Ailton Villanova

27 de junho de 2017

A meia estava suja mesmo…!

      Gruta do Padre é um corredor urbano que interliga os bairros do Bom Parto e Pinheiro, partindo do comecinho do Mutange. Pois bem. A Gruta dos tempos atuais é uma faixa bem habitada, em que pese situar-se num terreno acidentado. Possui de tudo para conforto de seus moradores, considerados de classe média. Sua principal via de acesso é toda asfaltada.

      A Gruta do Padre do final dos anos 40 para o começo da década de 50 era muito diferente. Sua paisagem era protegida de muito verde, numa espécie de vale, que a necessidade de crescimento populacional e o progresso eliminaram. O princípio de sua urbanização foi desorganizado, até porque ninguém tinha muito interesse na localidade, a não ser operários desempregados da finada fábrica de tecidos Alexandria. Foram esses que desbravaram e valorizaram a Gruta.

      Entre esses desbravadores, destaca-se o casal Manuel Jeremias e Elpidiana Lopes. Antigo tecelão da Alexandria, Jeremias logo conseguiu um emprego de arrumador no cais do porto do Jaraguá, enquanto sua mulher preferiu ficar em casa, curtindo a vida de doméstica, coisa que lhe agradava demais.

      Certa noite, Manuel Jeremias voltou pra casa boquinha da noite, cansadão de tanto enfileirar sacos e mais sacos de açúcar no píer jaragualense. Assim que entrou na sala, sentiu aquele cheiro gostoso de café fresquinho e correu para a cozinha. Surpreendeu-se com dona Elpidiana coando o café num pé de meia:

       – Mas o que é isso, mulher? Você tá coando café na minha meia?!

       E a madame tranquilona, com a maior cara de inocência:

       – Tem problema não, meu velho. A meia já tava suja mesmo…!

 

Raciocínio lógico

      Guilhobel Ribeiro é que nem o Luciano Campanela – que eu e o editor geral desta “Tribuna Independente”, Ricardo Castro, conhecemos muito bem, já que fomos seus companheiros de trabalho noutro jornal. Campanela possui um humor estranhíssimo. Um dia está pelos pés, outro pela cabeça. O cara é invocado mesmo!

      Até na estatura, Guilhobel é parecido com o velho “Campa”: é fininho que nem macarrão “número zero”. Mas num aspecto ele difere do outro: de vez em quando raciocina.

      Outro dia, Guilhobel foi flagrado pelo vizinho Nestor quando saía da Farmácia Ana Paula, que fica na rua Jangadeiros Alagoanos, bairro da Pajuçara. No que ele botou o pé na calçada, escutou o Nestor indagar:

      – Quê que há, Guilhobel? Tá doente?

      Tratando-se de quem se trata, a resposta do Guilhobel só poderia ser na base da malcriação:

      – Doente por que, porra?

      – Ué, você não está saindo da farmácia?!

      – E daí? E se eu estivesse saindo do cemitério, por acaso estaria morto?

      O dono da farmácia, Paulo Nascimento, que atendia ao balcão, engasgou-se de tanto rir. E quase engoliu o bigode.

 

O malandro armou e se deu mal!

      Hoje em dia o Mirandolino Barros é um cidadão disciplinado e cumpridor dos seus deveres e obrigações. Antigamente, no tempo em morava na Ponta Grossa ele era terrível. Armava molecagens de montão. Um dia, ao ver o filho receber o papelzinho de convocação para servir ao exército, sua mãe, dona Coralina, vibrou:

      – Graças a Deus! Só assim você se endireita!

      Cheio de preguiça e má vontade, Mirandolino apresentou-se no quartel do antigo 20° Batalhão de Caçadores, hoje em dia 59 ° Batalhão de Infantaria Motorizado. Quem o recebeu foi o sargento boa praça Frias, que foi logo dando a ordem:

      – Entre alí naquela sala e tire a roupa!

      – E eu vou ficar nu, sargento? – indagou Mirandolino.

