Ailton Villanova

1 de julho de 2017

O peru do Zito Cabral

      Os anais da boemia alagoana não teriam o menor sentido se neles não estivessem inseridas, com realce especial, três figuras distintíssimas: Teotônio Vilela (o pai), Tobias Granja e Zito Cabral. Esse trio, realmente, marcou época em Alagoas. Afinadíssimos, tinham uma particularidade em comum: a coragem.

     Hoje, infelizmente, nenhum deles está entre nós. Esse tal de Destino é mesmo sacana. De Téo, Tobias e Zito, restam para nós a eterna lembrança e a imorredoura saudade. 

      Quando esse trio cismava de curtir uma boemia desobrigada de compromissos à margem de suas obrigações profissionais, o papo, o uísque e a cerveja rolavam por incontáveis voltas do relógio. Quando eles não estavam “molhando a palavra” no bar do Clube Fênix Alagoana, certamente podiam ser encontrados no bar do italiano Luigi Presta, em Riacho Doce. Aquele era o local preferido da intelectualidade.

      O tradicional “Buraco da Zefa”, na Ponta Grossa, também era outro ponto onde eles costumavam estacionar, quando, simplesmente, pretendiam traçar no dente uma galinha ao molho pardo. O bar de Dona Nete, no centro comercial de Maceió, era o espaço vespertino querido pelos intrépidos Téo, Tobias e Zito. Era lá onde discutiam grandes ideias.

      Certa madrugada, depois de homérica farra no Bar do Presta, Teotônio tomou uma decisão, dirigindo-se a Tobias e Zito, com aquele vozeirão de matar de inveja o Cid Moreira:

      – Chega por hoje, negrada!

      Teotônio não falou? Então, era uma ordem.

      No maior porre, o trio levantou ferros e embarcou no fusca zerinho do Tobias Granja, o mesmo com o qual ele caiu dentro de um buraco em plena avenida Durval de Góes Monteiro. Na viagem de retorno a Maceió, Tobias equilibrava milagrosamente o carrinho na estrada. A certa altura, Zito Cabral abriu a boca para reclamar:

      – Tô com uma fome da gota serena!

      No que Teotônio rebateu, em tom de censura:

      – Ô rapaz, você não acabou de sair de um bar?

      – Acabei. Mas me distraí com as bebidas e me esqueci de comer. Agora estou com fome! Posso?

      De olho na estrada, Tobias falou por cima do ombro:

      – E onde diabo a gente vai arrumar um restaurante aberto às três e meia da madrugada?

      E o Zito:

      – Precisa restaurante não! A gente come lá em casa. Acabei de me lembrar que tenho  no quintal um peru que afanei do Gabriel Mousinho… Vamos comer uma peruzada do cacete!

      Quatro horas da manhã, o triunvirato transpôs triunfalmente os umbrais da residência do Zito Cabral, situada no mirante de Santa Teresinha, bairro do Farol. Nesse momento, Tobias Granja sacou a infeliz  ideia de assassinarem o peru na base do tiro, considerando que dona Carminha, esposa do Zito, encontrava-se dormindo e nenhum dos três farristas era traquejado na matança tradicional do penoso.

       Dos três, o único que não possuía arma era Teotônio Vilela, que sempre foi pacifista e que, portanto, odiava carregar consigo um “pau-de-fogo”. Mas não se negaria em colaborar com causa tão nobre como aquela.

       Céu sem lua e sem estrelas, quintal escuro que nem breu, o coitadinho do peru dormia tranquilo num canto do muro do quintal. Arvorado na condição de anfitrião, Cabral achou-se no direito de comandar o inusitado  “pelotão de execução perual”. Arrastou da cintura o seu “canela seca” do calibre .38 e chamou o dedo no gatilho – bang, bang, bang, bang, bang…

        Péssimo de pontaria, Zito Cabral descarregou a arma toda e não acertou um único tiro no penoso. Mas acordou a vizinhança inteira. Apavorados, os moradores da rua querendo saber o que estava se passando, mas cadê coragem para, ao menos, botar a cabeça do lado de fora? Mas, corajosa, dona Lenir Andrade, vizinha do lado, abriu o postigo e gritou:

       – Valei-me Nosso Senhor Jesus Cristo! Começou a Terceira Guerra Mundial!

       A vez seguinte foi do Tobias. Mais seis tiros no peru. Dessa vez, o animal soltou dois “glu-glus”.

       Apesar de não ter a menor intimidade com uma arma de fogo, conforme já foi dito, Teotônio Vilela pegou o revólver recarregado do Zito, sopesou-o, alisou o bigode, estendeu o braço, fechou um olho e abriu o outro, fez mira no peru e disparou:

       Bang! Bang! Bang! Bang! Bang!

       Os projéteis passaram a dez metros de distância do peru.

       Gastaram balas que davam para promover uma revolução armada e o danado do peru sequer levou um projetil de raspão.

        Tristes e desiludidos os três amanheceram o dia sentados ao pé de uma frondosa árvore que havia em frente à casa de Zito Cabral.

         E não comeram o peru.

         – Só sendo praga do Gabriel Mousinho! – desabafou Tobias Granja!