Ailton Villanova

28 de junho de 2017

Ladrão de circunstância

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 Uma lágrima grossa rolava pela face encovada do homem raquítico, enquanto ele era arrastado pelas ruas, lembrança patética da figura de Cristo a caminho do Gólgota.

      Curiosos, alguns compadecidos, deploravam o triste espetáculo de selvageria; outros, alheios à dor do infeliz, se amparavam na sombra da indiferença.

      – É bom que ele apanhe para aprender…! – vociferou uma mulher de beiços grossos, cabeleira ruiva, dente de ouro na frente da boca.

      – Quem mandou ele roubar? Eu acho é pouco! – emendou o sujeito de camisa amarela, cabeleira mincha e cara de vampiro.

      Um cortejo acompanhava com indisfarçável satisfação, o grupelho constituído de dois arrogantes “seguranças” fardados e da figura trôpega do desempregado Juvenal Ambrósio –  que era conduzido na base do tapa, chutes e bofetões, sob o sol quente do meio-dia. Orgulhosos pela cena que protagonizavam, os “brucutus” sorriam de felicidade.

      Em dado momento, surgiu uma voz do meio da multidão:

      – Não façam isso! Não maltratem o coitado!

      E os “seguranças” rindo ainda mais e chutando as canelas finas do subjugado.

      Da porta de um boteco, um bebaço desabafou:

      – É melhor matar o cara de vez!

      Ao escutar isso, um dos carrascos replicou:

      – Melhor mesmo é você ficar caladinho aí, seu corno, se não quiser apanhar também!

      Mesmo sem ser corno, o bêbado calou-se. A ameaça era pra valer.

      De repente… eis que diante do cortejo surgiu a figura de um sujeito parrudo e barbudo, que barrou, na moral, os passos da turma:

       – O que é isso aí?

       O mais truculento dos vigilantes retrucou, cheio de autoridade:

        – Se meta aqui não! Saia da frente!

        O tal sujeito meteu a mão no bolso, adiantou os passos e exibiu uma carteirinha da capa vermelha:

        – Me respeite, canalha! Sou autoridade! Repare nisso aqui, safado!

        O “segurança” truculento, que era analfabeto, afrouxou-se:

         – Me desculpe, doutor delegado!

         Ao ser confundido com um delegado, o fortão entusiasmou-se. Encheu o peito de ar, deu um passo a frente  e perguntou:

         – O que foi que esse homem fez?

         – Ele é um ladrão, doutor!

         – O que foi que ele roubou?

         – Umas besteirinhas no supermercado…

         – Que besteirinhas?

         O raquítico Juvenal, filete de sangue escorrendo pelo canto da boca, um olho fechado e o outro aberto, levantou a cabeça e balbuciou:

         – Furtei por necessidade, doutor. Nunca fiz isso em toda a minha vida. Eu só peguei um pacotinho de farinha, outro de feijão, tempero, sal e um tiquinho de açúcar…

          – Cala a boca, porra! – berrou um dos “seguranças”.

          E o fictício delegado, no mesmo tom:

          – Cale a boca você, seu fiadaputa!

      Juvenal prosseguiu, depois de cuspir dois dentes e meio litro de sangue:

      – Não tive outro jeito se não furtar, doutor. Saí de casa, hoje de manhã, desesperado. Deixei os meus filhos com fome e minha mulher, que é doente, com fome também. Faz três dias que não boto nem um pedaço de pão na boca. Só faço tomar água, assim mesmo da torneira.

      – Você experimentou pedir a alguém…?

      – Já, doutor. Lá mesmo naquele supermercado. O gerente me deu um tapa na cara e ameaçou me ameaçou com um revólver… E o pior é que ainda ouvi um monte de piadas e desaforos de outras pessoas que estavam lá!

      – Entendo.

      – Entende não, doutor. O senhor nunca viu os seus filhos chorarem de fome e nem nunca foi ameaçado de despejo…

      – Eu compreendo tudo isso, rapaz!

      – Compreende não, doutor! A prisão pra mim até que seria uma boa. Pelo menos na cadeia eu teria o que comer. Mas… e os meus filhinhos? E a minha mulher?

      Do meio da pequena multidão que se formara em torno do infeliz Juvenal, alguém começou a fungar. Uma madame desabou no choro.

      O dono da autoridade insistiu, ignorando as pessoas em redor:

      – Você não consegue trabalho, não é?

      – Trabalho até demais, doutor. Sou funcionário público municipal…

      A multidão fez:

      – Oooohhhh!

      A madame do soluço enxugou uma lágrima e desabafou:

      – Coitadinho! Pra que castigo pior que esse?

      E o Juvenal:

      – Sou professor primário. O meu salário só dá mesmo para pagar a quitanda do seu Cleto…

      Aí, o “doutor” resolveu colocar um ponto final naquela situação constrangedora. Olhou firme para os vigilantes e ordenou:

      – Soltem o homem!

      Num instante aquela galera que antes maltratava o infeliz do Juvenal, mudou de posição:

      – Éééé! Soltem ele!

      Um dos “seguranças” ainda quis reagir:

      – Soltar o cara, doutor? E o que é que a gente vai dizer ao chefe de segurança do supermercado? A gente tem que apresentar o recibo de entrega do preso…

       – Digam ao seu chefe que vá à puta que o pariu! Soltem o homem  ou eu prendo vocês dois, por desacato à autoridade! Resolvam!

       Soltaram o Juvenal sob aplausos da galera. O “doutor” passou a mão na cabeça do infeliz, deu-lhe dois tapinhas nas costas e disse:

        – Você esta livre. Pode ir! 

       – Deus lhe pague!

       Em seguida, ainda sob o soar dos aplausos, o “doutor” girou nos calcanhares e saiu gingando pelo calçadão, rindo desbragadamente e imaginando se não lhe cairia bem o papel de ator.

         Enquanto a figura do “delegado” sumia de vista, Juvenal Ambrósio saía do desespero e da humilhação, recebendo a solidariedade dos demais. Voltaria pra casa com os bolsos cheios de trocados.

      Quanto ao seu ao seu “anjo salvador”, descobriu-se, mais tarde, tratar-se do caminhoneiro Antônio Parísio. A carteirinha vermelha que ele exibira e que fora confundida com a identificação de delegado de polícia, na verdade era o invólucro da cédula de sócio do CRB.