Ailton Villanova

23 de junho de 2017

Meio comida

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  No século passado, e nas lonjuras da cidade sertaneja de Água Branca, existiu um baixinho de pouco mais de metro e meio de tamanho, chamado Calixto Paixão, que possuía uma rocinha bastante adubada. Do tipo afobadinho, e aflito como ele só, apaixonou-se pela cabocla Januária, que tinha o dobro do seu tamanho. Mas esse detalhe jamais serviu de empecilho para ele continuar sonhando em ter a criatura em seus braços para sempre, se possível.

      Um dia, eis que o destino colocou Januária em seu caminho, quando ele se deslocava de casa para a roça. A estradinha onde os dois se toparam era deserta e, naquilo que bateu os olhos na moça, Calixto quase sofreu um desmaio de tanta emoção. Todo afobado e tropeçando nas palavras, mesmo assim ele conseguiu levá-la no papo.

      E foram para detrás de uma moita.

      Muito nervoso e tremendo de emoção, o nanico não conseguia alcançar o sexo da moça, dado a que, conforme já foi dito linhas acima, ela era mais alta que ele. Desconfortável, a moita não permitia que a transa se concretizasse na conformidade do convencional, isto é, na horizontal. Só daria com os dois em pé.

      – Em cima desses espinhos eu não trepo, não! – avisou a moça.

      E Calixto, todo apressado, catando um toco, uma pedra, para aumentar a sua altura e aí poder penetrar na Januária. 

      E a garota:  

      – Tô quase desistindo!

      Finalmente, Calixto achou um toco. Ajeitou-o numa posição que lhe permitiu alcançar a região genital de Januária e, quando, com muito sacrifício, estava acertando a entrada da “peça”, ouviram vozes. Imediatamente, a moça arriou a saia, subiu a calcinha e saiu correndo. Mal equilibrado no toco, o baixinho esparramou-se no chão. Levantou-se rápido, ajeitou as calças, saltou a moita e saiu correndo atrás da sua grande paixão:

      – Espere aí, Januária! Volta, pelamordedeus!

      Mas a garota já havia sumido na primeira curva. Na disparada que ia, o baixinho deu de cara com um grupo de trabalhadores, homens e mulheres, que caminhavam tagarelando. Ao se aproximar do grupo, Calixto indagou, quase chorando:

      – Puracauso vosmicês num viro passá puraqui uma mulé meio cumida?

 

Degenerou total

      Mulherengo compulsivo, finalmente o empresário Nilcodeu Lins cedeu  às lágrimas e ameaças da mulher e concordou em consultar um psicólogo. Semana depois, ele foi abordado pelo amigo Jorgelino, que estava por dentro de toda a sua história:

       – E aí, Nilcodeu, a terapia tá mesmo te ajudando?

       E ele:

       – Eu ainda tô meio na dúvida, sabe? Mas já consegui levar o psicólogo a três programas pesadíssimos com três putas maravilhosas!

 

O carro fantasma

      Depois de uma bruta farra na zona rural de Palmeira dos Indios, o popular Delúrbio Frazão iniciou viagem de volta ao centro urbano, na base do amor febril. Noite escura que nem breu, ele ia de um canto a outro da estrada mal iluminada, reclamando que nem bode embarcado. Tudo deserto. Nem um pé de gente no caminho, quanto mais carro. De repente, desabou um temporal pesado. Aí, complicou a situação pro infeliz, cuja visão ficou ainda mais embaralhada. Subitamente, eis que reparou num carro se aproximando no maior silêncio. Para sua felicidade, o carro parou.

      Radiante, apesar de ensopado da água da chuva, Delúrbio entrou no veículo, fechando a porta atrás de si. Para seu espanto, não havia motorista ao volante.

      – Vôte! Será que esse bicho é mal-assombrado? – imaginou, mas sem dar muita importância ao fato.

      Pelo menos dentro do carro ele estaria protegido do temporal. Mas, para novo espanto, o veículo reiniciou a marcha, lentamente:

      – Danou-se! E não é que esse bicho é mal-assombrado mesmo!  

      Delúrbio botou a cabeça do lado de fora e viu que uma curva se aproximava à medida que o carro avançava.

       Aterrorizado, e ainda mal refeito do choque por se encontrar num carro fantasama, Delúrbio começou a rezar para que sua vida fosse poupada.

      E foi nesse instante, quando a curva se encontrava a apenas uns escassos metros do carro, uma mão surgiu na janela do dito cujo e moveu o volante.

      Paralisado de terror, Delúrbio continuou observando as constantes aparições da mão misteriosa, antes de cada curva do caminho. Até que, reunindo as escassas forças que ainda possuía, ele saltou do carro, que se achava em andamento lento, e correu para o centro da cidade, que estava bem próximo.

      Cansado, ainda cachaçudo e quase em estado de choque, ele entrou no primeiro boteco que achou, pediu uma meiota de cachaça, bebeu ela toda em questões de segundo, tempo em que relatava ao balconista o que lhe havia acontecido. As pessoas que escutaram a sua história ficaram de bocas abertas.

      Continuava todo mundo estarrecido com a história do Delúrbio quando entraram dois camaradas no boteco, igualmente encharcados da água da chuva. Aí, um deles reparou no Delúrbio num canto do balcão, ainda com cara de medo:

      – Olha lá o cara, Severino! – disse o sujeito, apontando pro  Delúrbio.

      – Que cara, Tonhão?   

      – Aquele sacana que entrou no nosso carro, quando a gente estava empurrando…!