Gerônimo Vicente

15 de junho de 2017

A falta de prevenção e o uso indevido da tragédia das enchentes

 

Depois de um período envolvido em projetos profissionais, volto a postar neste espaço e o assunto em foco vem de um fato que convivi em boa parte da vida; enchentes em Maceió e na região metropolitana, que foram embora, mas os problemas que elas causaram à população, bem como o uso criminoso e eleitoreiro da tragédia não devem ser esquecidos jamais e, por isso, cabe ao cidadão alagoano cobrar, frequentemente as ações remediadoras prometidas pelos gestores. O estado, novamente foi castigado pelas fortes e intensas chuvas que duraram mais de uma semana, no final de maio, atingindo, principalmente as cidades ribeirinhas. O último “dilúvio”, havia caído, em 2010. Uma catástrofe que saiu devastando moradias de cidades da zona da mata alagoana (União dos Palmares, Murici), do Vale do Paraíba (Viçosa, Capela, Cajueiro e Atalaia), além de Rio Largo, na região metropolitana. Geralmente o intervalo entre as “cheias” como se denominam as inundações no interior é entre 5 a 10 anos de uma tragédia a outra. E, nesse aspecto, considero que já era tempo suficiente para que as autoridades realizem ações para evitar todos esses os transtornos provocados a população. Porém como de costume a insensibilidade dos gestores públicos pode fazer com que daqui a três meses possam ser ignoradas, não só a ocorrência da tragédia, mas as ações prometidas e, deste modo, um novo castigo natural certamente será aplicado nos próximos, cinco, oito ou dez anos. O uso eleitoreiro e criminoso de tragédia, resultante das enchentes na capital alagoana e no interior do Estado, não é um fato novo e um dos exemplos foi a venda das moradias prometidas aos desabrigados da cheia de 2010. Nas fases da vida como criança, adolescente e adulto, acompanhei esses trágicos momentos. Em 1978, um deslizamento de barreira matou vizinhos meus, quando morava no bairro Mutange. Senhor Propício, avó de colegas de infância foi uma das vítimas fatais, ao tentar evitar a invasão de água na casa dele. Além deles, mais duas pessoas perderam a vida. No dia do acidente, o local da tragédia foi visitado pelo então governador Divaldo Suruagy que prometeu algumas obras paliativas, porém, creio que até hoje os perigos ainda persistem contra os moradores da localidade. Nessa década, alguns locais da capital eram considerados vulneráveis quando se falava em queda de barreira, entre os mais atenciosos estavam, o Vale do Reginaldo, Mutange, Gruta do Padre (Bom Parto), Flexal de baixo, na Chã de Bebedouro e Chã de Jaqueira. Esses eram os pontos que mais incomodavam os integrantes da defesa civil naquela ocasião. Quanto às inundações, essas faziam parte da paisagem da cidade em dias de chuvas intensas e, portanto, para as autoridades não havia com que se preocupar, a não com uma remoção rápida das famílias desabrigadas para as escolas públicas, só enquanto as águas voltassem ao volume normal. Por exemplo, a rua do Banheiro, no Vergel do Lago, local onde nasci, por vários anos foi motivo de foco eleitoreiro. A rua se transformava em uma extensão da lagoa Mundaú e sumia entre as águas e esse era motivo fatal para derrubada de um prefeito, quando as eleições se tornaram diretas a partir de 1985. O fato somente foi resolvido na gestão da prefeita Kátia Born, em 1998, que cansada de apanhar como a “Geni” de Chico Buarque, como ela própria se autodenominou, encontrou na construção de um canal em direção à lagoa a solução para um problema centenário e, assim evitou outras inundações naquela localidade. Contudo, no decorrer dessa mesma gestão, a capital alagoana foi infestada de grotas devido a falta de uma política de conservação ambiental nas áreas de encostas da cidade, de forma que invasões às áreas de matas permitiram a construção improvisadas de moradias, como resultado de um desenfreado êxodo rural e da falta de acompanhamento do poder público sobre essa questão. A omissão do Estado a esse degradante processo provocou o avanço de “minibairros” nesses trechos da Mata Atlântica, inclusive com direito à energia elétrica e à água encanada instaladas pelas companhias responsáveis. As grotas, hoje, recebem benefícios como a construção de escadaria, pontilhões e pinturas de imóveis, ações que parecem demonstrar a presença do poder público naquelas áreas. Porém as encostas permanecem sendo mexidas e remexidas pela população sem incomodação dos órgãos fiscalizadores A leitura que se faz do momento trágico é de que pouca coisa mudará para evitar uma nova catástrofe, a exemplo do que ocorreu em 2010, quando as casas prometidas foram utilizadas para fins eleitoreiros e, depois de sete anos, os desabrigados continuam ao relento. Enfim, na condição de repórter acompanhei algumas dessas tragédias como a de 1989, durante o governo de Fernando Collor e que provocou os mesmos problemas da atualidade, em Maceió e regiões metropolitanas, como Rio Largo, Pilar e Marechal Deodoro, essa última ficou sem acesso desde o início da AL-101 – Sul na altura da ponte Divaldo Suruagy. Em 1998, o fato se repetiu e desabrigou moradores de barracas às margens da Lagoa Mundaú, além de provocar queda de barreira. Antes porém, situação semelhante havia ocorrido em 1978, durante o mandato do prefeito biônico José Bandeira (uma referência a Steven Austin, da série de TV o Homem Biônico, ou seja construído ou prefeito indicado já que não havia eleição direta). A história conta que o canal da levada levava água até o bairro do Centro que emendava com as do riacho Salgadinho, nos anos de 1940 e submergia toda a parte central de Maceió . Dentro dessa desorganização surgiu o bairro do Benedito Bentes e seus conjuntos satélites e seus problemas que somente agora, 40 anos depois começam a ser resolvidos, mesmo assim devido à falta de ocupação urbana da cidade. Antes os governantes não tinham noção do papel do Estado como órgão assistencialista durante situação como essa. A culpa das tragédias por inundações recaia nas famílias que insistiam em erguer moradias às margens dos rios e lagoas ou naqueles que teimavam em habitar sob uma encosta de barro. A reorganização do papel da Defesa Civil em nível nacional fez com que o desleixo fosse repensado e, agora cabe ao Estado agir antes, ou seja prevenir antes de remediar.