Ailton Villanova

20 de junho de 2017

Três é demais!

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  Analfabetos, nascidos e criados em Jacaré dos Homens, o zelador de igreja Antonio Batista (Tonhão do Padre) e feirante José de Arimatéia Brandão (Zezinho de Arimatéia) eram sujeitos bonitinhos e bacanas. As matutinhas mais lindinhas e fornidinhas da cidade eles traçavam numa boa. Um dia, eles resolveram conhecer paragens mais evoluídas e viajaram até Arapiraca, onde constataram que precisavam aprender muito mais do que sabiam.

      – Caricemo de milhorá, amigo Zezinho! – advertiu Tonhão. – As mulé puraqui só arrepara nos caboco disarnado!

      – Intonce, vamo logo pra capitá, né não? De lá a gente vorta dotô! – sugeriu o outro.

      – Vâmo!

     A dupla voltou pra casa, arrumou seus picuás e montou num coletivo com destino a Maceió. Depois de mais de três horas de viagem, os dois desceram no terminal de passageiros do Feitosa, pegaram um taxi e foram se aboletar numa pensãozinha safada, localizada nos arredores do Jacintinho. À noite, de banho tomado e perfumados, eles desceram o morro, de ônibus, com destino a orla marítima, como sempre toda iluminada e cheia de atrações.

      – Tô c’uma fome da disgrota, Zezinho! – anunciou Tonhão do Padre, assim que baixaram na praia de Jatiúca.

      – Ôxi, meu amigo! Tu me tirô a palavra da boca! Vamo cumê adonde?

      – Lugá é qui num farta puraqui, né?

      – É mermo!

      Nem precisaram atravessar a rua. Do ponto onde se achavam, os dois avistaram um daqueles restaurantes chiques e embocaram lá dentro. A primeira mesa que encontraram dando sopa, eles ocuparam. Não sabendo o que pedir, resolveram imitar o cavalheiro com ares de ricaço que estava na mesa ao lado. O bacana pediu uma entrada e os dois matutos:

       – Garçom, nóis tomém qué isso daí!

      O ricaço pediu um prato especial cheio de frescuras e eles:

      – Nóis tomem vai querê um iguá, viu garçom?

      O bacana resolveu repetir o prato, e os dois jacareenses:

      – Bota um inguarzinho pra nóis…

       Foram indo assim, e eles ainda morrendo de fome. O rico terminou de comer e pediu ao garçom:

       – Meu jovem, por favor, poderia me arrumar um engraxate?

       E o Tonhão:

       – Pra nóis tomém!

       Escutando o que os amigos matutos estavam pretendendo, o ricaço quis ajudá-los:

        – Eu creio que um engraxate dará pra nós três!

        Grosso que nem parede de igreja, Tonhão reagiu na hora:

        – Não sinhô! Vosmicê come o seu e nóis come o da gente!

 

Entendeu mal!

      Pescador de grandes méritos, o galego Álvaro Cleto deu garra de seu instrumental de pescaria, montou no seu carrão e se mandou para a praia do Pontal da Barra, litoral maceioense. Chegou lá, armou o caniço e, quando se preparava para jogar o anzol na água, reparou que a poucos metros de sua pessoa encontrava-se um japonesinho entretidinho, muito na dele, aguardando o peixe morder a isca. Curioso, e querendo entrosar um papo com o amarelinho, Cleto chegou junto:

      – E aí, meu irmão, tu já pescaste bastante?

     Com arzinho de riso o nipônico respondeu:

     – Zaponês já pegou dois dorado, né?

     Alvaro Cleto arregalou os olhos, esforçando-se para acreditar no que estava ouvindo:

      – Eu não acredito! Dourados  aqui no Pontal!

      Dito isto, o galego aproximou-se mais do japinha, e ficou de olho nele, tempo em que jogava a sua linha no mar. E ficou aguardando o momento de capturar o seu primeiro peixe. Não demorou muito, eis que surgiu agarrado no anzol um pelanco de camurim, medindo pelo menos polegada e meia de tamanho. O segundo peixe pescado… uma tainha bem pixototinha. Daí em diante, não deu mais nada.

       Horas mais tarde, muito cansado de tanto esperar peixe, Álvaro Cleto desabafou com o nipônico:

       – Escuta aqui, ô japinha! Tu não me disseste que tinha pescado dois dourados? Cadê eles?

       E o japa:

       – Non! Senhoro entendeu mal, né? Zaponês pegou um peixinho do rado de cá e outro peixinho do rado de lá!

 

Era só uma coceira!

      Depois que perdeu um braço num acidente automobilístico, o distinto Eugaristo Farias entrou numa depressão braba. Com um pouquinho mais de tempo, endoideceu:

      – Sem o meu braço eu não vivo! É melhor morrer!

      E tentou matar-se.

      Num cavernoso final de tarde, ele subiu no alto de um prédio de apartamentos onde residia e ameaçou pular. O pastor evangélico da igreja que ficava em frente, tentou demovê-lo do tresloucado gesto:

      – Meu irmão, mão seja cruel com você mesmo! A vida poderá lhe trazer felicidade, mesmo que você não disponha de um braço…

      Farias nem aí:

      – Eu vou pular! Eu vou morrer!

      Nesse momento de agonia e apreensão, o pastor reparou num baixinho que havia se juntado aos curiosos que se ali se achavam, aguardando o desfecho fatídico da loucura do quase suicida. O baixinho não tinha os dois braços. Naquele mesmo momento, ele começou a pular e a remexer. O reverendo achou aquele negócio incrível! Aproveitou a ocasião e gritou para o Farias:

       – Repare só nesse belo exemplo, meu irmão! Veja este aqui – e apontou para o baixinho – que nos oferece uma excepcional lição de vida. Veja, meu irmão! Ele perdeu os dois braços e ainda tem ânimo para pular e dançar!

        E o baixinho, danado, se acabando no rebolado! E dava pinote pra todo lado!

      O pastor voltou à carga:

      – Vou me aproximar deste rapaz para lhe perguntar o motivo de tanta alegria. Quer vir, também? Venha, desça, irmão, perguntaremos juntos, então…

      Farias desceu do prédio sob aplausos. Chegou ao solo, o pastor pegou-o pelo braço e o aproximou do baixinho, que não parava de rebolar e pular.

      O pastor retomou a palavra:

       – Meu caro irmão, como você consegue ser tão feliz, sem os dois braços, a ponto de sair dançando por aí, cheio de alegria?

      Puto da vida, o escurinho respondeu:

      – Alegria o cacete! Dançando, porra nenhuma! Eu tô aqui é com um comichão filho da puta no cu e não consigo coçar!