!

       – Se eu fosse você, meu filho, não me meteria com eles.

       – Ah, minha, pode deixar. Fico no meu quarto o dia todo, aprendendo a tocar minha bateria!