      – Vai não! Eu vou mandar lhe dar uma roupa de tropical, uma camisa de linho e um par de sapatos Scatamacchia! – respondeu o sargento Frias, na base da ironia. – Vamos, rapaz, tire logo essa roupa!

      Nu como nasceu, finalmente, ele foi encaminhado ao oficial médico para os exames de saúde. O oficial, que era o saudoso Nabuco Lopes, apontou para a parede de fundo e determinou:

      – Soletre o que está escrito naquele cartaz, ali na parede!

      Tremendo de um sacana, Mirandolino, deu uma de cego, só para fugir da responsabilidade de servir à Pátria. Ele apertou os olhos e indagou:

      – Que cartaz? Que parede, doutor?

      Imediatamente, foi considerado “incapaz definitivamente” e deixou o quartel dando pinotes de alegria. A mãe chorou de desgosto e decepção.

       À noite, feliz da vida, Mirandolino foi curtir uma fita no Cine São Luiz. Procurou um bom lugar, espichou-se na poltrona e esticou as canelas. Ao lado, uma pessoa tossiu. Ele reparou e quase teve um desmaio. A pessoa  da tosse era, justo, o médico Nabuco Lopes – a época major – , que o dispensara do exército. Mas aí, o malandro mostrou que era dono de uma bela presença de espírito: fez cara de inocente, esfregou os olhos, virou-se pro doutor e indagou:

      – Desculpe, minha senhora, mas este ônibus é mesmo o de Bebedouro?

      Só que o major Nabuco não foi na onda do malandro. Ali mesmo, na hora, reconvocou-o e remeteu-o para Fernando de Noronha, para servir como xeleléu do capitão Carlito Lima, que está aí, vivinho, para confirmar a história.

 

Tempo para se mandar

      Grande filho da mãe, Heliogágalo Porciúncula era a cruz que dona Esteródia, sua dedicada esposa, carregava.

      Dona Esteródia era uma mulher exemplar. Mas sofria muito, coitada. O marido nunca estava satisfeito com o seu desempenho como mulher, como esposa e como dona de casa. Se era a comida que fazia, não prestava. As roupas dele, quando ela lavava e passava a ferro, nunca estavam boas. Na cama, então… Iiihh, nem é bom falar!

      Vagabundo de marca maior, Heliogábalo vivia às custas da mulher. Seu relacionamento com ela piorou a partir de quando os salários de dona Esteródia deram para atrasar. Ela era funcionária pública.

      Certo dia, Esteródia ligou do trabalho pra casa, o marido atendeu e ela começou a falar:

      – Sou eu…

      – O que é que você quer, mulher da bubônca?

      E ela:

      – Bom, estou querendo lhe dizer que acabo de ganhar na loteria…

      – Brincadeira tem hora, mulher!

      – Estou falando sério. Ganhei na loteria!

      Ligeirinho, o canalha mudou de tom:

      – Ganhou mesmo, meu amor?

      – Já lhe disse que ganhei. Você sabe que eu não sou mulher de brincadeira.

      – Que felicidade, meu amor! Quanto foi?

      – Segundo a Caixa, devo receber uns 25 milhões, mais ou menos…

      Heliogábalo foi a loucura:

      – Venha já pra casa, para a gente comemorar, minha flor! Quando você chegar, vamos pensar no que fazer com essa grana toda !

      – No que vamos fazer? Você é quem vai fazer, meu querido!

      – Eeeuuu? Quanto honra! Mas o que é que eu vou fazer mesmo, minha  rainha?

      – As malas!

      – As malas?! E pra onde é que a gente vai mesmo?

      – A gente, não! Você é quem vai. Arrume tudo o que é seu e se mande daí, seu cafajeste, seu cretino, seu canalha!

      – E a minha parte do dinheiro da loteria, hein? Você esqueceu que somos casados com comunhão de bens, esqueceu?

      – Esqueci não. Acontece que joguei na loteria em nome da minha mãe. Tchau!