Ailton Villanova

9 de junho de 2017

Mas o peixe era carimbado!

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      Coronel da reserva remunerada PM, médico dos bons e gozador da vida e da cara dos outros, Zoomilx Marcelo Melo Costa, sempre foi chegado a uma boemia, desde que passou a se entender de gente. Segundo seu colega Fernando Theodomiro Lima, doutor Zoomilx – hoje em dia um sujeito caseiro e bastante dedicado às rezas -, na época em que foi boêmio, era rigorosamente marcado em casa, pela sua digna consorte, cuja brabeza dava medo. Todas as vezes que ele chegava tarde casa, o “comício” que madame promovia varava a madrugada e chegava às portas da matina.

      Mas o caro leitor pensa que o baixinho ligava para os ataques da mulher? Coisa nenhuma.

      Um dia, Zoomilx combinou com uns parceiros para tomar uns birinaites em Riacho Doce, porque o tira-gosto de agulha frita que serviam por lá era o fino! Quando ele se preparava para cair na rua, a patroa chegou junto:

      – Posso saber para onde “vossa excelência” está indo, doutor?

      Zoomilx respondeu o que lhe deu na telha:

      – Vou pescar com uns amigos…

      – Quem amigos?

      – José Ramalho, Fernando Theodomiro, Zé Rubem Fonsêca, Aílton Villanova, Rubens Camêlo, Gerson Argôlo, Zé Fernandes de Gouveia… e outros.

      – Que outros?

      – Quer mesmo saber? Então lá vai: Bráulio Leite, Valmir Calheiros, João Ramalho, Zé Maia Fernandes, André Costa…

      – E essa turma vai mesmo pescar?

      – De iate. O Zé Rubem, o Gouveia e o Theodomiro alugaram um iate.

      – Tem mulher nesse meio?

      – Por acaso você me ouviu citar alguma? Pescaria é coisa pra macho, minha filha!

      – Mas vocês vão pescar logo no sábado, Zozó?

      – Pois fique sabendo que o melhor dia pra pegar peixe é o sábado!

      – E o caniço? E as iscas?

      – A gente pega lá no clube… No Alagoínhas! Tchau, meu amor!

      Dito tudo isto, Zoomilx pinoteou na garagem, montou no carro, enfincou o pé no acelerador e saiu para a farra. A noitada varou a madrugada, emendou com a manhã, a tarde e a noite do domingo, porque o barato esteve enfeitado de mulheres sensacionais.

       Na segunda-feira de manhã, Zoomilx entrou em casa com ar triunfal, exibindo belos exemplares de peixes, que havia comprado no supermercado.

      – Olha só o que pesquei, meu amor! – mentiu deslavadamente.

      Madame pegou nos peixes e observou com ar glacial:

      – Estão gelados!

      – É que foi pescado em Maragogi…

      – E essas guelras roxas?

      – É a qualidade do peixe. Já viu Albacora sem guelra roxa?

      – E esses carimbos nos peixes?

      – Carimbos?! Ah, sim! É decreto do governo. Todo peixe pescado que passa pelo posto rodoviário tem que ser pesado e carimbado. É lei, meu amor! Lei, é lei, entende?

 

O hiperhipocondríaco

      O mal da hipocondria se abateu sobre o Agatêmio Barbosa quando ele tinha exatos 15 anos de idade. Ela veio através de surtos. Depois, mediante ataques contínuos, até estabelecer-se definitivamente na pessoa do infeliz.

      Agatêmio não é um simples hipocondríaco. Ele é o campeão do retraimento enfermiço.

      Até um tempo atrás ele conseguiu conviver numa boa com a mania de doença. Trabalhava, curtia legal os amigos. Batia até uma bolinha com a rapaziada. Em casa, passou a manter uma farmácia capaz de superar  qualquer rede do gênero. No seu imaginar, já foi vítima de todas as moléstias do mundo. Até da Aids. Sua santa esposa, dona Amaralina, é de uma compreensão incomum.

      Na região nordestina, raríssimos são os médicos que não tenha ao menos ouvido falar no Agatêmio Barbosa. Parece exagero, não é? Pois perguntem ao doutor Biodésio Branchur, que ele lhe conta tudo sobre a vida desse cristão.

      A situação complicou pra cima do Agatêmio quando ele encontrou um antigo colega de trabalho na Petrobras e este lhe contou que estava fazendo hemodiálise. Alí mesmo o Agatêmio começou a sentir os sintomas de rins paralisados. E o que fez, então? Pegou o carro e disparou para o hospital. Em lá chegando, procurou o nefrologista de plantão:

      – Vim fazer homodiálise, doutor!

      E o médico, atônito:

      – Espere aí, meu amigo! Não é assim não! O que você está realmente sentindo?

      – Meus rins pifaram, doutor! Quero me submeter imediatamente à hemodiálise, ou eu morro aqui mesmo, aos seus pés!

      Reparando na figura, o médico persistiu:

      – O senhor não me parece doente! Façamos o seguinte: volte aqui amanhã, para procedermos conforme manda a Medicina.

      Agatêmio vibrou:

      – Vou ficar internado, doutor?

      – Não sei! Primeiramente terei que examiná-lo e, em seguida, pedirei que se submeta a alguns procedimentos laboratoriais.

      Dia seguinte, bem cedinho, lá estava o cara na fila dos pacientes submissos à hemodiálise. Por um descuido da enfermeira, ele sentou na cadeira destinada ao paciente emergencial e mandaram dentro pra dentro dele um monte de sangue novo, retirando-lhe o antigo, que era tão saudável quanto o que estava recebendo. Repentinamente, Agatêmio foi acometido de ligeiro desmaio, de fome, e foi remetido às pressas à UTI.

      Quando era submetido à injeção de soro glicosado,  Agatêmio se virou para o médico e perguntou, com voz sumida:

      – E aí, doutor?

      – “E aí”, o quê?

      – Já morri?