Gerônimo Vicente

25 de junho de 2017

Morte de PC: a maioridade de uma cobertura jornalística envolvente

A lembrança veio do colega jornalista Cadu Amaral ao me mostrar  um site com fatos memoráveis. No sábado, 24 de junho de 2017  completou 21 anos de uma  das coberturas jornalísticas mais envolventes de minha carreira profissional que foi a morte de Paulo César Farias, fato, atualmente exposto nas principais enciclopédias do mundo. A ocorrência  surpreendeu a todo o país e, especialmente aos jornalistas  que viam  na figura do ex-tesoureiro da campanha de Fernando Collor à presidência, uma pessoa capaz de revelar tudo  sobre os bastidores da República, pós-ditadura militar.

Era um domingo, 24 de junho de 1996, às 11h da manhã, quando o programa de Gugu Liberato, do SBT e retransmitido pela TV Alagoas, canal 5,  anunciou morte do empresário e da namorada dele, Suzana Marcolino. Um furo nacional que teve origem em uma ligação de um ouvinte para a rádio Gazeta de Alagoas. O  locutor do horário repassou a informação para a emissora de Silvio Santos, porque a  grade  da TV Globo,  naquela ocasião não possuía programação ao vivo.

No período, eu era editor de Política do jornal O Diário, um matutino  cujos proprietários eram “fantasmas” (sem nomes conhecidos), mas dirigido por  um preposto ligado aos supostos donos. Na segunda-feira (25)  seria feriado para o comércio local em função da antecipação do Dia do Comerciário e, deste modo, o jornal acompanharia a decisão tomada pela Fecomércio em fechar as  portas no dia 25 de junho e,  somente retornaria na terça-feira (26).

Por volta das 13h  recebo uma ligação.

  • Gerô, já soube? – era  a jornalista Bleine Oliveira, repórter  de O Diário que  demonstrou todo faro jornalístico ao articular o fim do feriado para os jornalistas e encaminhá-los  para às ruas a partir daquele momento.

         Concordei com ela  e combinamos de  nos encontrar no local do crime. Enquanto isso Bleine, telefonou para Davino para pedir a abertura do jornal  no feriado. Um detalhe interessante é que a jornalista  não se comunicava com o preposto da empresa devido a questões trabalhistas relacionadas à defesa da  categoria na Redação. No entanto, deixou de lado naquele momento, as divergências,  fez a solicitação e foi atendida.

  Dirigi-me, primeiramente, à  casa de PC no bairro Mangabeiras por achar que o caso havia ocorrido na mansão em Maceió. Muitos curiosos se concentravam na porta da casa,  à procura de informações. O porteiro me orientou a procurar o IML. Lá encontrei, além de Bleine Oliveira o colega de trabalho Ricardo Rodrigues, correspondente do Estadão e também repórter de O Diário.

   Pouco depois das 16h,  surgiram as primeiras informações da Secretaria de Segurança Pública, por meio do coronel José Amaral e, para surpresa  dos  jornalistas que na ocasião resumiam-se  aos alagoanos,  a polícia já havia chegado a conclusão do caso em menos de 24h: Suzana Marcolino  havia matado o namorado PC Farias e  tirado a própria vida.

Como o próprio caso aponta até hoje não se tirou uma conclusão sobre o cas. Porém no outro dia na Redação, discutimos  alguns pontos que poderiam ser questionados  como,  por exemplo, por que houve a limpeza do local, antes da chegada da perícia? por que houve a troca de delegado substituído por um diretor da Polícia Civil? E, por que a SSP teria chegado a emitir uma conclusão do crime, sem que  houve um trabalho de inteligência para apurá-lo?.

Fechamos a edição do dia 26 de junho de 1996, apontando essas dúvidas e coincidentemente, a  Folha de São Paulo  fez esses mesmos questionamentos que geram controvérsias até hoje não esclarecidas, apesar de os crimes revelarem para o Brasil  peritos como Badan Palhares e o alagoano George Sanguinetti. Pela primeira vez, Alagoas recebeu jornalistas de todo o País  e do exterior para a cobertura de um caso que a maioria considerava ter algo a ver com o impeachment do presidente Fernando Collor, ocorrido em 1992.A pauta era desvendar o crime e achar respostas para os mesmos questionamentos feitos pelo O Diário.

Apesar das acusações lhe imputadas, PC Farias  tinha  proximidade com a imprensa e, pelo menos nas poucas vezes que o entrevistei não se negou a falar quer seja em coletiva ou entrevista individual. Três meses antes de sua morte o encontrei, por acaso  na entrada da Secretaria da Justiça (Sejus), na praia do Sobral. Eu estava acompanhado do repórter-fotográfico Sandro Lima para cumprir uma pauta com o secretário Rubens Quintella, quando o avistei. Dirigi-me a ele e perguntei o que fazia ali naquele momento.

          -Vim trabalhar, respondeu. Reviso processos criminais – continuou – explicando-me    que passou a ser o advogado de presos que já haviam cumpridos pena.

          Cumprida a pauta, questionei o secretário Rubens Quintella sobre a atividade de PC na Sejus. Ele me respondeu que graças às revisões de processos criminais, acordada com a justiça como cumprimento de pena, muitos  reeducandos que  deveriam ter liberdade há quase dez anos, estariam sendo soltos, Era o serviço comunitário prestado por PC. o que me  valeu uma outra boa  reportagem.

     Vinte um anos depois, sequer dar para comparar os crimes cometidos por PC Farias com a atual quadrilha generalizada, formada por políticos e representantes do poder econômico que saqueou o País nos últimos 25 anos. O empresário foi preso por cometer sonegação fiscal, o mesmo crime cometido por empreiteiras, bancos, políticos em geral, emissoras de TV sem serem incomodados pelo Poder Judiciário.